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terça-feira, novembro 24, 2015

Comentando o documentário Filmes Ruins, Árabes Malvados: Como Hollywood Vilificou um Povo (Reel Bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People, 2007)


Por sugestão de um colega professor, assisti sábado ao documentário Reel Bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People. Não sei se houve um lançamento no Brasil, mas o título no Youtube para o arquivo (mal) legendado em português é Filmes Ruins, Árabes Malvados: Como Hollywood Vilificou um Povo.  Baixei o arquivo no torrent com facilidade e com uma qualidade de imagem bem superior.  Talvez, existam legendas por aí.  Mas vamos lá, acho que vale a pena resenhá-lo, trata-se de um material que pode ser usado – desde que por pessoas com senso crítico e informação para guiar a discussão – com grupos de alunos e alunas e mesmo com adultos.

 documentário foi lançado em 2007, foi dirigido por Sut Jhally e produzido pela Media Education Foundation.  O filme é uma extensão do livro de mesmo nome de Jack Shaheen, que co-roteiriza o filme e é seu narrador.  A idéia do documentário não é discutir, a palavra mais adequada é demonstrar que os árabes são o grupo pior representado no cinema americano.  Segundo o documentário, em se tratando dos árabes, Hollywood seria obcecada pelos três Bs: "belly dancers, billionaire sheiks and bombers" (dançarinas do ventre, bilionários e homens bomba). Os sheiks são perdulários e/ou sequestradores de donzelas e mulheres ocidentais, megalomaníacos; boa parte dos árabes em tela são terroristas cruéis e sem maior caracterização que permita a compreensão de suas motivações; enfim, os árabes em Hollywood são, ora, ridículos, ora, seres que transbordam violência; quanto às mulheres, ou são sombras sem rosto, ou dançarinas do ventre, ou, mais recentemente (*ou nem tanto*), terroristas igualmente cruéis.  

Típica representação artística orientalista.


O filme também defende que o cinema Hollywoodiano ajudou a construir no imaginário coletivo a “Arabland”, um lugar que bebe nas narrativas orientalistas dos viajantes europeus entre os séculos XVIII-XX que sempre começa a e mostrar com o deserto e vai introduzindo outros signos que se tornaram familiares a todos nós pela repetição: camelos, oásis, harém, sheiks, às vezes, tapetes mágicos etc. Características de vários espaços islamizados (*e o filme peca em não abraçar este conceito desde o início, como comentarei mais tarde*) são oferecidas em um mesmo pacote para as audiências ocidentais.  Não importa muito se é Norte da África, Oriente Médio, Turquia ou Paquistão, trata-se da Arabland.  

Esta parte do filme me fez lembrar da minha primeira aula de Império Árabe-Muçulmano em Idade Média I, segundo semestre de 1993, quando a professora, Andréia Frazão, minha primeira orientadora, perguntou quais imagens nos vinham à mente quando pensávamos em árabes.  Eu levantei a mão e falei camelos e deserto; ela disse, “Eu, não, penso em Omar Sharif.”.  Passei a pensar nele, também... Omar Sharif, um ator árabe, que se foi este ano era escalado para interpretar de tudo, do árabe ao russo, passando pelo mongol.  Aliás, vários atores latinos passaram pela mesma experiência interpretando árabes, índios, gregos e, claro, latinos.

Omar Sharif (de preto) em Lawrence da Arábia.
No geral, Reel Bad Arabs é um filme pertinente – e cabe o elogio antes das críticas inevitáveis – ao caracterizar o quanto o cinema norte americano é importante na construção do imaginário sobre qualquer coisa e, também, o quão contaminado de interesses de ordem política ele pode ser.  O ponto principal levantado no documentário é de desumanizar os árabes que são apresentados, via de regra, como pessoas violentas oriundas de uma terra e cultura dominada pela barbárie.  Daí, quando os noticiários falam da questão Palestina, no nosso imaginário social, aquelas pessoas são sombras, menos que humanas.  Os humanos são os israelenses, os palestinos, nem tanto, afinal, todos eles são terroristas em potencial.

É mais fácil – e isso vale para representações de latinos e africanos – aceitar a violência contra eles, afinal, são gente ruim, sub-humanos, desprovidos dos nobres sentimentos que habitam em gente civilizada como nós... Ooops!  O problema é que o “nós” acaba sendo muito restritivo, contudo, por recebermos o cinema Hollywoodiano maciçamente, acabamos achando que pertencemos ao grupo dos “heróis” de seus filmes.  Daí, é engraçado lembrar do jogo IrãXEUA na copa da França (1998) e Galvão Bueno escorregando no “nós” ao falar do time norte americano.  O cinema ajuda a criar identidades e estranhamentos. 

Típico árabe malvado em Aladin da Disney.
A idéia da barbárie e selvageria inerente aos árabes está, por exemplo, na abertura do desenho Aladin da Disney (1992), pois logo na primeira música o caráter bárbaro do espaço (a Arabland) e do povo é desvelado: “where they cut off your ear/ If they don’t like your face/ It’s barbaric, but hey, it’s home.” (*onde eles cortam fora a sua orelha/Se eles não gostam da sua cara/É bárbaro, mas hey, é o meu lar*).  A crítica, aliás, antecede o documentário e eu já a conhecia.  A questão, a meu ver, e Reel Bad Arabs não reflete sobre isso diretamente, é que ainda que o filme mostre que as representações sociais equivocadas dos árabes estão presentes desde os primórdios da sétima arte, eles não eram desde o início os vilões preferenciais de Hollywood.  O cinema norte americano precisava inimigos que substituíssem os soviéticos com o colapso da Cortina de Ferro.  Na época, eu percebi dois candidatos fortes, os terroristas árabes, ou mais especificamente, muçulmanos, e os alienígenas.  

Ao escrever isso, não estou pensando em filmes B ou C, a maioria das produções, grande parte da Cannon Films, citadas no documentário não eram blockbusters, mas filmes de segunda ou terceira linha, obras lançadas direto para a TV. Estou falando em True Lies (1994) e Independence Day (1996).  Tanto o terrorista, árabe-muçulmano de preferência, quanto o alienígena são menos que humanos, são criaturas planas e estereotipadas, às vezes, até sem rosto durante boa parte do filme.  Entretanto, é preciso ressaltar que o cinema norte americano não é marcado por representações positivas do estrangeiro em geral, aquele que não comunga dos usos e costumes do americano médio, que, não raro, vem trazer a dúvida, a discórdia, seduzir “nossas” mulheres, e obrigar o sujeito voltado para seu próprio umbigo a reconhecer que existem outras visões de mundo.  


True Lies.
O vilão, especialmente em filmes de ação, suspense, espionagem, terror, é normalmente o outro, não raro, alguém com sotaque.  É assim, por exemplo, em A Rede (1995), no infame A Lenda do Zorro (2005).  Já nos três primeiros filmes da série Duro de Matar temos terroristas estrangeiros, nenhum deles árabe-muçulmano.  E, aí, não há escapatória, Hollywood escolhe seus vilões ao sabor do momento histórico e, claro, influência esse mesmo contexto pela repetição das personagens.  Durante a II Grande Guerra, alemães e japoneses eram vilões principais, substituídos posteriormente por soviéticos e chineses durante a Guerra Fria.  Os árabes e muçulmanos são a bola da vez, mas nunca sozinhos.

Enfim, vendo a lista de filmes produzidos pela Cannon, todos de baixo e médio orçamento, percebi que assisti uma grande quantidade deles, filmes como Braddock, Comando Delta, a série Desejo de Matar com Charles Bronson, Falcão - O Campeão dos Campeões, Mestres do Universo, O Último Americano Virgem, As Minas do Rei Salomão, entre outros.  Todos eram recorrentes nas telas das TVs brasileiras, nunca assisti nenhum no cinema, aliás.  Parei para me perguntar quais filmes influenciam mais o nosso imaginário, os filmes B e C que se eternizavam nas TVs e em homevideo, ou os grandes lançamentos do cinema.  Enfim, o fato é que pouco me recordo de árabes em filmes como esses, nos anos 1980 e antes, a maioria dos terroristas não invocavam divindades pelo que me recordo, agora que o vilão era, via de regra, um não americano é algo muito vívido na minha lembrança.


Cena do avião em Comando Delta, vi mais de uma vez.
O filme – que só tem uma voz o tempo inteiro, a do autor do livro – bate muito na Cannon, produtora de origem israelense e a apresenta como peça chave de um grande complô contra os árabes, vilificando-os, ridicularizando-os e desumanizando-os em suas produções.  Em vários momentos, aliás, o documentário compara a visão sobre os árabes aos discursos nazistas contra os judeus.  Exagero?  Eu acredito que sim e não estou com isso dizendo que Hollywood faz representações justas de árabes e muçulmanos.  

