terça-feira, junho 10, 2008

2º BIMESTRE: Erasmo de Rotterdam — A crítica dentro da Igreja


Durante os séculos XV e XVI, inúmeros padres e monges levantaram sua voz criticando a Igreja e propondo a convocação de concílios para encaminhar reformas. Muitos deles criticaram severamente a Igreja, mas permaneceram sempre dentro dela, sem chegar ao rompimento com Roma. Erasmo de Rotterdam (1466-1536) foi um desses homens. Desde cedo participou do movimento dos Irmãos da Vida Comum, que buscava um ideal de piedade e desprezo ao mundo. Posterior¬mente, tornou-se monge agostiniano, bacharel e professor de Teologia. Erasmo combatia a venda das indulgências e o comércio de objetos sacros (simonia):

Que diria Jerônimo se pudesse ver o leite da Virgem exibido por dinheiro, recebendo tanta veneração quanto o corpo consagrado de Cristo; os óleos milagrosos; os fragmen¬tos da verdadeira cruz, suficientes, se fossem reunidos, para fabricar um grande navio? Aqui temos o capuz de São Francisco, ali a saia de Nossa Senhora, ou o pente de Santa Ana... não apresentados como auxiliares inocentes da religião, e sim como a substância própria da religião — e tudo pela avareza dos padres e hipocrisia dos monges que brin¬cam com a credulidade do povo. (Erasmo, Novum Testamentum omne, diligenter ab Erasmo Rot. recognitum at Emendatum, 1518. Apud Will Durant, op. cit., p. 239.)

Erasmo defendia a tradução da Bíblia para as línguas nacionais e sua leitura por todos os cristãos:

Gostaria que a mais fraca mulher lesse os Evangelhos e as Epístolas de São Paulo [...] Gostaria que essas palavras fossem traduzidas para todas as línguas, afim de que não só os escoceses e irlandeses, como também turcos e sarracenos pudessem lê-las. Anseio por que o lavrador as cante para si mesmo quando acompanha o arado, o tecelão as murmure ao som de sua lançadeira, que o viajante iluda com elas a monotonia da jornada. (Id.,ibid.,p. 240-1.)
O elogio da loucura

Muitos de seus escritos foram redigidos em tom satírico, entre eles O elogio da loucura, em que se louva a necessidade da loucura e a tolice da sabedoria no mundo:


Rivais dignos dos príncipes, os soberanos pontífices, os cardeais e os bispos [...] Hoje, os bispos apenas se preocupam em apascentar-se a si próprios, deixam o cuidado do rebanho a Cristo. Esquecem que a palavra bispo significa trabalho, vigilância, solicitude. Servem-se apenas de tais qualidades quando pretendem recolher dinheiro. [...] Se os Sumos Pontífices, que estão no lugar de Cristo, se esforçassem por imitá-lo na pobreza, nos trabalhos, na sabedoria, no sofrimento e no desprezo pelas coisas terrenas, não seriam eles os mais infelizes de todos os homens ? Quantas comodidades não perderiam, se um dia a sabedoria os penetrasse. Vede quantas riquezas, honras, troféus, ofícios, dispensas e impostos, indulgências, cavalos, mulas, guardas e prazeres. Ora, tudo deveria ser substituído pelos jejuns, vigílias, lágrimas, orações, sermões, estudos e penitências e mil outros incómodos enfadonhos. (Erasmo, O elogio da loucura, 1511, p. 117-9.)

Um ano após a morte do papa Júlio II, Erasmo publicou um diálogo de São Pedro com o papa na tentativa de entrada no céu:

