sexta-feira, março 09, 2007

TEXTO COMPLEMENTAR: CÓDIGO DE HAMURÁBI


“Se alguém em um processo se apresenta como testemunha de acusação e, não prova o que disse, se o processo importa perda de vida, ele deverá ser morto. (...)Se um juiz dirige um processo e profere uma decisão e redige por escrito a sentença, se mais tarde o seu processo se demonstra errado e aquele juiz, no processo que dirigiu, é convencido de ser causa do erro, ele deverá então pagar doze vezes a pena que era estabelecida naquele processo, e se deverá publicamente expulsá-lo de sua cadeira de juiz. Nem deverá ele voltar a funcionar de novo como juiz em um processo. (...)

Se alguém comete roubo e é preso, ele é morto. (...) Se alguém furta bens do Deus ou da Corte deverá ser morto; e mais quem recebeu dele a coisa furtada também deverá ser morto. (...) Se alguém comete roubo e é preso, ele é morto. (...) Se na casa de alguém aparecer um incêndio e aquele que vem apagar, lança os olhos sobre a propriedade do dono da casa, e toma a propriedade do dono da casa, ele deverá ser lançado no mesmo fogo. (...)

Se um arquiteto construir para outrem uma casa e ela não for bastante sólida, se a casa ruir matando o proprietário da casa, este arquiteto é passível de morte. (...) Se um homem negligenciar a conservação de seu dique, se uma brecha nele se abrir e os campos inundarem, este homem será condenado a restituir o trigo destruído por sua falta. (...)

Se alguém tem um débito vencido e vende por dinheiro a mulher, o filho e a filha, ou lhe concedem descontar com trabalho o débito, aqueles deverão trabalhar três anos na casa do comprador ou do senhor, no quarto ano este deverá libertá-los. (...) Se um filho bater no pai; cortarão a sua mão. (...) Se um homem destruir o olho de um outro homem: destruirão o seu olho. (...) Se destruir o olho do escravo de um homem ou quebrou o osso de um escravo de um homem: pagará a metade do seu preço.”
(Código de Hamurábi. Para texto completo, clique
aqui.)

terça-feira, março 06, 2007

1º BIMESTRE: MESOPOTÂMIA


# Localização: Região do Crescente Fértil, correspondendo aproximadamente ao território do atual Iraque, servia como área de passagem entre o Oriente e Ocidente desde a mais alta Antigüidade. Os rios Tigre e Eufrates garantiam a fertilidade necessária à agricultura, principalmente ao Sul (Suméria e Acádia) da região, enquanto o Norte (Assíria) era mais árido e montanhoso. Ao contrário do rio Nilo, com suas cheias regulares e previsíveis, na Mesopotâmia não raro ocorriam enchentes e secas, daí a necessidade da construção de diques e sistemas de drenagem, além dos já conhecidos canais de irrigação. Além disso, o curso dos rios era instável, podendo causar a ruína de algumas cidades.

# GERAIS: Berço de algumas das primeiras civilizações que se tem registro. Algumas das principais invenções creditadas aos povos da Mesopotâmia são: a escrita (cuneiforme), a roda, comércio, primeiro código de leis escritas, a cidade, o Estado, a burocracia, a biblioteca, a cavalaria como arma de guerra, o primeiro herói (Gilgamesh) e a literatura, divisão do círculo em 360°, o primeiro calendário solar preciso.

# POVOS, IMPÉRIOS e CIVILIZAÇÕES: No período que estamos estudando, floresceram várias civilizações, dentre elas estudaremos: a dos Sumérios e Acádios, a dos Amoritas, a dos Assírios e a dos Caldeus.