O documentário traz também a informação sobre filmes B de ação patrocinados pelo Departamento de Defesa dos EUA.  Não me surpreende, mas era informação nova para mim.  Em um dos livros de Douglas Kelnner, ele fala do sucesso de Top Gun (1986) e de como do lado de fora de muitos cinemas havia bancas de alistamento militar.  O cidadão assistia ao filme, se empolgava, e corria para entrar para a Marinha ou Aeronáutica.  Acreditar em neutralidade do cinema, em não comprometimento de algumas produções é ser ingênuo ou canalha.  

Não lembrava que Chuck Norris era protagonista do filme, 
só lembrava da interação da aeromoça com os terroristas no avião.
Dos filmes que destaca, Reel Bad Arabs bate forte em True Lies, que confesso ser uma das minhas comédias de ação favoritas na linha "é ruim, mas eu gosto", e em um filme que não assisti, mas deve ser realmente terrível, chamado Rules of Engagement (2000).  Este, pelo que vi no documentário e li em alguns sites, é uma peça de justificação de um massacre perpetrado contra civis por marines comandados por Samuel L. Jackson no Iêmen.  Não se trata agora da Arabland, mas de um país real, ademais, reforça a idéia de que todo árabe é terrorista ou assassino, incluindo mulheres, crianças e velhos.  E isso antes do 11 de setembro.  Para muita gente, é a idéia que fica.

E, agora, entro nas minhas críticas e são muitas, pode acreditar.  Nem vou dizer que tenho mixed feelings em relação ao documentário, ele me deixou, na verdade, bem aborrecida em alguns momentos. A análise é parcial, vitimizadora dos árabes, como se Hollywood não se esmerasse em produzir estereótipos de todo mundo.  Na mesma linha de documentário, e muito superior, posso citar The Celluloid Closet (1995), que é sobre os homossexuais no cinema norte americano.  Neste documentário, que eu nunca resenhei aqui, destacam-se todos os estereótipos sobre homossexuais no cinema, fala-se desde uma época, antes do duro código criado nos anos 1930, em que os gays eram personagens recorrentes e mesmo positivas até a recente, ou nem tanto, já que se vão uns 20 anos, onda de colocar os LGBTs como vilões.  

Típico sheik perdulário e tarado.
Algo que sempre questiono é o motivo de escolherem membros de minorias – que só o são, porque sub-representadasm nas telas – para encarnar papéis vilanescos.  Nem bem nos acostumamos a vê-las como personagens normais e comuns, já que trazem vários estigmas e, quando recebem destaque, são marginais, psicopatas ou coisas do gênero.  Vale para gays, vale para árabes, vale para outros grupos subrepresentados.  Não há porque celebrar a vilanização como revolucionária ou, como gostam alguns autores de novelas brasileiros, uma afronta ao politicamente correto.

Voltando a Reel Bad Arabs, analisar é uma coisa, dizer quase que "é só com a gente" é uma outra muito diferente. Só que o filme investe pesado nessa linha de raciocínio e, mais ainda, omite pelo menos dois estereótipos de árabes que são fundadores do cinema: o sheik sedutor e o árabe honrado capaz de tudo por seu amigo (*normalmente, o mocinho ocidental*).  Enfim, falemos do sheik. Talvez por ser narrado por um homem e estar falando de homens quase o tempo inteiro, com as mulheres meio como nota de rodapé no filme, ele esqueça de falar de uma poderosa representação ligada, principalmente, à cultura pop para mulheres.  

O sheik, Rodolfo Valentino, coloca a mocinha inglesa no "seu lugar".
Ora, qual o papel máximo de Rodolfo Valentino (1895-1926), um dos primeiros, talvez o primeiro mesmo, galã do cinema americano?  O protagonista de O Sheik, que tem imagens usadas no documentário, mas não é discutido.  A personagem que sequestra a mocinha (britânica) aristocrática, a maltrata e acaba se apaixonando por ela e vice-versa, entrou para o imaginário e foi reprisada e reprisada nas telas, nos livros e, como não poderia deixar de dizer, nos mangás femininos.  O sheik “para mulheres” não é o velho asqueroso dos filmes mostrados no documentário, tampouco, o sujeito cheio de luxúria que quer violentar ou violenta a mocinha que, mais tarde, será resgatada pelo herói ocidental.  Ele é o herói da história.

 O sheik brotado da literatura para mulheres, e escrita muitas vezes por mulheres, é o sujeito viril, honrado, sedutor e que, sim, às vezes, parece (*e é*) violento com a mocinha.  Ele a arrasta para a Arabland e ela acaba, no final, desejando ficar por lá, muitas vezes largando para trás o noivo ocidental.  O filme opta por não falar deste estereótipo que também poderia ser visto como negativo (*não somente pelas feministas*). O Sheik é de 1921, portanto, dos primórdios do cinema que o filme faz questão de ressaltar como formadores do imaginário sobre a Arabland e os árabes, e baseado em um romance escrito por uma mulher. Por que omitir?  E olha que há até filmes mais sérios protagonizados por sheiks positivos, vide O Vento e o Leão (1975) com Sean Connery, que não é citado no filme.

Detalhe do cartaz do Sheik.
Aliás, o verbete da Wikipedia sobre o documentário lista os filmes citados no documentário.  Alguns deles, como o Enigma da Pirâmide (1985), um filme que eu amo, não consegui ver em tela.  Só que um dos filmes da Múmia com Brendan Fraser foi utilizado para mostrar o árabe estereotipado e não aparece listado na Wikipedia.  Acredito que faltem outros filmes e outros apareçam listados sem estarem no documentário, caso de Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões (1991) que deveria aparecer como um dos que fazem representações positivas, já que a personagem de Morgan é o árabe honrado e, ainda por cima, culto.  Olhei de novo e não vi citado por nome.  Se passou alguma cena foi algo rápido e sem comentários por parte do narrador.

Voltando às críticas, a pior, na minha opinião, é que lá pelas tantas percebo que os realizadores cometeram um deslize a meu ver imperdoável, pois ao dizer árabe queriam, na verdade falar muçulmano. Sabe por qual motivo eu sei disso? A Revolução Islâmica não foi feita por árabes, iranianos não são árabes e a revolução em si não azedou as relações entre os norte americanos e os países árabes, o problema era com os iranianos. Pouco depois, aliás, os Estados Unidos vão ajudar Bin Laden, um sunita, no Afeganistão contra os soviéticos, a despeito da Revolução Iraniana. E, claro, afegãos não são árabes, mas sauditas, como Bin, são.  

Até as crianças são terroristas em Rules of Engagement.
Seria mais correto, para não dizer honesto, afirmar que a Revolução Iraniana influenciou a forma como os muçulmanos, os xiitas em especial, os “maus muçulmanos”, serão mostrados no cinema americano a partir de então.  E a coisa foi agravada quando os xiitas no Líbano colocaram os americanos para correr depois de um mega atentado .  Vejam que, no Brasil, xiita virou sinônimo de radical.  Enquanto isso, filmes como Rambo 3 (1988) vendiam os talebãs como guerreiros da liberdade, gente boa que lutava contra os vilões comunistas, e eram apoiados por um dos ícones do cinema de ação e propaganda de Hollywood.  Sempre digo aos meus alunos e alunas que se trata de um documento histórico.  Curiosamente, o filme silencia sobre esse filme.

Eu já desconfiava desde o início que Reel Bad Arabs estava falando de árabes quando queria ou deveria falar muçulmanos, ou, se fosse um filme melhor organizado, deveria separar os dois logo de saída, ou dizer que, pelo menos a partir de um determinado momento, que eu situo na virada para a década de 1990, o cinema americano passou a misturar as duas coisas.  Daí, quando eles cismam de separar árabe de muçulmano, pois querem introduzir o conceito de islamofobia, a coisa não fica muito clara em nenhum momento.  Além disso, para se contrapor aos estereótipos negativos, o narrador parece falar de um árabe genérico, uma “raça” uniforme, que está no reino das idéias para ser alcançado por todos nós.  Esse árabe universal obviamente não existe, fora os constrangimentos de considerar iranianos árabes e tentar forçar a idéia de que não existe grupo humano (*o filme usa “race” o tempo inteiro*) mais vilificado por Hollywood do que os árabes.  

                           Terrorista líbio de de De Volta para o Futuro.                             
Um dos exemplos generalizadores dados pelo documentário é De Volta para o Futuro (1985).  Dr. Brown é morto, segundo Reel Bad Arabs, por terroristas árabes genéricos e desnecessários.  Eu que não via o filme fazia muito tempo, fui checar para ver se minha memória não em enganava. Eu lembrava claramente de menção à terroristas líbios e não estava errada.  Em 1985, a Líbia patrocinava abertamente o terrorismo, estava em pé de guerra com os EUA, que bombardearam o país em 1986,  e toda tensão da época culminou com a derrubada do vôo da Pan Am em Lockerbie, Escócia em 1988.  Havia um contexto que individualizava os agressores, que eram tudo, menos árabes genéricos.  

