quarta-feira, maio 09, 2007

Pés de Lótus



Como muita gente não conseguiu imaginar como ficavam os pés das chinesas depois de serem amarrados com ataduras para que não crescessem, estou postando algumas fotos. Parte delas foram tiradas do site About the Bound Feet Project. Ele é em inglês e traz entrevistas com várias chinesas que tiveram seus pés atados quando crianças e adolescentes. Algumas eram ricas, outras pobres, umas lamentam, outras ainda se orgulham dos "pés de lótus", em especial aquelas que conseguiram chegar ao diminuto tamanho de 7 centímetros e meio.


terça-feira, maio 08, 2007

Texto Complementar: Caminhando como um Lírio


Se bem que esta frase remeta para uma bela imagem, a história que está por detrás dela não é tão agradável assim. As mulheres chinesas cujos pés foram deformados até não medirem mais do que alguns centímetros, eram conhecidas por ‘caminharem como lírios’.

A moda sempre teve destas coisas, que o digam as mulheres que, no final do século XIX eram apertadas em espartilhos ou as que retiravam costelas para tornar a cintura mais fina. Nos países orientais, a moda também exigiu o sofrimento das mulheres, de uma forma que hoje repugna, mas que era considerada altamente erótica na altura.

No passado, os pés das mulheres chinesas era apertados em metros de ligaduras para os impedir de crescerem. Desta forma ficavam a assemelhar-se a ‘um pequeno lótus’ e eram um atributo das mulheres de classe mais alta, o que não impedia que muitas camponesas fizessem o mesmo a algumas filhas, tentando desta forma proporcionar-lhes um futuro melhor, uma vez que as mulheres de lótus eram altamente apreciadas.

A prática terá tido inicio no palácio do último rei da dinastia Tang (923-936 AD) e continuou mesmo depois de ter sido banida pelo império da Manchúria, que estabeleceu a dinastia Qing (1644-1911). Nas áreas mais remotas das zonas montanhosas, as mulheres ainda apresentavam os pés deformados mesmo depois da revolução chinesa em 1949.

O folclore chinês atribui a origem do processo a uma raposa que escondeu as suas patas sob ligaduras para assumir o lugar da Imperatriz Shang e outra versão sugere que esta Imperatriz tinha uma deficiência num pé, e por isso insistiu que todas as mulheres do seu séquito amarrassem os pés de forma a que a sua deficiência se tornasse uma moda de beleza na corte.

Supõe-se que este hábito terá começado entre as bailarinas do palácio, mas depressa evoluiu para um luxo entre os ricos. Desta forma, as mulheres ficavam mais dependentes dos outros e menos úteis dentro de casa, além de as impedir de fugir de casa dos maridos, porque algumas delas, depois deste ‘tratamento’ ficavam praticamente paraplégicas. Depressa se tornou um pré-requisito para o casamento e se um homem descobrisse que a mulher que lhe fora dada em casamento não tinha os ‘pés de lótus’ era motivo suficiente para anular o contrato matrimonial.

Muitos pais mais pobres optavam por fazer essa operação às filhas, mas nem sempre existia a certeza de um casamento e muitas mulheres acabavam por ter de trabalhar no campo com os pés deformados, sofrendo dores horríveis.

Observemos como decorria a operação. Entre os dois e os três anos de idade, as mães ou amas começavam a enrolar tiras de algodão branco em todo o redor do pé, empurrando os dedos para dentro em direção à sola, exceto o maior. Depois colocavam uma enorme pedra por cima para partir a arcada do pé. Como a criança gritava em agonia, não era raro que a amordaçassem. Esta operação era repetida vezes sem conta e a menina perdia freqüentemente os sentidos devido às dores. E estas nunca mais terminariam. Teriam de manter as ligaduras apertadas para o resto da vida.

Eventualmente os dedos encaixar-se-iam na sola do pé e as unhas cresceriam para dentro da carne. Isto significava que tinham de cortar pedaços de carne morta todos os dias. A carne acabava por apodrecer e acontecia várias vezes que um ou dois dedos caíssem. Mas esta não era a pior parte. O pior era o odor que o pé exalava, considerado por muitos homens como sexy. O processo de deformação durava cerca de três anos, e nesta altura o pé estava praticamente morto.

Os sapatos criados especialmente para estas mulheres faziam o suporte no calcanhar, levando as que podiam caminhar, a fazê-lo de forma bamboleante, ‘como um lótus abanando ao vento’, como eram descritas na literatura da época. (...) Existiam muitos artigos pornográficos, como pinturas e gravações com cenas de homens acarinhando os ‘pés de lótus’.