I. Sumérios (aproximadamente entre 3500 e 1900 a.C.): Primeira civilização da região, forneceu a base da cultura mesopotâmica. Ao contrário da maioria dos povos da região, os sumérios não eram semitas e sua língua logo deixou de ser usada no dia-a-dia, no entanto, sendo reconhecida como a “língua da cultura”, permaneceu sendo utilizada na escrita, graças ao trabalho dos escribas. Os sumérios nunca formaram uma só unidade política permanecendo separados em cidades-estado que lutavam entre si pela hegemonia. Dentre as cidades-estado mais importantes podemos citar Ur (*a que mais lucrou com a ruína do Império Acádio*), Uruque, Lagash e Nippur. O governante das cidades-estado sumérias era chamado de Patesi e concentrava em suas mãos poderes políticos, religiosos e militares. Era auxiliado em seu governo por um conselho de anciãos. No centro das cidades sumérias havia uma grande construção que lembrava uma pirâmide de degraus conhecida como Zigurate. Essas construções serviam para múltiplas funções, sendo ao mesmo tempo templo, celeiro, banco, centro de governo e observatório astronômico. Os sumérios terminaram se enfraquecendo em virtude das suas lutas internas e das invasões (*gútis, elamitas, entre outros*). Creditam-se aos sumérios a invenção do Estado, do Comércio e da Escrita. Aliás, comércio e escrita estiveram intimamente relacionados, pois os primeiros registros são registros contábeis.

II. 1º Império babilônico (1900-1600 a.C.): Recebe esse nome porque a capital do Império se situava na cidade de Babilônia. O povo semita que fundou o Império era conhecido por Amorita. Quando o Império começa a se estruturar, a civilização suméria ainda existia, mas encontrava-se em decadência. O auge do 1º Império Babilônico é associado à figura do rei Hamurábi (cerca de 1750 a.C.) que conquistou a Suméria e a Assíria e tem sua autoria ligada ao primeiro código de leis escritas de que temos notícias, o chamado Código de Hamurábi também chamada de Lei de Talião. Esse código se baseava no princípio do “Olho por olho, dente por dente”, isto é, na reciprocidade, tendo por base a condição social (livre/escravo), econômica (rico/pobre) e sexual (homem/mulher) dos indivíduos. Muitos crimes eram punidos severamente, com a mutilação e a morte. Sua economia baseava-se na agricultura irrigada; no artesanato do cobre e do estanho, do couro e do vidro; criavam ovelhas, bois e cavalos; além disso, faziam comércio. O 1º Império chegou ao fim com a invasão dos hititas. Eles queimaram a cidade de Babilônia e saquearam a região, mas não permaneceram na região que foi governada por outro povo, os cassitas, que adotaram a cultura da mesopotâmia, por mais de 300 anos.

III. Imperio Assírio (1300-612 a.C.): Os assírios, povo do norte da Mesopotâmia desenvolveu uma cultura belicosa e guerreira, ao mesmo tempo em que foram grandes preservadores e continuadores da cultura iniciada pelos sumérios. O Império Assírio tinha duas cidades principais Assur e Nínive, que funcionavam como capitais. Entre os séculos VIII e VI a.C. expandiram seus domínios anexando a Síria, a Fenícia, a Palestina, toda a Mesopotâmia (725 a.C.), parte da Ásia Menor, chagando a conquistar Tebas, a capital do Egito. Foram os primeiros a criar um exército profissional e usar regularmente a cavalaria. O auge do Império Assírio está ligado ao governo do rei Assurbanipal (668-626 a.C.), conquistador do Egito. Por ordem desse rei foi criada uma biblioteca em Nínive onde foram registrados mitos, lendas, tratados científicos, crônicas de campanhas militares e a história dos assírios e dos povos da região. Os Assírios foram hábeis na arquitetura, escultura e nos baixo relevos que retratavam, especialmente, leões alados, batalhas e caçadas. Grandes conquistadores, os assírios tiveram dificuldades em administrar seu grande império recorrendo constantemente ao terror (*torturas, mutilações, execuções e deportações em massa, destruição de cidades*) para manter o controle dos povos conquistados. Mesmo o terror não impedia as revoltas, assim, em 612 a.C., os caldeus, associados aos medos, destruíram Assur e Nínive pondo fim ao Império Assírio.