Recordo-me ainda  de vários filmes com terroristas árabes em que não havia menção ao conteúdo religioso, até porque, nos anos 1960, 1970, 1980, era comum a existência de grupos guerrilheiros em Israel, no Líbano e em outros lugares sem um viés religioso explícito e unidos por bandeiras de esquerda e conceitos como o pan-arabismo.  Não raro nesses grupos – o filme mostra vários exemplos se discutir essa questão – as mulheres, sempre sem véu, eram ativas integrantes das células de ação.

 O príncipe progressista de Syriana.
Aliás, falando das mulheres, o documentário insiste que há três estereótipos para as mulheres árabes em filmes americanos: a dançarina sedutora; a submissa, velada ou não; e a terrorista sem coração.  Enfim, ele faz questão de ressaltar que as mulheres árabes são ativas, profissionais respeitadas, que são a maioria das alunas das universidades em vários países muçulmanos (*não árabes, veja bem*) blá-blá-blá, sem em nenhum momento falar de Talebã, das limitações existentes em países como a Arábia Saudita ou o Irã, ou dos casamentos infantis no Iêmen... E, mais adiante, cai na esparrela de citar Syriana (2005) como um modelo de filme hollywoodiano que retrata de forma mais equilibrada os árabes.  E qual a cena mostrada? Uma em que o príncipe progressista dala de seu desejo de modernizar seu país, uma das propostas é dar o voto às mulheres... Ora, da mesma maneira que o cinema generaliza, o crítico também o faz por seu turno.  A omissão em aprofundar a discussão sobre as mulheres não é inocente, não quando se é tão político em sua análise.

De resto, na parte das visões positivas, o documentário cita filmes não hollywoodianos, ou seja, contrariam a amostragem proposta.  Paradise Now (2005), que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, é uma co-produção de vários países como Palestina, Israel e França, não é americano, portanto; já Hideous Kinky (1998) é da BBC e não tem relação com Hollywood.  Se fosse assim, valeria citar exemplos cinematográficos de todo mundo, coisa que já é inviabilizada pelo título do filme.  

Saladino em Cruzada.
Nessa parte das representações positivas, o único filme hollywoodiano que recebe destaque e elogios é Cruzada (2005).  Falar de Saladino – um sujeito elogiado por aliados e inimigos – é meio que chover no molhado e o documentário se agarra a ele para falar da tolerância vivida no mundo árabe (*sim, essa coisa genérica*) entre cristão e muçulmanos, que o filme foi aplaudido em Beirute, que fez mais sucesso fora dos EUA do que dentro dele.  É o único momento em que o documentário fala que nem todos os árabes são muçulmanos, mas como o objetivo é passar uma imagem sempre positiva dos árabes, as tensões, já evidentes em 2006, ano de produção do filme, especialmente no Iraque ficam de fora.

Eu particularmente não gosto de Cruzada, ainda que goste de Saladino.  Só que cabe ressaltar que o filme em questão tem como objetivo mostrar o quão complicada era a situação dos cristãos no Reino de Jerusalém e o quanto esses mesmos cristãos, em especial os Templários, vilanizados na película, não estavam se comportando lá muito bem.  Ao mostrar os muçulmanos, Cruzada não foge dos estereótipos em relação aos árabes.  Temos Saladino, a figura máxima, imbuída de todas as virtudes possíveis.  Ele está além de qualquer análise, só que há duas outras personagens árabes proeminentes.  Uma delas é o árabe honrado, aquele estereótipo que não é analisado no filme.  Alexander Siddig, que vive sendo escalado para papéis “exóticos”, afinal, até bizantino já foi, encarna o papel de Nasir.  Ele também é o príncipe progressista de Syriana.  

Morgan Freeman em Robin Hood.   
A personagem guia o herói, age à serviço de Saladino, é um tipo recorrente no cinema hollywoodiano, também.  Omar Sharif, uma ausência no documentário, faz um tipo semelhante em Lawrence da Arábia (1962).  É o árabe do bem.  Talvez, o filme tenha chegado perto dessa representação ao expor que em filmes de ação – aqueles com comandos e coisas do gênero – há o árabe bom, que mata os árabes maus e age junto com o herói, mas nunca é o protagonista do filme.  Só que reduzir o árabe honrado a isso é um exagero, prefiro acreditar que o filme omitiu esse estereótipo por ele ser positivo, ainda que esquemático.  De qualquer forma, o árabe honrado é uma personagem que existe em função do herói, está a serviço do colonizador, por assim dizer.

O outro árabe em evidência que aparece em Cruzado é o sujeito com discurso de ódio, que quer matar os cristãos, que se veste de preto (*e era bem gatinho*).  Meu marido e eu brincamos que era o cara do Hizbollah, o moço da jihad.  Ele, claro, não se cria com Saladino, mas está lá para lembrar a audiência de que existem os bons e os maus árabes.  Cruzada se prestaria muito à análise do documentário, mas aparece só para tentar passar a idéia de que Saladino era menos uma exceção e mais uma regra do que os árabes eram e são.  


Arábe "Cachorro Louco do Deserto" em um desenho do Gaguinho.
Enfim, Reel Bad Arabs vale ser assistido, mas é parcial o suficiente para servir de armadilha para quem não tenha conhecimentos suficientes sobre o contexto histórico e mesmo memória sobre cinema.  Gostei e não gostei, o deslize dos iranianos chamados de árabes me fez questionar se seguia até o final.  Cheguei ao fim, mas com a certeza de que a questão dos árabes no cinema norte americano merecia um documentário melhor, um tão bom quanto The Celluloid Closet.  Para quem quiser, o documentário legendado em português está aí embaixo.






domingo, agosto 19, 2012

Cinema & História: Corações Sujos (汚れた心 – Kegareta Kokorō)



Sexta-feira, assisti Corações Sujos (汚れた心 – Kegareta Kokorō), filme baseado no livro do jornalista Fernando Morais sobre a organização ultranacionalista Shindo Renmei (臣道連盟 – Liga do Caminho dos Súditos). Quando o filme foi anunciado, criei grandes expectativas em relação a ele, afinal, havia material de sobra para fazer um grande filme, que pudesse jogar um pouquinho de luz sobre um dos capítulos trágicos da imigração do Brasil. O filme, no entanto, só consegue ser mediano. Opta por um recorte intimista sem se importar muito o cenário histórico, algo fundamental, tomando para si ares grandiosos que não tem. E a culpa não é dos atores e atrizes, talentosos e bem escolhidos, mas da direção de Vicente Amorim. Daria para fazer dez ou mais filmes sobre a Shindo Remei, ou sobre as políticas xenófobas Varguistas e eu espero que Corações Sujos não seja encarado como uma obra definitiva, mas como uma abertura para explorar episódios dolorosos da História do Brasil.

O filme corações sujos se passa em 1946, em uma cidade do interior de São Paulo que tem nos japoneses e seus filhos a maioria da população. Cerceados dos mínimos direitos – ir e vir, falar o japonês em público, ouvir rádio, ler jornais ou revistas em sua língua, etc. – a comunidade carece de informações sobre o fim da guerra no Pacífico. Neste contexto floresce uma organização secrete ultranacionalista chamada Shindo Renmei. Seus membros se negam a acreditar que o Japão perdeu a guerra, defendem a divindade do imperador e punem com a morte os “corações sujos”, isto é, os membros da comunidade que se neguem a acreditar na “verdade”. É neste contexto conturbado que vivem as protagonistas, Takahashi (Tsuyoshi Ihara), o fotógrafo da comunidade, e sua esposa Miyuki (Takako Tokiwa), que dá aulas de japonês às escondidas para as crianças. A vida dos dois se transforma em tragédia quando o pacato Takahashi se torna um tokkotai, um assassino à serviço dos ideais da Shindo Renmei.

Enfim, se você for assistir Corações Sujos tenha em mente que não e um filme sobre o Shindo Renmei, ou sobre as leis xenófobas que oprimiam não somente os japoneses, mas outras comunidades imigrantes. O filme é sobre o drama pessoal de um homem, Takahashi, e como ele é cooptado por uma organização radical, que misturava religião e política, sendo levado a cometer vários crimes. Corações Sujos é, também, o filme sobre uma mulher que ama e que tem que escolher entre o marido e sua consciência. Em nenhum momento Corações Sujos me pareceu um filme histórico, trata-se de um drama intimista sobre sentimentos como honra, vergonha, amor, fidelidade, culpa norteados pelos valores da cultura nipônica tradicional. Infelizmente, como o filme parece almejar o rótulo de “genial” e “cult”, a coisa se perde.