Júlio: Basta. Sou Júlio, o ligurino*, P.M. ...
Pedro: P.M.! Que é isso? Pestis máxima ?
J: Pontifex Maximus, seu velhaco.
P: Se você é três vezes Maximus... não poderá entrar aqui se não for também Optimus.
J: Impertinência! Você, que não foi mais do Sanctus em todas essas eras — e eu Sanctissimus, Sanctissimus Dominus, Sanctitas, a própria Santidade, com bulas* para prová-lo.
P: Não há diferença entre ser santo e ser chamado Santo?... Deixe-me olhar um pouco mais de perto. Hum! Sinais de impiedade em abundância... Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo; olhos ferozes, boca insolente, testa impenetrável, corpo cheio de cicatrizes de pecados, hálito carregado de vinho, saúde esgotada pela libertinagem. Ai, ameace quanto quiser, vou dizer-lhe quem é... É Júlio, o Imperador que voltou do inferno...
[...] P: Tem de mostrar seus méritos antes de entrar.
J: Que quer dizer por méritos?
P: Ensinou a verdadeira doutrina ?
J: Eu não. Estive ocupado demais com a guerra. Há monges para cuidar da doutrina [...]
P: E a respeito de Ferrara ?
J: [...] Eu queria o ducado de Ferrara para um filho que tinha, em que se poderia confiar que seria fiel à Igreja, e que acabava de apunhalar o cardeal de Pavia.
P: Como?Papas com esposas e filhos?
J: Esposas? Não, esposas não, mas por que não filhos?
P: Não haverá meio de remover um mau papa ?
J: Absurdo! Quem pode remover a mais alta de todas as autoridades ? Um papa só pode ser corrigido por um Concílio Geral, mas nenhum Concílio Geral pode ser convocado sem o consentimento do papa. Portanto, ele não pode ser deposto por crime algum. [...] Então, não quer abrir o portão?
P: Antes para qualquer outra pessoa do que para gente como tu...
J: Se não ceder, tomarei seu lugar à força. Neste momento estão fazendo uma bela destruição lá embaixo; em breve terei 60 000 fantasmas atrás de mim.
P: Oh, homem miserável! Oh, miserável Igreja! Não me surpreende que agora tão poucos se apresentem aqui pedindo para entrar, quando a Igreja tem tais governantes. [...]
(Erasmo, Iulius exclusus, 1514. Apud Will Durant, op. cit., p. 235-7.)

Fé e razão

No fundo, as idéias de Erasmo não constituem uma nova doutrina, mas uma tendência a uma religião simplificada, combinando fé e razão, baseada nas Escrituras, onde o livre exame das questões teológicas é possível a uma elite. A fé e a esperança nas capacidades do homem representam uma influência muito grande do humanismo renascentista, do qual Erasmo é um dos expoentes. O discurso de Erasmo tinha muito prestígio intelectual e encontrava audiência junto a papas, soberanos, intelectuais, homens de Estado, além de penetrar difusamente nos segmentos burgueses. Entretanto, tinha pouca penetração nos meios populares. No que se refere à salvação do homem, Erasmo defendia o livre-arbítrio:
[...] a verdade das Escrituras mostra a liberdade do homem de escolher entre o bem e o mal de acordo com sua vontade interior. A alma humana possui um poder de julgar e um poder de escolher. O pecado de Adão corrompeu a vontade e a inteligência humanas, mas não as anulou. [...] mesmo sem a graça podemos dirigir-nos para o bem, realizar obras moralmente boas e que merecem de Deus uma Graça santificadora. (Erasmo, De libero arbítrio, 1524. Apud Will Durant, op. cit., p. 363.)

De acordo com o pensamento renascentista, Erasmo afir-lava a bondade natural do homem:

Há uma razão em todo homem, e em toda razão uma tendência para o bem [...] O cachorro nasce para caçar; o pássaro para voar; o cavalo para correr; o boi para lavrar; assim o homem nasce para amar a prudência e as boas obras. A natureza do homem é uma inclinação, uma propensão profundamente instintiva para o bem. (Erasmo, De pueris statim ac libera-lites instituendis, 1529. Apud Will Durant, op. cit., p. 363.)
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Viajando muito pela Europa e pelo Sacro Império Romano-Germânico, Erasmo conheceu as idéias de Lutero. A 9 de setembro de 1517, Erasmo escreveu de Antuérpia, onde se encontrava, ao Cardeal de York, e numa das frases da carta diz: "Nesta parte do mundo temo que se esteja preparando uma grande revolução".

domingo, junho 01, 2008

D. João VI no Correio Braziliense


Padre José Maurício Nunes Garcia, o melhor organista da corte, oxigenou a cena musical do Rio em 1808 Marcos Portugal chegou ao Brasil em 1810 e foi nomeado mestre-de-capela no lugar de Nunes Garcia

O Correio Braziliense é o jornal mais importante de Brasília e veio com uma série de matérias comemorativas dos seus 200 anos... ou dos 200 anos do primeiro jornal do Brasil, chamado de Correio Braziliense. Vou estar postando toda a série aqui. Esta é a sétima.