IV. 2º Império Babilônico (612-539 a.C.): Com a derrota dos assírios, Babilônia volta a ser a grande capital da Mesopotâmia, só que agora sob o governo dos Caldeus. A economia ainda tinha por base a agricultura irrigada, mas o comércio era uma atividade muito lucrativa. As cidades mais importantes do império, depois da capital eram Uruque, Kish e Nippur. Essas cidades tinham o direito de fundar colônias (outras cidades) normalmente plantadas no caminho das rotas de comércio. O auge do império dos caldeus está ligado à figura do rei Nabucodonosor (604-561 a.C.) que, através da guerra, estendeu as fronteiras do Império. Credita-se também a esse rei a ordem de mandar construir os famosos Jardins Suspensos, considerados uma das sete maravilhas do mundo antigo. Os caldeus conquistaram e destruíram a cidade de Jerusalém (587 a.C.), capital do Reino de Judá, e levaram parte da população judaica para a Babilônia. O Império dos Caldeus chegou ao fim graças à ação dos persas que conquistaram a Babilônia e submeteram a região.

# SOCIEDADE (Organização Geral): Tinha no seu topo os funcionários do palácio e dos templos (sacerdotes, escribas, administradores das terras reais), a seguir vinham os homens livres em geral (soldados, camponeses, comerciantes, artesãos) e na base estavam os escravos. Estes geralmente eram prisioneiros de guerra e seu número variava de acordo com o número de conquistas. A maioria do trabalho era feita pelos camponeses em regime de servidão coletiva, isto é, os trabalhadores tinham que entregar parte da sua produção ao Estado, que era o dono das terras, tendo também que prestar serviço em obras públicas (construção de diques e canais, monumentos, templos, palácios e, mesmo, no exército) em regime de servidão coletiva.

# Literatura: A grande obra literária dos mesopotâmios é o Gilgamesh – o primeiro grande herói que se conhece, e que se parece com a história bíblica de Noé – além, claro, do Código de Hamurábi.

# Religião: Politeísta e marcada pelo pessimismo em relação à vida após-morte. Os mesopotâmios acreditavam que sua recompensa deveria ser na terra e era comum recorrerem à leitura de sorte que era feita por magos e sacerdotes. Aliás, os deuses teriam criado os humanos para servi-los como escravos, alimentando-os com seus sacrifícios e honrando-os com grandes construções. Antes dos humanos serem criados, havia uma hierarquia entre os deuses, sendo que os mais fracos serviam aos mais fortes. Os homens foram criados para aliviar o trabalho dos deuses secundários. Dentre as divindades mais cultuadas estavam: Enlil que controlava as chuvas e os trovões e era capaz de grande cólera; Enki; Inana, poderosa deusa da fertilidade, que se fundiu com Ishtar, deusa do amor e da guerra; e Marduk, divindade máxima dos babilônios. Cada cidade tinha um ou mais deuses principais e suas estátuas eram levadas para visitar outros deuses (*em outras cidades*) e podiam ser seqüestradas pelos inimigos. Os povos da Mesopotâmia acreditavam que, se seu deus ou deusa, abandonasse a cidade ou fosse roubado, ocorreriam as piores tragédias.

# NOTAS:

[1] Existem ruínas de cidades que distam vários quilômetros dos rios, mas, um dia, foram banhadas por eles.

[2] Nosso livro não inclui os Acádios, mas foram eles os primeiros a construírem um Estado centralizado na Mesopotâmia (2350-2000 a.C.), durante o período referente aos sumérios. Só que, ao contrário de outras cidades, as ruínas de Acade, grande capital, ainda não foram localizadas. O grande rei dos acádios, Sargão, é considerado um grande herói na antiga Mesopotâmia, uma espécie de rei Arthur: rei vitorioso nas batalhas, governante justo, abençoado pelos deuses e de origem obscura. Assim, como o Moisés bíblico, uma das lendas sobre seu nascimento diz que sua mãe – uma poderosa sacerdotisa – o teria lançado às águas para que não fosse punida por ter tido um filho. Há muitos textos sobre Sargão, o Império Acádio e os feitos de seus sucessores.

[3] A escrita cuneiforme, criada pelos sumérios, foi aprimorada, adaptada, e utilizada nas regiões vizinhas, sendo usada na diplomacia entre vários povos. São encontradas plaquetas em cuneiforme em toda a Mesopotâmias, no Irã (elamitas, persas, medos), na Ásia Menor (hititas), no Egito, e na Síria e Palestina.

[4] Ver resumo sobre persas.

[5] As outras foram: o Colosso de Rhodes, as pirâmides do Egito, o Mausoléu de Halicarnasso, o templo de Diana dos Efésios, a Estátua de Zeus em Olímpia e o Farol de Alexandria.