Não é um filme ruim, não é um Olga, por exemplo, mas é um filme que abusa de cenas longas, de enquadramentos de câmera que se supões poéticos. Mesmo a distorção da imagem, que funciona como uma metáfora da visão distorcida de mundo dos membros do Shindo Remei, termina por ser cansativa já que é usada de novo e de novo à exaustão. As únicas imagens que funcionam bem são as menções à bandeira do Japão em vários momentos. Especialmente no sangue sobre o chão, que Miyuki se esforça por limpar, e no sangue sobre o algodão depois do assassinato do líder da cooperativa, Sasaki, interpretado de forma muito convincente por Shun Sugata. A morte do Coronel Watanabe também foi uma cena muito bem executada e bonita até, assim como o desespero de Miyuki e suas galinhas notívagas...

Mas vejam que eu pontuei cenas, faltou coesão narrativa ao filme, faltou contextualização, faltou delinear com clareza o que foi o Shindo Renmei, que não se tratava de uma empreitada de um grupo de colonos japoneses em uma cidadezinha, mas que era algo muito maior. Faltou mostrar o papel da polícia brasileira. Porque o Du Moscovis aparece no trailer sugerindo uma grande participação e, no filme, ele mal dá as caras. Trata-se de figurante de luxo. O DEOPS (Delegacia Especializada de Ordem Política e Social) desbaratou o Shindo Renmei. Em Corações Sujos fica parecendo que a polícia olhava a matança e ficava com aquela postura “eles que são amarelos que se entendam”. Há relatos de época de delegado pedindo apoio do Exército.

No filme, o delegado e sua tropa são passivos boa pare do tempo. O tal cabo Garcia, que tinha toda a pinta de sádico racista, só aparece no início para detonar o conflito, fazendo parecer que a Shindo Renmei tinha aparecido ali, naquele momento. A polícia getulista – já era Governo Dutra, coisa que o filme nem busca situar, mas o pessoal era o mesmo – não era de dar refresco, não. Aqueles sujeitos que tentaram atacar a delegacia iriam apanhar muito... Aliás, o único negro que aparece no filme, um advogado, está lá só para que Du Moscovis use uma lapidar frase racista, algo como “Só no Brasil, para um monte de amarelos serem soltos por um advogado preto”. Mas como a personagem dele não é desenvolvida, não dá para saber até que ponto ele estava despejando sua frustração, ou era racistão de carteirinha...


O Coronel Watanabe, o “vilão” da história, é inspirado no fundador da Shindo Renmei, o Coronel Junji Kikawa. Interpretado com muita dignidade pelo ator Eiji Okuda, a personagem consegue passar toda aquela arrogância dos que tem certeza de que estão com a Verdade, assim mesmo, com “V” maiúsculo. Um sujeito como ele seria capaz das atrocidades cometidas em filmes como Flores do Oriente. Watanabe não suja suas mãos, ocupando lugar de destaque na comunidade, ele é respeitado por ser nobre, por ser velho, por ser coronel. E consegue cooptar os jovens e intimidar os adultos com sua propaganda da vitória japonesa. Só que mesmo aí o filme fracassa, porque tenta vilanizar um sujeito que era norteado pela honra, ainda que sob uma perspectiva distorcida.

Houve durante a existência do Shindo Renmei picaretas, os lero-lero, que se aproveitaram da boa fé dos imigrantes, vendendo-lhes terras em regiões conquistadas pelos japoneses, como a China, Filipinas, Coréia, ou no Japão. Esses caras levaram muitos japoneses crédulos à falência e, alguns, terminaram se suicidando e eles nada tinham a ver com a organização, somente percebiam o quanto ela poderia facilitar seus negócios. No filme, para aumentar a vilania do Coronel, ele é apresentado como alguém ligado a esses sujeitos. E a coisa é jogada, sem desdobramentos e absolutamente contraditória com a personagem, cuja conduta, repito, se pautava por rígidos princípios de honra. Foi um recurso pobre para desprezarmos o Coronel, como se a empatia por Takahashi, Miyuki e o chefe da cooperativa e sua família não bastassem. O que foi aquela cena do Coronel indo fazer uma oração fúnebre na casa do dono da cooperativa antes do homem ser morto? Depois disso, a gente sente vontade de ver o velho – que me lembrou a D. Dorotéia de Gabriela – como um monstro.

O ponto positivo é que saí do cinema e comprei o livro Corações Sujos. Primeiro, porque já deveria ter lido mesmo; segundo, porque o filme pareceu não estar interessado em discutir o significado da organização. Trata-se, repito, de um filme sobre relações humanas, sobre sentimentos que nos arrastam, sobre pressão social. Só que se vendeu como um filme sobre a Shindo Renmei e sobre um capítulo muito pouco conhecido da História do Brasil. Eu nunca ouvi falar de Shindo Renmei na faculdade. Eu nunca encontrei uma linha sobre ela em um livro didático. Nada! Soube pela internet, pelas matérias sobre o livro do Moraes, pela propaganda do filme e, sim, fui até a internet em busca de material, desde a Wikipedia até dissertação de mestrado. Aliás, para quem quiser ler um artigo bem instrutivo sobre o grupo e imaginar o quanto de material havia para se fazer um grande filme, é só clicar em Realidade alterada: o poder da Shindo Renmei. Também recomendo o texto Rompendo silêncio, que fala de forma bem didática das leis racistas e do preconceito contra os japoneses. Não é difícil entender como a Shindo Renmei conseguiu crescer tanto, matar e aterrorizar tanta gente.


Enfim, resta comentar sobre a Bechdel Rule. O filme cumpre? Acredito que, sim. Temos a professora Miyuki que é co-protagonsita do filme e uma mulher ativa dentro das suas condições e produção. Ela é professora, membro respeitado da comunidade, esposa que apoia o marido, mas que tem opiniões próprias e opta por ser fiel a sua consciência. De novo, uma mulher forte não precisa estar armada para a guerra e sair socando gente por aí. Miyuki é forte a sua maneira. Temos a personagem Naomi defendida pela menininha Kimiko Yo. Fofa e talentosa, ela ajuda Takahashi em seu trabalho como fotógrafo até que a Shindo Renmei os separa. Há, também, a mãe de Naomi, Akemi Sasaki (Celine Fukumoto), mulher de fibra e que se desespera quando sabe que o marido é um homem marcado e também disposto a morrer pelo que é certo, nesse caso, a verdade sobre a guerra e a defesa dos colonos. É ela quem embolacha o Coronel em uma cena memorável. E há outra menininha, filha de Aoki, o primeiro assassinado, que tem nome. Talvez aparente que as conversas delas são sobre os homens que amam e isso invalida a regra, mas acredito mais que as conversas das mulheres ultrapassem o pessoal, e resvalem também em questões como honra, dever, fidelidade e consciência. Fora, claro, que elas são mostradas como elementos ativos e participantes da vida da colônia.


Enfim, Corações Sujos é um filme que poderia ser muito bom, mas que tem aspirações de grandeza que tolheram o desenvolvimento da narrativa. Uma direção firme, cenas mais enxutas, e o interesse real de fazer um filme sobre a Shindo Renmei poderiam ter transformado o filme em um dos melhores produtos brasileiros do ano e um provável candidato nosso ao Oscar. Mas não é nada disso. Não é um thriller, como já vi em algumas resenhas por aí, nem é um romance. Trata-se de um incômodo meio termo, de algo que deseja parecer maior do que é realmente.

domingo, março 04, 2012

Cinema & História: A Dama de Ferro



Hoje à tarde finalmente consegui assistir A Dama de Ferro. Apesar de já ter o filme no meu HD, fui ao cinema acreditando que poderia, sim, ser um bom filme. Enfim, se eu tivesse que resumir em uma palavra The Iron Lady seria engodo. Antes que alguém se espante, afinal, Meryl Streep levou o Oscar, explico que são coisas diferentes. O desempenho da atriz, assim como o de Jim Broadbent, que faz o marido da Primeira-Ministra, é soberbo, mas o filme deixa muito, muito, muito a desejar. Tentarei explicar de forma bem econômica: não se deixe enganar pelo trailer, pois você não vai ver um filme sobre Thatcher, a Dama de Ferro, mas sobre as reminiscências de uma velhinha solitária e perdendo a sanidade. Gato por lebre, acredite. No entanto, vou tentar observar o filme por vários ângulos, afinal, não considero a película de todo ruim.