Os pés eram considerados ‘lótus de ouro’ se medissem cerca de 7,5 cm, de prata se tivessem 10 centímetros e de ferro, se tivessem mais do que esse comprimento. Os pés tornaram-se objeto de culto e conseqüentemente o mesmo aconteceu com os sapatos, alguns deles confeccionados pelas próprias mulheres, que os chegavam a usar até para dormir. A cor dos sapatos era muito importante, sendo que o vermelho era a mais popular.

O costume estava tão arraigado que mesmo alguns homens deformavam os pés, especialmente os bailarinos ou os prostitutos.

Foi em 1895 que se criou a primeira associação contra esta prática em Shanghai, num movimento que se alargou por todo o país. O ponto de partida para esta campanha era que as dores por que a mulher passava em todo o processo eram um obstáculo à sua educação. Os membros da associação não impunham este tratamento às filhas e registravam-nas na sociedade, permitindo assim encontrar maridos dispostos a casar com mulheres normais. Em relação aos filhos dos membros, estes não estavam autorizados a casar com mulheres ‘pés de lótus’.

Finalmente, em 1911, com a revolução de Yat-Sen esta prática foi formalmente proibida. Quando Mao Tse-Tung subiu ao poder, condenou esta prática, mas continuaram a ser permitidos os livros de cabeceira que mostravam as várias técnicas sexuais possíveis com ‘os pés de lótus’. Mais tarde estes livros foram queimados, assim como outros que invocavam a China pré-revolucionária, durante a revolução cultural. A proibição de Mao ia ao ponto de enviar inspetores por todo o país que aplicavam multas a todas as famílias que continuassem a praticar este processo. Em 1998 encerrou a última casa que manufaturava os sapatos para mulheres ‘lótus’.

Crê-se que mais de 4.5 bilhões de chinesas foram submetidas a este tratamento durante um período de mil anos, tudo em nome de uma moda e de uma cultura sexual.


Adaptado do texto no site Mulher Portuguesa.

domingo, maio 06, 2007

Mapa do Império Mongol


Alguns dos meus alunos e alunas ficaram curiosos para saber qual seria a extensão do Império Mongol, em especial no reinado de Kublai-Khan. Pois bem, consegui dois mapas que mostram muito bem o que foi este império, o maior em extensão territorial que já existiu.

Mapa do Império

O Império mongol em relação ao mundo

domingo, abril 29, 2007

2º BIMESTRE: ÍNDIA


## Quando falamos aqui de Índia, não estamos nos referindo ao país Índia atual, mas a uma região - a grande Índia - que no passado englobava os atuais territórios da Índia, do Paquistão, de Bangladesh e Sri Lanka que se separaram depois da independência do domínio inglês em 1947. Culturalmente semelhantes tais países tem como fator de diferenciação a religião, pois Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka são regiões convertidas à religião muçulmana. A questão religiosa, somada a outros interesses, é fator de conflito entre Paquistão e Índia que disputam não somente a hegemonia na região mas, também, a região da Caxemira que mesmo tendo permanecido como território indiano é de maioria Islâmica.

LOCALIZAÇÃO: Região Centro-Sul da Ásia, situada entre a Mesopotâmia e a China. Ao norte da região existe uma fronteira natural, a Cordilheira do Himalaia onde se encontra o ponto culminante da Terra, o monte Everest com 8.882 m. Durante a Antigüidade, parte da Índia foi anexada ao território do Império Persa e posteriormente ao de Alexandre da Macedônia.

FORMAÇÃO ÉTNICA: A região já era ocupada desde aproximadamente 3.000 anos a.C. por povos de origem diversa. Com a invasão das tribos arianas por volta de 1.500 a.C. que dominaram os drávidas, povo principal que habitava a região, os vários grupos étnicos se misturaram começando a formação daquilo que conhecemos como civilização hindu.

SOCIEDADE: A marca da organização social indiana é a divisão da sociedade em castas. Castas são camadas da sociedade divididas por ofício e/ou origem étnica, os membros de castas diferentes não se misturam. Uma sociedade de castas é uma sociedade Estratificada sem possibilidade de mobilidade social. A estrutura de castas foi implantada na Índia pelos árias invasores e se tornou marca da sociedade indiana. Apesar de abolida em 1947, ainda regula parte das relações sociais, principalmente nas cidades e vilas do interior. Cada casta é dividida em subcastas tendo uma dinâmica interna própria, além disso, existe a figura do pária que seria o indivíduo que estaria fora da sociedade. Aos párias caberiam os lugares e funções mais humilhantes dentro da sociedade. Já o topo da sociedade seria ocupado pelos brâmanes ou sacerdotes que governariam a sociedade e ocupariam os melhores postos, além disso, tinham escolas próprias e usavam, depois de adultos, o cordão sagrado que representaria a sua posição de homem livre. Pela ordem, abaixo dos Brâmanes temos os Xátrias (príncipes/militares), os Vaixás (comerciantes, artesãos e camponeses) e, por fim, os Sudras (servos).[1]

LEGISLAÇÃO: O primeiro código de leis indiano é o Código de Manu (*aproximadamente entre 1300 e 800 a.C.*) e foi autoria dos brâmanes.