O mulato contra o português

Nahima Maciel
Da equipe do Correio

O repertório preparado pelo mestre-de-capela Marcos Portugal para o concerto de hoje na Capela Real está ao gosto de S.A.R e sua Augusta Família. A comédia napolitana, preferida de dom João VI, é a âncora de Portugal para montar os programas da capela. Os castrati italianos, importados logo que a corte foi transferida de Lisboa para o Rio de Janeiro, estão a postos para empostar suas vozes de soprano e os cenários burlescos para a música lírica italiana tão apreciada pela corte. Há anos Portugal faz ouvir suas vontades e seus egos na cena musical do Rio. Exige da Casa Real muito mais que suas necessidades musicais e consegue de S.A.R os favores mais estapafúrdios. Mas dom João acha o conterrâneo divertido. E lhe faz concessões. Portugal consegue, assim, ofuscar um brasileiro do qual pouco se ouve falar nos dias de hoje, um rival confesso e talentoso. Relegado a tímido assistente da Capela Real, o padre José Maurício Nunes Garcia pouco decide sobre os programas da casa. A ele não são concedidas vontades e é preciso percorrer recintos privados e íntimos para ouvir uma das centenas de suas brilhantes peças compostas na última década.

Há cinco anos, em 1808, Nunes Garcia era o principal responsável por oxigenar a cena musical do Rio. Vale lembrar a delicadeza do repertório montado para receber dom João VI e sua corte, em março daquele ano, por ocasião do desembarque real. Veio do padre-mestre o esforço para organizar a estrutura musical da Capela Real, quando o regente decidiu transferi-la da Igreja do Rosário para a Catedral do Carmo. Mas é a qualidade musical de Nunes Garcia a peça mais importante desse tabuleiro.

A música sacra de inspiração clássica do padre tem raízes no melhor da produção européia. Se o repertório de Portugal se presta a piruetas vocais típicas da música napolitana, apropriada à vaidade dos cantores e ao entretenimento do público, as pautas de Nunes Garcia se destacam pela sobriedade e simplicidade da massa vocal entoada pelos corais. O padre também orquestrou a primeira apresentação do Réquiem de Mozart no Brasil. “Esta primeira experiência foi tão bem-sucedida em todos os seus aspectos que esperemos que não seja a última”, reparou o compositor austríaco Sigismund Neukomm, radicado no Rio.

Agora voltemos a Portugal. Naquele mesmo 1808 em que o Rio via desembarcar dom João VI e sua corte em fuga das tropas de Napoleão Bonaparte, o compositor subia ao palco do Teatro São Carlos, em Lisboa, para dirigir uma ópera de autoria própria em comemoração ao aniversário do imperador francês. Também escreveu um Te Deum a pedido dos franceses que ocupavam Portugal, situação tão embaraçosa que, poucos meses depois, tratou de compor outra peça sacra para dom João VI. Portanto, causa estranheza a predileção de S.A.R por Marcos Portugal.

A preferência da corte é senhora dos palcos. E nos tempos atuais desta década de 1810 é ínfimo o espaço para um padre-mestre mulato, filho de uma descendente de escravos e um branco e, ele mesmo, pai de filhos, condição que em pouco beneficia o prestígio do mestre-de-capela. Mais vale o glamour do português de formação italiana, autor, é verdade, de óperas encenadas no Scala de Milão e no Odeon de Paris. São conhecidos do público os desafios protagonizados pelos dois compositores. Nesses, ficou notória a capacidade de improvisação de Nunes Garcia, o melhor organista da corte. As competições, no entanto, não impediram que o senhor Portugal viesse a dominar a cena musical palaciana.