Margaret Thatcher merece um lugar na História, afinal, conseguiu ser a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra em um país ocidental (foi precedida por Golda Meir em Israel e Indira Gandhi na Índia) e o político a permanecer por mais tempo nessa função durante o século XX, governando de 1979 até 1990. Ela foi tão icônica, que há uma anedota inglesa sobre o menininho que perguntou ao professor de História se homens podiam ser primeira-ministra. Vejam bem, que até a eleição de Dilma, muita gente dizia que uma mulher jamais seria eleita para o cargo ou que teríamos que esperar umas boas décadas. Thatcher é, portanto, uma personagem muito importante quando se pensa em mulheres ocupando o comando de nações. Antes que alguém fale que a Inglaterra tem e teve rainhas, vale lembrar que, até a recente lei que acaba com a primazia masculina, rainhas na Inglaterra eram um acidente, elas estão lá porque, por azar, nenhum menino nasceu antes ou depois delas. Triste, não é?

Só que a mesma Thatcher se comportou como qualquer outro político conservador, ou até mais ainda, porque talvez tenha ajudado a redefinir as políticas do partido, atacando sindicatos, cortando direitos sociais, favorecendo a concentração de renda, reprimindo violentamente os irlandeses, privatizando a economia inglesa, mostrando desprezo pelos milhares de desempregados. Aliás, quando ministra da educação, ela cortou o leite das criancinhas. Para que, não é? Precisamos economizar. Thatcher junto com Ronald Reagan são os maiores responsáveis pela imposição das políticas neoliberais. Os frutos estão seno colhidos agora. Há melhor momento para se fazer um filme sobre Thatcher? Se o filme fosse abordar essas questões seriamente, mas não foi bem o caso.

A Dama de Ferro tem como foco principal a senil ex-primeira-ministra da Inglaterra. As memórias da sua trajetória política são fragmentadas e pontuadas com alucinações nas quais ela imagina que seu marido, Denis Thatcher (Jim Broadbent), ainda está vivo. Tudo que vemos do tempo de Thatcher adolescente, postulante à carreira política, mãe, ministra da educação, primeira-ministra é flashback. E tudo, como já pontuei, muito fragmentado. Quando a gente começava a gostar e, caramba, ame ou odeie Thatcher, ela foi impressionante e interpretada por Meryl Streep... a cena era cortada e voltávamos para a velhinha debilitada, sua solidão, sua saudade do marido, etc., etc. Assim, um balde d'água fria. Os trailers de A Dama de Ferro fazem parte do engodo. Eu cheguei em casa e fui assistir todas as versões que encontrei. Procure a Thatcher idosa. Ela aparece muito rapidamente, nunca vemos uma cena dela. Parece até "pegadinha do malandro".

Se eu tivesse ido ao cinema ver um filme sobre a solidão da velhice, sobre a incapacidade da nossa sociedade atual em valorizar o passado, sobre a dificuldade em se perder alguém que se ama, OK. Só que o trailer e as críticas me venderam que era um filme sobre A Dama de Ferro. Mesmo a entrevista com a Meryl Streep, que coloquei aqui no blog, não deixou claro que o fio condutor seria a mulher senil. Sabia da cena de Thatcher comprando leite, mas acreditava que essa faceta da personagem, que, aliás, ainda está muito viva, seria detalhe. Só que não é. Como representação da velhice, da angustia do esquecimento e da saudade, o filme é bom. No entanto, o filme é sobre Margaret Thatcher e a todo instante somos levados a esquecer disso... Só que paguei ingresso para ver a política aguerrida e insensível para com as questões sociais. Cadê? Vendo o filme, entendi perfeitamente porque não foi indicado para Melhor Filme, Roteiro ou Direção (*OK, a diretora é mulher, provavelmente ficaria de fora mesmo...*) . Simplesmente, não merecia.

Como a longa trajetória política de Thatcher como primeira-ministra é detalhe, algumas questões não são tocadas, como a aliança com Ronald Reagan (*Ah! Mas eles aparecem dançando!*), o fim da Guerra Fria (*mas é dito que a primeira-ministra quer acabar com ela!*) e a questão irlandesa. Por que eles estavam fazendo atentados mesmo? Por que tentaram matar a Primeira-Ministra e seu marido fofo? O filme não explica. Parecem omissões propositais, especialmente, o caso Reagan. De resto, a trajetória política e mesmo a vida de Thatcher é mostrada como memória fragmentada. Sabemos que desde cedo ela se interessa por política, que seu pai era atuante em sua cidade, que ele a incentivava, enquanto sua mãe a puxava para a cozinha. Sabemos que ela era pobre, que teve que se esforçar para conseguir ir para Oxford. Mas o que ela estudou mesmo? Daí, pulamos para o início de sua carreira política e seu encontro com o marido. E vamos de salto em salto. Opção? Sim, mas quem saiu perdendo foi o filme. O destaque maior desses saltos são as cenas de arquivo mostrando as manifestações, os embates entre manifestantes e a polícia, e a violência da repressão.

O desempenho de Meryl Streep como Thatcher foi soberbo. Algumas cenas, são fantásticas, mas o mérito é dela, não do roteiro ou da direção. Eu não lembrava bem da forma como Thatcher falava. Achei a entonação de Streep bem irritante, menos, depois que ela passa a ser treinada para se candidatar à chefia do partido conservador, mas era exatamente assim que Thatcher falava. Olhem só esse vídeo. Streep deu o seu máximo para conseguir dar vida à Margaret Thatcher e à velhinha inventada para o filme. Sim, inventada, porque Streep diz que Thatcher e seus familiares não colaboraram com o filme e que essa parte dependeu muito da sua interpretação. Streep interpreta Thatcher adulta e idosa, e a maquiagem só serviu para acentuar seu desempenho. Já a Thatcher jovem foi muito bem interpretada por Alexandra Roach. Mas além de Streep, quem arrasou foi Jim Broadbent, ele merecia ser indicado como coadjuvante.

Antes do fim resta tocar em uma questão importante. Há quem esteja querendo vender Thatcher como um modelo para as mulheres. Outros se preocupam com a suposta tentativa do filme em fazer dela um ícone feminista. Thatcher é importante para as mulheres, aliás, escrevi isso lá no início do texto. Ela abriu caminho e é tão simbólica como Obama nos EUA, ou Dilma aqui. Isso quer dizer que ela era feminista? Não. E o filme não a vende assim. Aliás, há uma cena em que Thatcher idosa mostra desprezo pela fala de uma mulher que diz que ela foi inspiradora para as mulheres e para ela. Thatcher no filme estava interessada em vencer e chegar o mais longe possível, afinal, ela tinha sido estimulada desde cedo pelo pai. Ela não questiona os papéis das mulheres, ela os despreza, ela prefere os homens. Prestem atenção na questão das xícaras. É algo fundamental para se entender o caráter dela. Thatcher não estava pensando em mudar o lugar que as mulheres – a maioria delas, pelo menos – ocupavam na sociedade, ela simplesmente não queria ocupá-lo. Vencer, dependeu dela mesma. É isso que o filme vende. Aliás, ela é a self made woman, no máximo, ela dá algum crédito ao pai, de resto, ela chegou lá por seus esforços.

Agora, como o filme foi feito pro mulheres, a diretora (Phyllida Lloyd) e a roteirista (Abi Morgan) não deixam de discutir questões de gênero. Adolescente, Thatcher é puxada pela mãe para as prendas domésticas. Candidata a primeira vez, ela é tratada com complacência e desprezo porque reúne três estigmas, é mulher, é jovem, e tem origem nas classes trabalhadoras. Depois, no Parlamento, ela é sempre mostrada como única entre homens e a sala das deputadas é minúscula e tem uma tábua de passar ocupando boa parte do espaço. E para achar um banheiro? Como Ministra, é acusada de histérica, afinal, ela é mulher, é a acusação machista mais fácil. Quando no caso das Malvinas, ela diz ao Embaixador Americano que esteve em guerra sua vida inteira. Sim, mesmo quando uma mulher na política, ou um gay, ou outra minoria qualquer, levam à sério seu papel, mesmo quando não levantam bandeiras sociais, eles sofrem. Sofrem somente por estarem lá. E eu não tenho dúvidas que Thatcher levava seu papel á sério, ainda que eu não concorde com a forma como ela conduzia a sua política. Agora, cortaram uma cena que aparece no trailer, quando Thatcher à frente de um bandão de chefes de Estado – todos homens – diz "Gentlemen, let's join the ladies!". Sim, porque ela, Thatcher, podia ser mulher, mas não era uma das "ladies", ela era única, pois tinha invadido o "clube do bolinha". Essa cena precisava estar no filme para fazer par com a outra, lá do início do filme, quando a jovem candidata Thatcher é obrigada a "se juntar às damas", enquanto os homens conversam coisas sérias, ou seja, política e economia. :)