[6] Ver resumo de hebreus.

[7] Entre os assírios a importância dos soldados e seu lugar na sociedade era mais valorizado.

[8] Marduk substituiu Enlil em muitas narrativas mitológicas durante o II Império, tornando-se o mais poderoso dos deuses do panteão babilônico.

segunda-feira, março 05, 2007

Engenharia egípcia foi além das pirâmides


Para quem tem o History Channel. Provavelmente, vai repetir em outro horário e dias. O anúncio está na Folha de São Paulo.

Engenharia egípcia foi além das pirâmides
RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Naturalmente, as pirâmides têm destaque em um documentário sobre a engenharia no Egito Antigo. Mas a habilidade dos engenheiros dessa civilização era bem ampla. Os caras eram versáteis. Canais de irrigação, fortalezas, obeliscos, represas; os antigos egípcios foram pioneiros em quase todas as obras monumentais da história humana.
O método era basicamente o da tentativa e erro -não havia ciência por trás da coisa- e erros também aconteciam. A civilização foi construída em torno da natureza e da técnica. O rio Nilo e suas inundações facilitavam a agricultura, e o engenho humano aperfeiçoava o processo, criando canais e represas.
Uma delas não deu certo; ainda hoje vêem-se os restos da represa e o buraco por onde estouraram as águas.
A evolução do projeto das pirâmides é outro aspecto fascinante. Os túmulos dos reis (os faraós) começaram como simples amontoados de terra, passaram a pirâmides com terraços, até chegarem à forma perfeita com seus quatro lados iguais. No processo, algumas caíram, outras ficaram tortas.
Menos conhecidas são as fortalezas que os egípcios fizeram na sua fronteira com a região da Núbia. Com fossos em torno e muralhas escalonadas, só na Idade Média européia que se veria algo semelhante. Os caras eram bons.

CONSTRUINDO UM IMPÉRIO
Quando: hoje, às 21h
Onde: History Channel

terça-feira, fevereiro 27, 2007

TEXTO COMPLEMENTAR: OS HITITAS


Até o final do século XIX, os hititas não existiam na geopolítica da Antigüidade, no máximo, poderiam ter sido uma pequena tribo da Palestina. As únicas citações a eles estavam no Velho Testamento (filhos de Hete, Heteus) e somente com as escavações arqueológicas puseram fim aos 2000 anos de esquecimento da primeira grande potência Indo-Européia. Eles eram indo-europeus e foram os primeiros a conseguir trabalhar com o ferro.

Eram também mestres no uso carros de guerra, levando terror aos seus inimigos. Seu rei Mursili I saqueou a cidade de Babilônia por volta de 1595 a.C. Só que os hititas não ficaram na Mesopotâmia, ocupando a Anatólia, na atual Turquia. Tomaram Hattusas - atual Borgazköy - a capital de um povo chamado hatti, o nome permaneceu ligado aos conquistadores.

Império dos Hititas foi uma grande potência e seu oponente principal era o Egito. Ambas as nações disputavam as mesmas áreas de influência: Síria, Fenícia, Palestina, Mesopotâmia. A derrocada dos Mitanni, também conhecidos como Hurritas, que haviam sido mais poderosos que os Hititas em outras épocas; o governo do faraó-herege, Akenaton com as complicações sucessórias que se seguiram no Egito; e o talento político-militar do Rei Supilliuma, deu aos hititas a possibilidade de expandir suas fronteiras e afirmarem seu poder.

Apesar de sofrerem influência da cultura da Mesopotâmia, os hititas adaptaram a escrita cuneiforme à sua língua indo-européia, também absorveram deuses dos panteões vizinhos unindo-os aos seus próprios. Os reis hititas tinham seu poder assentado muito mais na competência militar do que no direito divino.
Na legislação hitita as penas de morte eram reduzidas e quase sempre substituídas por indenizações. Construíram uma das primeiras bibliotecas e eram tolerantes (**pensem em gente como os assírios**) com os povos conquistados. Seus reis tinham seu poder assentado muito mais na competência militar do que no direito divino. Quanto às mulheres, estavam em condições muito melhores do que a da média dos povos da região e a grande rainha tinha grande poder de decisão, mesmo em assuntos militares. Muito do que se sabe dos hititas hoje vem dos Anais de Mursili II que mandou escrever os feitos de seu pai, o Rei Supilliuma, e os seus.