Fonte: A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI, de Vasco Mariz. Editora Casa da Palavra, 2008

D. João VI no Correio Braziliense


O Correio Braziliense é o jornal mais importante de Brasília e veio com uma série de matérias comemorativas dos seus 200 anos... ou dos 200 anos do primeiro jornal do brasil, chamado de Correio Braziliense. Vou estar postando toda a série aqui. Esta é a sexta.

Há 200 anos...
Dom João VI muda rumo do mercado

Carmen Souza
Da equipe do Correio

De mala e cuia em solo brasileiro, a família real portuguesa provocou mudanças nas condições de trabalho que influenciam até hoje as relações entre mercados, patrões e funcionários. Logo no desembarque, em 1808, o anúncio feito por Dom João VI do fim da produção exclusiva causou impacto nas estruturas urbanas e rurais. A partir daquele momento, os portos estavam abertos às nações amigas. Os produtos brasileiros não precisavam mais passar obrigatoriamente pelas alfândegas portuguesas. E estava liberada a importação direta de produtos de países bem relacionados com a Corte.

Há quem diga que essa mudança foi o primeiro passo do Brasil rumo à globalização. Discussões paradigmáticas à parte, o fato é que, um ano depois da abertura dos portos, existiam mais de 100 empresas comerciais britânicas só no Rio de Janeiro. Inaugurações a calhar, já que o auge da exploração do ouro e da produção de cana-de-açúcar havia ficado para trás. Logo na chegada, Dom João VI também revogou um alvará, de 1785, que impedia a fabricação de qualquer produto no Brasil. Começaram a surgir fábricas de pólvora, tecido, barcos, siderúrgicas, carpintarias.

“Evidentemente houve um fortalecimento da vida urbana. Com isso, cresceram a prestação de serviço e a produção de manufaturas ainda precárias. É o começo das relações de trabalho mais liberais e flexíveis mesmo em um regime de escravidão”, afirma Solimar Oliveira Lima, professor de economia da Universidade Federal do Piauí. Figuras como o escravo de ganho e as negras de tabuleiro eram exemplos dessas transformações.

Os escravos de ganho passavam dias longe dos seus senhores e voltavam, na data estabelecida, para pagar o valor combinado pelo período de liberdade. Na cidade, alugavam os seus dotes trabalhando em barbearias, no transporte de pessoas, na limpeza urbana. “Quem pagava pelo serviço exigia que o escravo desempenhasse funções diferentes. E, hoje, essa flexibilidade é uma característica muito valorizada pelo mercado de trabalho”, compara Solimar.

As mulheres voltavam-se mais para o comércio, como acontecia na África. Com tabuleiros na cabeça, vendiam comida para os moradores das cidades. Foi a origem das tradicionais baianas, espalhadas hoje por todo o país. “Eram duas formas de trabalho diferentes do imaginário do tronco — em que o escravo trabalhava 20 horas por dia e depois era chicoteado —, e bastante comuns no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais”, explica Eduardo França Paiva, professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais.

Jornada de sangue

Apesar da flexibilidade, a jornada imposta aos trabalhadores, independentemente das regras, era exaustiva, salienta Sadi Dal Rosso, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. “Era um trabalho tingido de sangue. A expectativa de vida naquela época era de 25, 27 anos. Grandes empregadores chegavam a investir em um sistema de reprodução de escravos”, afirma. Estima-se que, no início do século 18, o tráfego negreiro tenha trazido 1,5 milhão de africanos para o Brasil.

Além dos escravos, existiam os trabalhadores livres e, ainda incipientemente, pessoas submetidas a um regime de pré-assalariamento. Em muitos casos, não recebiam um salário, mas tinham a permissão para explorar a terra e dividiam a colheita com o proprietário. “É a origem do coronelismo, em que os trabalhadores submissos produzem para os grandes latifundiários”, diz o professor Solimar.