ESTADO: A região da Índia foi marcada por várias tentativas de unificação e pela hegemonia de um estado sobre os demais. Assim, podemos destacar:

1. Século IV a.C.: Tentativa de unificação movida pela dinastia Maurya. A expansão do território irá cessar com a conversão ao Budismo e o interesse dos reis, a partir de Asoka, [2] pelo desenvolvimento da nova fé.

2. Século II a.C.: Nova fragmentação.

3. Século IV d.C.: Domínio da Dinastia Gupta com grande desenvolvimento cultural.

4. Século VI d. C.: Invasão dos hunos e outros povos, fim da dinastia Gupta e divisão do Império em dois.

5. Século VII: Invasão árabe e implantação do Islamismo na parte Oeste da região. Fundação do Sultanato de Délhi que se torna uma potência econômica e só perderá importância no século XVI.

6. Século XVI-XVIII: Invasão dos muçulmanos mogóis que fundam a dinastia grã-mogol e levam a região a um novo apogeu econômico e cultural.

7. Século XVI: Chegada dos Europeus, principalmente portugueses, que passam a participar do comércio e fundam feitorias (*entrepostos comerciais geralmente com um forte e armazéns para guardar os produtos*) na região.

8. Século XVIII: A Índia se torna colônia inglesa e só obterá a independência em 1947.

ECONOMIA: A base da economia era a agricultura irrigada (*trigo, cevada, frutas, algodão*), com destaque para o comércio (*A Índia ficava no meio de rotas comerciais como a Rota da Seda.*) e a manufatura de tecidos. Após a conquista inglesa, os dominadores irão colocar limites e destruir produção de tecidos indiana, pois essa concorria diretamente com a produção inglesa sendo de maior qualidade do que a produzida na metrópole.

RELIGIÃO: Se baseia no culto a vários deuses, alguns introduzidos pelos árias (*religião Védica*) e outros já existentes na região. O dado a religião da Índia antiga é Bramanismo, mas com o passar do tempo, as tradições religiosas indianas ficaram conhecidas com o nome genérico de Hinduísmo. O Hinduísmo é uma religião que por princípio aceita a coexistência com outras práticas religiosas, como o Budismo, por exemplo, e traz no seu interior vários grupos tão diversos quanto os Jainistas e os Hare Krishna. O conflito religioso só se tornou uma realidade com a introdução do Islamismo (*a partir do séc. VII d.C.*) que por ser monoteísta não admite a existência de outros deuses. No entanto, dentro da Índia atual (*o país*) alguns muçulmanos convivem pacificamente com as práticas hindus. Entre os textos mais sagrados do Hinduísmo estão os Vedas que datam que foram produzidos entre os séculos XV e XII a.C.

CIÊNCIA E CULTURA: Os indianos se destacaram principalmente na poesia, na arquitetura, na matemática, na escultura, na literatura, na astronomia e na medicina.

[1] Todos os estrangeiros por princípio deveriam ser párias, mas terminam sendo incorporados à sociedade com os direitos de uma determinada casta. Por exemplo, parte dos judeus que moraram por séculos na Índia depois da Diáspora recebiam o tratamento similar aos dos Vaixás. Os povos vizinhos que foram convertidos pelos indianos em algum mmento de sua história também foram reconhecidos como pertencentes ou gozando dos direitos de uma das castas.
[2] A história de Asoka, o rei indiano que se converteu ao Budismo, foi transformada em filme na Índia e está disponível nas locadoras brasileiras. É uma boa chance para quem deseja conhecer um pouco mais da história de Asoka o rei que unificou a Índia, cujo brasão se encontra na bandeira da Índia atual, que teve filhos que se tornaram os primeiros missionários budistas. Apesar das muitas liberdades tomadas é um filme legal e é genuíno cinema de Bollywood (*termo cunhado a partir de Bombaim, grande centro cinematográfico do país, mais Hollywood*).

quinta-feira, abril 26, 2007

Texto Complementar: Infanticídio feminino faz número de homens superar o de mulheres em 50 milhões na Índia


Cultura local desvaloriza filhas; abortos e assassinatos são comuns

Swami Agnivesh, Rama Mani, e Angelika Koster-Lossack*

Nos últimos anos, o mundo ficou chocado com a supressão brutal das mulheres no Afeganistão, a prática de mutilação genital feminina em partes da África e o abuso do serviço doméstico feminino em lugares como Arábia Saudita. No entanto, a maior democracia do mundo é a vencedora não declarada do concurso de violência contra a mulher.