A história dos Hititas é dividida em quatro períodos: Antigo Reino (c. 1680-1500 a.C.), Reino Intermediário (c. 1500-1400 a.C.), Novo Reino (c. 1400-1193 a.C.) que é quando acontece a nossa história, e Período das Cidades-Estado (c. 1193-710 a.C.) quando os hititas já estão enfraquecidos. Recomendo essa página brasileira que tem um artigo legal sobre os hititas e suas leis que depende em boa parte do material em língua inglesa da Enciclopédia Encarta.

Falando em poder feminino, a grande rainha dos hititas tinha o título de Tawananna. Ela geralmente era a esposa do rei, mas, caso este morresse, mantinha o seu título. Uma nova Tawananna só era estabelecida quando a anterior morria. A Tawananna tinha assento no conselho de Estado e podia intervir mesmo em questões militares.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

1º BIMESTRE: EGITO

- LOCALIZAÇÃO: Situada no Nordeste da África, no vale do Rio Nilo, na “terra de Cam”,[1] no Egito desenvolveu-se uma rica civilização cuja economia se baseava na servidão coletiva e na agricultura irrigada. O Egito era cercado de desertos e, durante muito tempo, esteve praticamente isolado das outras grandes civilizações de sua época. Toda a sociedade, a religião e a economia giravam em torno do Rio Nilo que com suas cheias regulares era a fonte de toda a vida do Egito, daí a frase do historiador grego Heródoto: “O Egito é uma dádiva [presente] do Nilo.”.

- SOCIEDADE: O topo da sociedade egípcia era ocupado pelo faraó, visto como um deus na terra. Abaixo deste estavam os sacerdotes cujo poder se baseava na extrema importância da religião para a sociedade. Em alguns momentos, os sacerdotes chegaram a rivalizar em poder com o próprio faraó. A seguir vinham os nomarcas (nobres). Os escribas também tinham grande importância dentro da sociedade egípcia, pois dominavam as formas complexas de escrita e cálculo, quanto mais cuidada a sua educação, mais altos eram os seus postos no governo. Menos importantes no início da história egípcia, os militares foram ganhando maior destaque principalmente no Novo Império. Em seguida vinham comerciantes, artesãos e todo tipo de trabalhadores especializados. O grupo social mais extenso, ocupando quase a base da pirâmide era o dos felás (camponeses), estes faziam praticamente toda a sorte de trabalho e garantiam o funcionamento do Estado Egípcio. Viviam sob o regime de servidão coletiva que os obrigava a entregar ao faraó e/ou aos grandes templos parte de sua produção, além, de terem a obrigação de trabalhar em obras públicas ou servir o exército caso fosse necessário. Por último vinham os escravos usados nas minas e em trabalhos domésticos principalmente. Por serem oriundos das guerras, na maioria dos casos, variaram muito em número no decorrer da história egípcia.

- DIVIDINDO A HISTÓRIA DO EGITO: Lembro vocês que toda periodização é artificialmente criada para facilitar o nosso estudo, são os historiadores que escolhem certos marcos para determinar o fim de uma época e o início de outra. Tendo isso em mente dividiremos a História do Egito Antigo em: Pré-Dinástica, Antigo Império, Médio Império e Novo Império. [1]

***PERÍODO PRÉ-DINÁSTICO: A agricultura começa a ser praticada às margens do Nilo por volta de 5 mil a.C., vários grupos se tornam sedentários e as aldeias começam a se formar. Com o passar do tempo, as aldeias começam a se unir em pequenos reinos chamados de nomos, cada um deles com um governante, o nomarca que era geralmente o chefe de um clã, isto é, grande família, cada uma delas com seu animal símbolo (totem) e seus deuses protetores. Esses vários pequenos reinos terminaram por se unir em dois estados principais o Baixo Egito e o Alto Egito. Por volta de 3.200 a.C., Menés, faraó (termo dado aos reis do Egito) do Alto Egito (Terra do Sul), irá unificar o território. O Egito se estabelece desde então como uma Monarquia Teocrática, sendo o faraó visto como um deus-vivo. Os primeiros faraós do Egito estavam associados à figura do deus Hórus, o falcão, filho do deus Osíris (cujo mito se liga à fertilidade do Nilo) e da deusa Ísis. Neste período os egípcios começaram a desenvolver sua escrita e seu calendário solar.