Ao longo do século 19, essas relações foram ganhando força, a ponto de a Lei Áurea — que em 1888 extinguiu o regime de escravidão — ter um caráter apenas formalizador. “Ela (a lei) deu continuidade a formas tradicionais de trabalho. Reconheceu uma realidade que existia. Já no início do século 19, a realidade do trabalho era diversa, plural e de uma mobilidade considerável”, destaca o professor Eduardo Paiva.

Editor: Plácido Fernandes // placido.fernandes@correioweb.com.br
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Há 200 anos
A madrugada do sonho

Guilherme Goulart
Da equipe do Correio

O boiadeiro de botas claras, chapéu-de-couro, calça e camisa de algodão vê ao longe o pôr-do-sol rosado por detrás do vilarejo de Santa Luzia, a futura Luziânia (GO). Sente falta da balbúrdia. Tem saudade dos tempos da mineração, época em que o povoado encravado no Planalto Central abrigava 10 mil habitantes. Com o rosto iluminado pelos últimos raios solares, o senhor de cabelos brancos relembra o frenesi provocado pela exploração do ouro que brotava do chão avermelhado. Mas constata, triste, a decadência nos primeiros anos de 1800.

Sem a presença dos mineradores, ele e a família vivem do que plantam. Criam algumas cabeças de gado. Nada parecido com a grandeza dos fazendeiros locais. Os vizinhos graúdos mantêm os animais soltos na paisagem sem fim do cerrado. São donos de terras a se perder de vista. Nem sabem com exatidão onde elas começam ou terminam. O senhorzinho, por exemplo, nunca viu cercados entre as propriedades. Conta que a delimitação se dá por rios, pedras, árvores, morros, marcos e o que servir de referência a forasteiros e aventureiros.

O boiadeiro, de rosto rachado pelo sol, também acha graça de como são conhecidas as fazendas da região: Gama, Papuda, Sobradinho, Bananal… O velho ri, nem imagina que os apelidos se perpetuarão no século seguinte. A Gama receberá uma cidade com o mesmo nome a partir da inauguração da nova capital do Brasil, cerca de 150 anos além do distante pôr-do-sol. A área da Papuda ficará com o maior presídio da então inimaginável Brasília. Já as duas últimas se transformarão em localidades recheadas de condomínios e pequenos vilarejos.

No longínquo interior goiano, o pequeno fazendeiro admite com desânimo que a vida passa devagar. O desenvolvimento agora é lento, quase parando. Há apenas povoados ao redor de Santa Luzia. E as futuras Formosa, Pirenópolis e Planaltina têm outros nomes e poucas chances de crescimento. O velho boiadeiro, católico, prefere Santa Luzia. O lugar, fundado em 13 de dezembro de 1746 pelo menos abriga a bela Igreja do Rosário. Ele, a mulher e as três filhas freqüentam missas todos os dias.

A família mora bem pertinho do templo. Vive em uma casa pequena de madeira, igual às demais da região. Foi erguida com troncos de aroeira, mais grossas e resistentes às agruras do tempo. O terreno é espaçoso, o que facilita o plantio e a criação do gado solto. Mas o senhorzinho, com o chapéu acomodado embaixo do braço, também recorre a vendinhas para abastecer o lar com o valorizado sal, ferramentas e roupas que chegam com os tropeiros, no lombo das mulas. O velho boiadeiro lamenta ainda os problemas que embaralham o otimismo e a auto-estima do povo. Nem o fim da mineração terminou com os conflitos entre tribos indígenas nômades e colonos. A febre amarela mata a cada ciclo da doença. Para ele, só um louco ou um sonhador tentaria trazer o progresso ao centrão calorento do país. A loucura ou o sonho era questão de tempo, mal sabia ele.

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D. João VI no Correio Braziliense


O Correio Braziliense é o jornal mais importante de Brasília e veio com uma série de matérias comemorativas dos seus 200 anos... ou dos 200 anos do primeiro jornal do brasil, chamado de Correio Braziliense. Vou estar postando toda a série aqui. Esta é a quarta.