O filme, claro, cumpre a Bechdel Rule. Há várias mulheres personagens, com nomes, e que conversam entre si e não é para falar de algum homem. Isso é importante, porque, como pontuei, Thatcher tem como seus grandes parceiros em tela homens, seu marido e os políticos. Ainda assim, a diretora e a roteirista cuidaram de colocar outras mulheres em cena. O destaque para a filha de Thatcher e a governanta. Enfim, se você quiser ver um filme melancólico sobre a velhice sem se importar que a velhinha é Thatcher, esse filme é para você. Se é fã de Meryl Streep, que conseguiu levar o Oscar dessa vez, não pode deixar de assistir. Agora, se quiser saber sobre os anos que antecederam a subida de Thatcher ao poder, sua política e seus desdobramentos, melhor pegar Billy Elliot, Ou Tudo ou Nada, ou ainda Em Nome do Pai. E, claro, a miséria do neoliberalismo está aí para quem quiser ver nos jornais. O importante, no entanto, é tentar separar a antipatia (*ou simpatia*) em relação à personagem Margaret Thatcher, da percepção geral do filme. Infelizmente, pelo que observei, muita gente não está conseguindo fazer isso.
P.S.: As legendas estavam horríveis. Um dos piores trabalhos de tradução/adaptação dos últimos tempos. Para quem não entendia inglês, houve muita informação perdida. Como é possível oferecer um serviço tão ruim aos consumidores?

domingo, outubro 16, 2011

Cinema & História: Alexandria (Agora)



Já assisti Ágora tantas vezes que é uma vergonha não ter resenhado ainda, eu até tinha feito um post quando soube do filme, tinha ficado super contente, e esperei ansiosamente por ele nos cinemas. A estréia nunca aconteceu. Assisti Ágora ou Alexandria a primeira vez sozinha em casa, depois que desisti de esperar que estreasse nos cinemas brasileiros (*vergonha terem mandado um filme tão bom direto para DVD*), já exibi para duas turmas da faculdade e para o terceiro ano no Colégio Militar, já revi pedaços que acho mais interessantes. Na verdade, Ágora é um filme que entrou na lista dos meus favoritos, mesmo com vários problemas históricos, mesmo com várias críticas, considero o filme excelente. Aliás, a película de Alejandro Amenábar é o melhor filme querem conheço para discutir história da ciência, afinal, as limitações impostas por dogmas não são um problema somente no campo religioso.

Para quem não conhece a história do filme, ele começa em Alexandria do Egito, a segunda cidade mais populosa do Império Romano, no fim do século IV, quando Teodósio I transforma o cristianismo em religião oficial do Estado. Hyphatia, filósofa, matemática, astrônoma e médica (*embora o filme não comente isso*), vivia e ensinava na prestigiosa escola da cidade. É através dos olhos de Hyphatia e de seu escravo Davos que assistimos a ruína do que tinha sobrado da velha ordem pagã, que luta para não morrer, e o nascimento de um mundo cristão cada vez mais intolerante. Davos é apaixonado pela filósofa, assim como Orestes, seu aluno e futuro prefeito da cidade. Depois da trágica destruição da escola de filosofia, o filme dá um salto no tempo e nos coloca em uma Alexandria cristã, nela Davos se tornou membro de um grupo de fanáticos cristãos, os parabolani, que estão a serviço do bispo, Cirilo, que quer ser o maior poder e autoridade da cidade, e para isso, precisa derrotar o prefeito. A forma mais direta é roubar dele a pessoa que mais ama, sua amiga e antiga mestra Hyphatia. O final do filme, claro, é trágico...

Como é baseado em uma história real, não é spoiler dizer que Hyphatia morre no final do filme. Ela é considerada por muitos a primeira mártir pagã e uma das temáticas chave do filme é a intolerância religiosa que destrói viras e o trabalho científico da protagonista. Primeiro, a intolerância de pagãos contra cristãos, quando esses já se tornavam uma força, depois, dos últimos contra quem quer que não aderisse a sua fé. A expulsão dos judeus ilustra bem a questão. O filme também mostra como o Império – especialmente no Ocidente e Norte da África – vai enfraquecendo e as lideranças religiosas, como o Bispo Cirilo, tentam usurpar o poder civil. É aí que se dá o embate com o prefeito e a trágica morte da protagonista.

Os três protagonistas do filme estão muito bem. Rachel Weiz é uma Hyphatia que oscila entre o brilhantismo e o abatimento diante do desafio de entender as órbitas dos planetas e seu movimento com tantos dogmas filosóficos e científicos a atrapalhá-la. Ela também é bela – e não envelhece, como virou regra nos filmes e novelas – e tem atitude, coragem e humanidade. Mas o bom do filme é que não a livraram dos preconceitos da época, vide sua relação com Davos. Só me decepciona o final, mas eu falo disso mais tarde. O Orestes de Oscar Isaac faz o melhor papel masculino do filme para mim. A interação dele com Hyphatia, a paixão que ele transmite no olhar, o desespero do final... E a cena em que ele acha que Hyphatia vai dizer que queria poder amá-lo e descobre que ela está falando de seus planetas é ótima. Adoro a expressão dele. Na verdade, acho o Oscar Isaac lindo no filme, ele fica perfeito de toga. E há o Davos de Max Minghella, uma personagem cheia de nuances. Sua inteligência negligenciada e desprezada por ser escravo, sua angústia, a paixão não correspondida por sua senhora, a conversão e a adesão ao fanatismo cristão, ele desce ao inferno, literalmente. Meus alunos e alunas no Colégio Militar torciam por ele, a empatia com seu drama foi imediata. Queriam que ele terminasse com Hyphatia. Tadinhos! Não conheciam a história ...

A seqüência da destruição da Academia e da Biblioteca é muito emocionante, dramática e bem dirigida. A câmera vira de ponta à cabeça na cena em que livros e objetos de estudo são destruídos, mostrando que o mundo todo está enlouquecido. Aquele mundo, pelo menos... A analogia entre as massas intolerantes e formigas que vão de lá para cá também é muito bem feita. A fotografia e o figurino – simples e elegante – são trunfos do filme que foi o mais caro feito na Espanha até então. E o elenco é multirracial, nada de atores e atrizes brancos preenchendo todos os papéis. Temos a diversidade étnica do Império Romano e do Egito na tela. Isso é positivo, já que o branqueamento parece ser quase a regra para a maioria dos filmes. Ágora, no entanto, não preenche a Bechdel Rule. Hyphatia é uma personagem solitária, a mulher filósofa incompamas poderiam ter colocado pelo menos outra personagem feminina. Todas as mulheres fora Hyphatia são figurantes sem falas. O positivo da composição do elenco não é contrabalançada com uma um maior número de personagens femininas, mesmo que fosse somente para que Hyphatia brilhasse ainda mais.

E chegamos às coisas que me incomodam. Sinesius, um dos discípulos de Hyphatia, era cristão (no filme, desde a juventude, na vida real, não) e tornou-se bispo. Trata-se de uma personagem histórica. Quando entramos na reta final do filme, ele assume um tom anti-cristão e nem falo só da questão da destruição da biblioteca já que ninguém sabe verdadeiramente quem e quando foi destruída, se de uma vez ou em partes. Sinesius nunca traiu Hyphatia, na verdade, ele já estava morto quando de seu assassinato. Suas últimas cenas são uma difamação. Ora, poderiam ter criado uma personagem para cumprir essa função, não precisavam infamar uma personagem histórica. Outro problema é o prefeito. O original enfrentou o bispo e dizia com orgulho que tinha sido batizado pelo patriarca de Constantinopla, que estava acima do líder eclesiástico de Alexandria. No filme, Orestes é cristão de conveniência; até aí, OK, muitos eram, mas a forma como a personagem é massacrada no final é outra traição, uma forma de ilustrar, talvez, o quanto os cristãos eram visar... Ele também abandona Hyphatia ao ser reduzido à impotência por Cirilo e Sinesius. Eu odiei aquilo, pois o prefeito nunca traiu a amiga. E Hyphatia se entrega para morrer, afinal, seu mundo tinha sido destruído... Em nenhuma das fontes ela se entregou para ser massacrada. Ela foi arrastada, ela lutou... Apresentá-la como um animal indo para o sacrifício pode ter um efeito dramático (*uma aluna chorou copiosamente no final do filme*), mas não é fiel à personagem, que, provavelmente, era uma mulher de grande coragem, dignidade e já idosa quando destroçada pela turba de cristãos.