Na Índia, o feticídio feminino, ou o aborto seletivo de meninas, gerou um alarmante desequilíbrio entre os sexos na população do país. Em 1990, o censo concluiu que a Índia tinha 25 milhões de homens a mais do que mulheres. O governo reagiu adotando uma lei que proibia a determinação do sexo do feto pelo exame de ultra-som. Mesmo assim, em 2001, a diferença no número de homens e mulheres tinha aumentado para 35 milhões e agora especialistas estimam que chegue a 50 milhões.

A prática de infanticídio feminino tem uma longa história na Índia. Por causa das amplas preferências culturais por meninos, muitas meninas eram mortas logo após o nascimento. Mas a tecnologia moderna, particularmente a máquina de ultra-som, tornou mais fácil para os pais e altamente rentável para os médicos praticar abortos femininos, sem grande risco de detecção ou ação legal punitiva.

Acreditava-se que o feticídio feminino prevalecia entre hindus, por causa de seu costume de exigir que filhos homens façam os ritos de cremação. No entanto, hoje a prática é igualmente comum entre sikhs, muçulmanos e cristãos.

Da mesma forma, acreditava-se que a prática prevalecia entre pobres e analfabetos, por causa das duras exigências de dotes das noivas, assim como outros preconceitos tradicionais. Entretanto, recentes estudos indianos e da ONU revelam que o feticídio feminino hoje é mais freqüente entre os ricos com alta escolaridade.

Um estudo detectou uma relação da freqüência do aborto feminino proporcional ao nível de escolaridade --menor entre mulheres com quinta série do ensino fundamental e maior entre mulheres com diplomas universitários.

As conseqüências do feticídio feminino e o resultante desequilíbrio entre os sexos já estão se desdobrando: há um tráfico de meninas de países vizinhos empobrecidos, como Bangladesh e Nepal, ou de áreas tribais ou mais pobres na Índia e vendidas em casamento pelo equivalente a US$ 200 (em torno de R$ 440 --no Estado de Haryana, um touro custa aproximadamente R$ 2.200).

Com 50 milhões de meninas desaparecidas, o resultado dessa perigosa prática é inelutável: mesmo sendo a segunda nação mais populosa do mundo, sem mulheres, estará destinada à eventual extinção.

No início deste ano, o ministro da saúde Anbumani Ramadoss expressou desespero com a incapacidade do governo de reverter essa situação calamitosa, apesar de a legislação e de outras políticas. Depois disso, líderes religiosos de todas as fés reuniram-se um "Yatra de Compaixão de Todas as Crenças", uma espécie de marcha de protesto ao feticídio feminino.

A manifestação foi organizada pelo Arya Samaj, movimento social-religioso reformista fundado em 1875, com o apoio dos governos estaduais e federal, além da Unicef e Unifem.

No início do mês, os participantes da Yatra atravessaram os Estados mais afetados do Norte da Índia em um comboio motorizado, gerando uma onda crescente de consciência e ação entre líderes religiosos e políticos, ativistas, grupos de mulheres, estudantes e professores. Enquanto marchávamos, gritávamos aos milhares:
"Filhos e filhas são iguais! Salve suas filhas para salvar nosso país!"

Nossa posição é categórica: terminar com o feticídio feminino não é suficiente. Todas as formas de injustiça sexual devem ser extintas. O tratamento das mulheres como cidadãs de segunda classe é profundamente arraigado na mente indiana, seja hindu, muçulmana, sikh, cristã, jainista ou zoroastriano.

Apesar de o dote ser ilegal, as exigências ainda são exorbitantes e resultam em cerca de 25.000 mortes por ano, pelas mãos de noivos e sogros avarentos. Viúvas recebem tratamento execrável, mesmo sendo menores, e não têm o direito de se casarem novamente. Meninas, mesmo quando têm permissão de freqüentar a escola, são sobrecarregadas com tarefas domésticas, elevando as taxas de desistência dos estudos. Em todas as religiões, o nascimento de um filho é celebrado, enquanto nascimento de uma filha é lastimado.

Até que filhos e filhas sejam tratados igualmente, até que a vida seja segura para a mulher indiana, o país continua moralmente sitiado. Nossa marcha exige não só um fim ao feticídio feminino, mas a todas as formas de violência contra a mulher. Exige respeito aos direitos da mulher e dignidade do nascimento à morte.


*Swami Agnivesh, ex-ministro da educação do Estado de Haryana, é presidente do Arya Samaj. Rama Mani é diretora de cursos do Centro de Política de Segurança Genebra. Angelika Roster-Lossack é ex-parlamentar alemã do Partido Verde.