***ANTIGO IMPÉRIO: A capital do Egito era a cidade de Mênfis. Graças à centralização política foi possível mobilizar grandes contingentes de mão-de-obra, assim, foram feitas grandes obras de irrigação e construídas a pirâmides de Sacarah, em degraus, e as de Quéfren, Quéops e Miquerinos, em Gizé. A centralização política possibilitou também melhorias nas defesas contra povos nômades que atavam e pilhavam as aldeias. O Egito, no entanto, não era uma nação belicosa e sequer mantinha um exército permanente, cuidava de sua defesa e, no máximo, fazia expedições punitivas. Foram feitas incursões em busca de cobre no Sinai e outros produtos raros ou exóticos na Líbia e na Núbia. A partir de aproximadamente 2.300 a.C., o poder central começa a se enfraquecer enquanto os antigos nomarcas expandem seu poder local, além disso, o Egito convive também com o perigo das invasões. Esse estado de coisas conduz ao esfacelamento do Estado Egípcio.

***MÉDIO IMPÉRIO: Após quase dois séculos de descentralização política, os príncipes de Tebas conseguem reunificar o Egito, mudando a capital para sua cidade. Foi um período de expansão territorial rumo à Núbia, à Líbia e à Península do Sinai. Nesse período também os egípcios começam a manter intensas relações comerciais principalmente com os fenícios, sírios (que nada tem a ver com os assírios) e cretenses. Foram construídos grandes templos e túmulos nesse período, além da expansão das obras de irrigação, ampliando ainda mais as áreas agrícolas. Por volta de 1750 a.C., o Egito foi invadido pelos Hicsos. Chamados de reis pastores, os hiscsos pertenciam ao grupo dos semitas, usavam carros de guerra e cavalos, desconhecidos até então pelos egípcios, arcos compostos e armamento de bronze. Militarmente mais poderosos, conquistaram boa parte do território. Acredita-se que tenha sido por volta dessa época que os hebreus se estabeleceram no Egito.

***NOVO IMPÉRIO: Seu início está ligado ao movimento de resistência dos Príncipes de Tebas contra os invasores. A luta se prolongou por vários anos até que os hicsos foram expulsos e/ou escravizados. Povos que tinham se estabelecido sob a proteção dos hicsos no Egito, como os hebreus, também acabaram sofrendo retaliações. O faraó que marca o início desse período é Amósis I. [3] A partir desse momento, o exército passa a ser permanente, a nobreza se militariza, e o faraó passa a ser um líder guerreiro. O Egito se torna então uma potência expansionista e serão anexadas ou submetidas à tributação as regiões da Núbia, Palestina, Etiópia, Síria e Fenícia. Seus grandes adversários serão os hititas. Durante o Novo Império haverá a construção dos Templos de Luxor e Karnac. O comércio também será reavivado.
Durante esse período, mesmo com a ênfase militarista, houve a presença de mulheres no poder, como a faraó Hatshepsut[4] e a importante Rainha Nefertiti. Esta última era esposa do faraó Amenófeles IV que tentou implantar o monoteísmo no Egito, nesse processo o faraó, agora chamado de Akenaton, o faraó-herege, destituiu os sacerdotes impondo a adoração a um só deus, Aton, e transferiu a capital de Tebas para Amarna, promovendo também uma revolução nas artes como pintura e escultura. Nefertiti, que não era a esposa principal, governava ao seu lado, tendo sido representada ostentando símbolos de poder restritos ao faraó.
Em Amarna foram encontradas várias cartas que mostram aliados dos egípcios pedindo ajuda. O faraó parecia mais concentrado em sua reforma político-religiosa e os hititas e outros adversários avançaram sobre as áreas de influência egípcias. Morto Akenaton, os sacerdotes de Amon e a nobreza se apressaram em desfazer as obras do antigo faraó, restaurando o politeísmo, abandonando Amarna, retornando a capital para Tebas, e riscando o nome de Akenaton e Nefertiti dos anais do Egito. Em seu lugar passou a reinar seu filho, Tutancamon, que morreu bem jovem, provavelmente assassinado.[5] A instabilidade provocada pelo monoteísmo de Akenaton foi superada com dificuldade pelos faraós seguintes e a XVIIIª Dinastia terminou pouco tempo depois.
O poder dos faraós atingiu novo apogeu com a XIXª Dinastia, Ramsés I, Seti e, principalmente, Ramsés II, faraó expansionista, que submeteu vários povos, chegou ao equilíbrio militar com os hititas e construiu grandes obras arquitetônicas. Depois da morte de Ramsés, o Egito entra em um período de enfraquecimento, com poucos momentos de reação (Renascimento Saíta) sendo sucessivamente conquistado por vários povos (assírios, persas, gregos, romanos, etc) e perdendo a sua autonomia política.