Mas, ainda que com essas ressalvas – e outras mais – eu amo Ágora. Aprendi muita coisa com o filme. Por exemplo, não sabia quem eram os temíveis parabolani. E é um material ótimo para se discutir história da ciência. Eu sinto a angústia de Hyphatia, lamento que ela não tivesse condições de deduzir a existência da gravidade, é desesperador o peso dos dogmas que se travestem de ciência ou a apatia. Tudo isso foi muito bem colocado em Ágora. Hyphatia no filme é uma sonhadora em tempos sombrios, tempos de fanatismos, tempos em que para ser um espírito prático como Orestes é preciso renunciar à imaginação. Enfim, recomendo muito este filme, muito, muito mesmo! Não se trata de um filme feminista, não vejo Hyphatia como uma defensora das liberdades femininas. Ela queria viver para a sua ciência em uma Alexandria cada vez mais obtusa e dominada por outras questões, como as cizânias religiosas. Triste o mundo em que as pessoas competem entre si para saber quem é o mais fanático... Esse é o caso da Alexandria do filme e, infelizmente, do nosso mundo de hoje.

sábado, janeiro 08, 2011

Comentando Os Últimos Dias dos Romanov



O primeiro livro completo que li este ano foi “Os Últimos Dias dos Romanov”, de Helen Rappaport. Então decidi comentar algumas coisinhas. O nome original do livro é Ekaterinburg. Ecaterinburgo foi a prisão final da família do Czar e lugar da execução de onze pessoas e um cachorro: Nicolau II; a czarina Alexandra; suas filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia; seu filho, Alexei; a governanta, o médico, dois criados, e uma cadelinha (*eram três cachorros, um desapareceu, e outro terminou seus dias na Inglaterra*). Na página da Livraria Cultura há uma sinopse do livro:
A execução em julho de 1918 dos Romanov - a família do último czar da Rússia, Nicolau II - é cercada de mitos e histórias macabras. Especialista em história russa, Helen Rappaport teve acesso aos depoimentos de várias testemunhas-chave. Ela revela o papel de Lenin na execução e mostra também como os Romanov e seus carcereiros desenvolveram uma relação complexa.
Minha primeira observação sobre o material é editorial. O livro parece ter sido feito às pressas, assim, em vários momentos há letras faltando e erros de digitação. Além disso, há repetições de palavras muito próximas, que acabam empobrecendo o texto em alguns momentos. Outro problema, este mais grave, é a ligeira sensação de que certas partes não foram traduzidas adequadamente. Em dois lugares, mesmo sem ter lido o original, eu tenho certeza absoluta. Fora, claro, palavras em russo, aqui e ali, sem uma notinha sequer. Eu não leio russo, e a maioria das palavras eram desconhecidas para mim. Esse tipo de trabalho capenga, em um livro relativamente caro (*ou em qualquer livro*), pesam muito contra a editora.

Quanto ao valor histórico do material, ele é relativo. Acredito que, apesar do esforço enorme da autora em ir até os arquivos e fontes produzidas o mais próximo possível da chacina (*porque foi exatamente isso que aconteceu ali*), há muito mais especulação do que eu admitiria em uma obra historiográfica. Imaginar o que fulano ou ciclano poderiam estar pensando ou sentindo sem ter uma fonte que sirva de evidência (*ela cita trechos de memórias dos assassinos entre aspas, assim como trechos de cartas e diários*) é coisa de romancista. E não pense que eu estou desqualificando o romance, até porque as fronteiras entre história e ficção são de fato muito tênues.

Três coisinhas me irritam muito no livro. A primeira é a complacência com que a autora trata Nicolau II. A todo momento ela parece relevar o fato dele ter sido um governante fraco, medíocre e responsável – já que seu governo era autocrático – por milhares de mortes e muito sofrimento. Em nenhum momento ela usa para ele o termo “assassino” ou “bandido” que é fartamente distribuído para os bolcheviques. Eis o segundo incômodo. Os bolcheviques cometeram barbaridades – e o assassinato de toda a família e criados é uma delas, só que em nível micro – mas os Romanov e seu último Czar não ficaram atrás de forma alguma. Ela volta no tempo várias vezes, mas não se dá ao trabalho de descrever as atrocidades do regime czarista, como faz, por exemplo, com as neuroses e interferências da czarina ou "o banditismo" dos bolcheviques. É preciso ser justa, e isso a autora, ainda que tente fugir da hagiografia, não consegue ser. É visível que ela não gosta dos bolcheviques, e isso é direito dela, mas ao descrever os últimos dias e mesclar com fatos passados, ela deveria ter equilibrado melhor as coisas.

O meu último grande incômodo é a forma como ela tenta jogar boa parte da culpa da desgraça da família em Alexandra, compondo uma imagem desagradável da czarina. E, nesse ponto, as informações, mesmo cronológicas, não são precisas, o que é um pecado em um livro descritivo. E, pior, sobrou até para a pobre Vitória da Prússia, a filha mais velha da rainha Vitória. Alice de Hesse (*Alix era seu apelido e, depois de casada e convertida ao Catolicismo Ortodoxo, tornou-se Alexandra*) era neta da Rainha Vitória (*Vicky*), que supervisionou sua educação já que ela ficou órfã muito cedo. Fora isso, a Princesa Vicky tinha muitos problemas para resolver, ela tinha que lidar com Bismarck, só para começo de conversa e a Rainha Vitória estava viúva e com tempo de sobra para se meter na educação das netas na Alemanha.

Hesse poderia não ser grandes coisas, mas era de praxe tanto os reis da Inglaterra (*de origem alemã*), quanto os czares russos buscarem esposas baratas e com poucas capacidades de barganha nesses principados alemães. Daí, ela era uma noiva em potencial e não uma “escolha qualquer”. Uma duquesa muito mais rica teria muito menos chance, pois não pertencia a uma casa reinante. A autora oscila dizendo que Alexandra tinha se tornado russa de corpo e alma (*principalmente alma, porque ela é colocada como uma fanática religiosa*), mas a acusa de ser vista como alemã. Em nenhum momento ela se dá ao trabalho de falar da unificação alemã e da I Guerra de forma didática. Também não explica a pressão violenta sobre a czarina, já que a lei de sucessão russa (*por vingança do filho de Catarina, a Grande*) era semi-sálica, isto é, suas filhas eram as últimas da fila, só poderiam herdar o trono depois que o último dos primos desaparecesse. Isso, por si só, torna o assassinato das meninas ainda mais pavoroso. Mas voltando à Alexandra, ela tinha que dar um herdeiro para a Rússia, foi culpada por produzir quatro meninas e, quando, finalmente, nasce o único filho, ele tem um quadro grave de hemofilia. Naquele momento e dada a gravidade da doença, o menino tinha pouca expectativa de vida e, claro, todos sabiam que a culpa era da mãe.

Ela se tornou presa fácil do fanatismo religioso, das dores imaginárias (*que a autora diz que ela cultivava*), e de Rasputin. Aqui, outra falha, mostrar o quanto Rasputin foi daninho. Rappaport cita o monge “louco”, fala dele no capítulo sobre Alexei, mas fica mais tempo falando das mesquinharias e abusos dos bolcheviques, ou especulando sobre emoções e pensamentos. De resto, sentirem pena de Nicolau – ele russo – e culparem Alexandra – a princesa estrangeira, cuja timidez parecia arrogância aos estranhos – é muito fácil. Para mim, é repetição da Revolução Francesa, e os bolcheviques se espelharam nela, Trotsky, muito pouco falado no livro, queria um julgamento público de Nicolau e Alexandra ao estilo que que acontecera na França Revolucionária. Enfim, se Maria Antonieta descarregava suas frustrações na moda, Alexandra tinha como saída o fanatismo religioso (*que a colocou sob a órbita de Rasputin*), ambas tinham maridos pouco competentes, ambas se tornaram alvo do ódio dos seus contemporâneos enquanto seus maridos puderam gozar de alguma simpatia. De comum, ambas mulheres e estrangeiras.

O livro, no entanto, é bem interessante. Ele mostra com precisão como a situação pós-revolução russa era complicada. Apresenta, ainda que de forma superficial, que os bolcheviques foram se apropriando do poder expulsando e eliminando outros grupos (*mencheviques, socialistas revolucionários, anarquistas, etc.*). Mostra que nem todos os que estavam contra os bolcheviques eram burgueses e monarquistas, como a propaganda bolchevique conseguiu enfiar em muitas cabeças. Fala muito dos tchecos, que tomaram Ecaterinburgo pouco depois do massacre, embora não explique bem quem eram eles. A autora também conseguiu apresentar de forma muito completa o Tratado de Brest-Litovsk e como o governo bolchevique vendeu boa parte do país para a Alemanha para conseguir sair da I Guerra. Rappaport foi muito feliz em apresentar a indiferença dos outros monarcas, mesmo parentes, em relação ao futuro dos Romanov, da falta de ação especialmente por parte do Rei da Inglaterra, o que condenou Nicolau e sua família e de como os ingleses tentaram encobrir o fato.

Apesar dos problemas de tradução e da pouca fluência do texto em alguns momentos, foi muito bem apresentada a estratégia, depois que a chacina foi descoberta, em transformar o assassinato em uma conspiração judaica. Ainda que a autora tenha falhado absolutamente em comparar o assassinato dos Romanov ao Holocausto dos judeus. Para ela, que se viu depois na Alemanha Nazista teria sido um aperfeiçoamento do que os bolcheviques fizeram. Menos, por favor! Mas ela foi muito feliz em mostrar que o assassinato dos Romanov, da família inteira, não somente a execução justificada do czar, foi um ato covarde de vingança. Mais covarde ainda, porque o governo bolchevique negou por meses ter executado as meninas e a czarina (*Alexei parece que nunca era citado... talvez, proque sua morte fosse algo certo. Ainda assim, os últimos dias do menino foram horríveis demais.*). E os empregados, claro, foram punidos por sua fidelidade ao antigo regime. Ou seja, se há vergonha, há culpa ou sentimento de culpa. Não havia justificativa legal para o extermínio de todos, inclusive dos criados.

Coisas legais que aprendi com o livro foi que existiram destacamentos de mulheres no exército russo durante a I Guerra, mais precisamente, no final dela, os chamados Batalhões Femininos da Morte. O objetivo desses batalhões, recebidos com muita má vontade pelos generais, era envergonhar os homens que fugiam do front, já que as mulheres tinham mais coragem que eles. Nunca tinha ouvido falar da tenente-coronel Maria Bochkareva, camponesa idealizadora dos batalhões femininos, e da sua ida aos Estados Unidos pedindo ajuda para a Rússia em nome do deposto governo de Kerensky. Na verdade, esses detalhes se perdem em uma aula de História comum, mesmo na faculdade, e muito do que eu estudei na escola e mesmo na universidade foi direcionado por uma complacência em relação a tudo que os bolcheviques tivessem feito ou executado, como se eles tivessem razão, e só houvesse um caminho. Como se toda e qualquer selvageria tivesse sido necessária, naquele esquema do “o fim justifica os meios”. Obviamente, não se trata, também, de construir uma história de mocinhos e vilões, como muitos parecem desejar.

É preciso deixar claro que em História, pelo menos naquela que eu ensino e advogo, nada é inexorável, nada “precisava ser assim”, simplesmente foi assim. Poderia ter sido diferente, e ainda que se tenha simpatias por um lado ou outro, é preciso tentar ser just@ na análise das fontes e dos discursos. Considero a Revolução Russa muito importante, e a queda da monarquia autocrática russa era uma questão de tempo, não porque "era vontade de Deus", mas porque estruturalmente, ela era um fóssil vivo dentro da Europa. O caminho, entretanto, foi escolha dos agentes do processo histórico, das contingências, das suas condições de produção, não execução de algo que estava predestinado. Uma monarquia constitucional ou uma república burguesa ou a fragmentação do território ou a tomada de poder por um grupo de esquerda mais heterogêneo ou uma ditadura ou... As possibilidades eram quase infinitas. De certo, e isso a autora coloca muito bem, havia a impossibilidade do retorno do Czar, pois Nicolau não era opção nem entre os monarquistas. Não se trata, portanto, de estigmatizar os bolcheviques, tampouco de santificar Lênin e jogar as “maldades” nas costas de outros, especialmente Stalin, como virou moda por aí, mas de perceber que foi um momento muito rico. E, claro, que o massacre da família do Czar foi um ato de selvageria. Enfim, nem sei se esta resenha desorganizada é útil, mas precisava comentar o livro, que é válido, sim, embora esteja longe de ser excelente.


P.S.1: Eu queria muito um filme sobre as meninas Romanov. Por conta da propaganda - o czar sabia muito bem o quanto seus filhos eram bonitos - há muitas fotos delas, as meninas de vestidos brancos, e por conta do pessoal que fica colorizando esse material nno Deviantart, aprendi a gostar delas. Nos filmes, Raputin/Nicolau & Alexandra/O Segredo de Anna, nunca colocam meninas realmente bonitas e parecidas com elas para fazerem seus papéis, além, claro, do foco ser Alexei, Alexandra e Nicolau.
P.S.2: A irmã da Czarina, Elizabeth (Ella), também foi assassinada pelos bolcheviques. Seu marido, tio do czar, tinha sido morto no início do século XX, ela inclusive saiu em defesa do assassino pedindo clemência e perdão, depois, se tornou freira e dedicou-se ao trabalho com os necessitados. Com a Revolução foi tirada do convento e mantida presa. Pouco depois do assassinato da família imperial, ela foi arremessada dentro de uma mina, junto com outros membros da família imperial por agentes da Cheka (*o primeiro ensaio da KGB*). Não lhe deram tiro, mas uma pancada na cabeça. Depois atiraram granadas. Ainda assim, ela sobreviveu por algum tempo e quando os Brancos resgataram o seu corpo, ela aind atinha tido a iniciativa de tentar cuidar do ferimento de uma das outras vítimas. Outra morte desnecessária entre tantas.

sexta-feira, maio 01, 2009

A trajetória de Bonaparte



Resenha da minissérie Napoleão do Correio Braziliense. :)

DVD - A trajetória de Bonaparte
Ricardo Daehn

Sem caracterização marcante no cinema contemporâneo, Napoleão Bonaparte (interpretado, antes, por atores como Marlon Brando e Rod Steiger) teve, há seis anos, uma representação mais precisa em minissérie com qualidade suntuosa: nove países serviram de locação para o produto de US$ 50 milhões (o mais caro do segmento, em 2002) que mobilizou 150 atores e 20 mil figurantes. Inédita no mercado de DVD, a produção, chancelada pelo canal a cabo A&E e candidata a sete prêmios Emmy, sai pela Versátil Home Video na versão em francês (foi rodada simultaneamente em inglês). À frente do projeto, o diretor canadense Yves Simoneau continua a trilhar rastro histórico que já rendeu a atualização de O julgamento de Nuremberg; o exame da vida de Maria Antonieta (em série) e críticas ao tratamento reservado a índios em Enterrem meu coração na curva do rio.


Organizado em quatro capítulos, em ordem cronológica, Napoleão se desenvolve em mais de seis horas, com o personagem-título aos 26 anos. Como em qualquer obra que mexa com mitos, haverá quem reclame de omissões ou de alguma superficialidade no retrato de ações militares. Por opção, Simoneau buscou enfoque que favorece a parcela humana da figura, mas nunca dispensando fatos extraídos do best-seller de Max Gallo, adaptado por Didier Decoin (roteirista de O Conde de Monte Cristo, Os miseráveis e Balzac). Mais conhecido por composições cômicas, Christian Clavier (o Astérix do cinema) encara a personagem com transformações sutis, desde a postura de artilheiro — na qual confirma a vocação de estrategista e defende a República como categórico instrumento de “harmonia” — até a centralização dissimulada de poder e o alcance do status de imperador com alta popularidade, passado o desastroso reinado de Luís XVIII (desautorizado por ele).


Num primeiro momento da série, Napoleão, em 1818, está exilado na Ilha de Santa Helena (no Atlântico Sul), governada pelo britânico Hudson Lowe, acuado e tendo como confidente a jovem Betsy Balcombe. Nesse ponto, há súbita intromissão do passado de conquistas que será desfilado, com atenção para a perigosa relação estabelecida com a Rússia, a sensação da primeira saudação coletiva pelo povo e o uso de frases de efeito (“O Exército sou eu”, “Poder não é senão aparência” e “Declaro paz ao mundo”), além do grotesco trato com os reis espanhóis Carlos IV e Fernando VII, isso tudo ao lado das sucessivas conseqüências da derrota na belga Waterloo.


Artifício bem controlado pelo cineasta, que evita a carga de novelão, a exposição de dados familiares revigora a trama, que não se limita aos feitos da política expansionista de Napoleão. O contraponto dá boas chances para as presenças de Isabella Rossellini e Anouk Aimée. Ainda que invista nos casos adúlteros com as belas Marie Walewska (condessa da Polônia) e Marie Louise, a minissérie consegue delimitar bem o cenário político, repleto de confabulações palacianas.


Cercado de raposas, como o ministro Joseph Fouché (interpretado por Gérard Depardieu, coprodutor da obra) e o ardiloso diplomata Charles Talleyrand (John Malkovich, sorrateiro ao extremo e candidato ao Emmy de melhor coadjuvante), o Napoleão de Christian Clavier não se exalta, como esperado, nessa versão de Yves Simoneau atenta ao impacto da “altivez sufocada” ainda nos tempos escolares do soberano. Morto aos 52 anos, Bonaparte, na série, recebe retrato digno, com momentos grandiosos, alguns aptos a revelações na evolução de táticas de guerra e outros célebres, como o da autocoroação (tendo o Papa na platéia).

NAPOLEÃO
(Napoléon, França, 2002, 377min). Caixa com dois DVDs da minissérie de Yves Simoneau. Com Christian Clavier, Isabella Rossellini, Anouk Aimée, John Malkovich e Julian Sands. Preço sugerido: R$ 75. Não recomendado para menores de 14 anos.