- RELIGIÃO: Todo o cotidiano dos egípcios girava em torno da religião e da perspectiva da vida após morte. Para obtê-la era fundamental seguir as orientações do Livro dos Mortos e ser mumificado preservando o corpo para o retorno da alma. A religião dos egípcios era politeísta e antropozoomórfica, isto é, os deuses tinham forma de seres humanos e animais, tais como cabeça de falcão e corpo de homem. Durante o curto período de monoteísmo foi escrito o Hino ao Sol, poema que é considerado obra-prima da literatura egípcia antiga.

- ARTES E CIÊNCIA: Dentre as áreas em que os egípcios se destacaram podemos citar a arquitetura, escultura, medicina, matemática, astronomia e música.

- ESCRITA: A escrita egípcia mais conhecida é a hieroglífica, era usada em templos e monumentos, mas os egípcios também desenvolveram outras formas de escrita mais simplificada como a hierática, simplificada e usada em textos oficiais por escribas e sacerdotes, e a demótica, que quer dizer popular, para facilitar a comunicação. Os especialistas em escrita, os escribas, eram tremendamente valorizados e tinham espaço garantido na sociedade. A escrita egípcia começou a ser decifrada no século XIX, graças à descoberta da chamada Pedra de Rosetta.

- CONDIÇÃO FEMININA: Dentre todos os povos da Antigüidade Oriental, foi no Egito que as mulheres obtiveram uma situação mais eqüitativa em relação aos homens. Podiam governar, gerir seus bens, serem sacerdotisas, manter a guarda dos filhos em caso de divórcio e se ocupar de praticamente todas as profissões. Foram camponesas, escribas, sacerdotisas, médicas, rainhas-faraó, governadoras de província e até líderes militares.

[1] Outro nome do Egito. A região foi ocupada no terceiro milênio antes de Cristo pelos chamados povos camitas, ou kemitas, ou ainda hamitas. Tendo pele morena ou escura, eles trouxeram sua língua e cultura para a região. Idiomas do tronco camita ainda são falados na África atual.

[2] Outros livros incluem períodos posteriores como o chamado Renascimento Saíta, o Baixo Império e o Período Ptolomaico.

[3] Ahotep, mãe de Amósis e que tinha perdido o marido e o filho mais velho, governou o Reino do Sul e liderou a resistência até que ele crescesse, assumisse os exércitos e atacasse o Norte. Ela morreu com mais de 80 anos e foi honrada por seu filho com um belíssimo túmulo e insígnias de chefe militar. É o único caso conhecido de mulher que tenha recebido tal honra.

[4] Hatshepsut foi a quinta governante da XVIIIª dinastia e era filha de Tutmés I, general que se tornará faraó. Com a morte de seu pai foi casada com seu irmão Tutmés II, filho de uma esposa secundária. Morto Tutmés II assumiu o trono como regente de seu enteado, Tutmés III, que era filho de seu irmão-marido com uma esposa secundária. Posteriormente Hatshepsut usurpou o trono sendo um dos mais importantes faraós do período.

[5] Sua jovem esposa-irmã, Ankesenamon, chegou mesmo a pedir ajuda aos grandes rivais do Egito, os hititas, pois não desejava casar com o assassino do marido. A carta foi encontrada na capital do reino Hitita, Hattusas, mas o príncipe enviado para casar com a viúva do faraó nunca chegou ao seu destino, sendo assassinado.