Há 200 anos
Um país tão rico quanto os EUA

Luís Osvaldo Grossmann
Da equipe do Correio

Jamais uma casa real européia atravessara o Atlântico. Viajar de navio não era só demorado como tinha seus perigos, dos naufrágios às doenças pelas condições insalubres das longas travessias, das quais os piolhos que infestaram os barcos da corte portuguesa foram o menor dos problemas. Ao deixar Lisboa, Dom João moveu-se para salvar a própria cabeça e a monarquia liderada pela casa de Bragança. Talvez fosse menos arriscado fugir para outras possessões lusas, mas a escolha pelo Brasil era uma imposição econômica.

Senhores dos mares três séculos antes, os portugueses chegaram à costa brasileira em barcos mal conservados, com cordumes podres e velas que se rasgavam. Era o retrato de uma nação empobrecida, que para pagar a viagem e a escolta inglesa, a maior marinha de guerra do mundo, tomara 600 mil libras à própria Inglaterra — dinheiro que seria parte da dívida de 2 milhões de libras que o Brasil herdaria de Portugal com a independência, 15 anos depois.

À decadência lusa, o porto do Rio de Janeiro representava um forte contraste. Cruzamento transoceânico para navios que partiam da Europa e da América do Norte para Ásia, África e Oceania, a capital brasileira recebia cerca de mil navios por ano. Era uma escala importante nas demoradas navegações ao redor do planeta. E mais. Nos duzentos anos anteriores, o açúcar firmara-se como a mercadoria mais importante do comércio mundial, superando em valor o comércio de grãos, carne, peixes, tabaco, especiarias, tecidos ou metais.

Balança comercial

Na virada do século 19, as exportações do Brasil incluíam 125 produtos, de algodão a diamantes, de café a couros. Na década anterior a 1808, as exportações brasileiras responderam por 83,7% de tudo o que as colônias portuguesas enviaram à metrópole — e as reexportações das mesmas renderam 56,6% das receitas lusitanas no comércio exterior.

No todo, essas exportações chegavam a 4 milhões de libras anuais. Mas, nas contas de Celso Furtado, que se debruçou sobre o tema para escrever Formação Econômica do Brasil, a economia girava quatro vezes mais: 16 milhões de libras. No início do século 19, o Brasil era um país tão rico quanto os Estados Unidos, independentes desde 1776.

A força dessa economia foi construída a partir das grandes plantações, especialmente de cana, mas também de algodão e da ainda pequena, mas promissora, cultura do café. A cana dominava a costa de Pernambuco a São Paulo. No norte, do Pará ao Ceará, era o algodão. Com ouro e diamantes, parte dessa energia ganhou o interior, estendendo-se até Mato Grosso. E o café, que começou no Rio, aos poucos se estendia para São Paulo e Minas.

Um elemento, porém, é comum e essencial a todo esse complexo produtivo: o escravo. Mais rentável das mercadorias negociadas, origem das maiores fortunas da colônia, razão de desenvolvimento mesmo das economias do extremo sul e da ponta nordeste, que viviam indiretamente das plantações e das minas.

Agricultura

Além disso, a estrutura das grandes plantações demanda cobre, ferro, alcatrão, medicamentos, sal, vinagre, vestuário, prego, velas, comida para os escravos e animais para transporte. Do Rio Grande do Sul tropeiros levavam mulas, cavalos e gado, além de couro e sebo, mas especialmente o charque, base da alimentação dos escravos. Santa Catarina e Paraná ainda eram parte de São Paulo, mas integravam esse circuito do gado, além do primeiro produzir óleo de baleia e o segundo erva-mate. O sul do Maranhão e o interior do Piauí também forneciam gado e seus subprodutos para as fazendas do norte, enquanto papel semelhante foi sendo ocupado por Piauí e Paraíba no Nordeste.

São Paulo, que era o grande entroncamento ao sul, distribuía esses produtos para o interior — Minas, Goiás e Mato Grosso — além de contar ele próprio com plantações de cana e um pouco de café. Do Nordeste, através do vale do São Francisco, insumos também chegavam a Minas Gerais, então o estado mais populoso e que contava até com os primórdios de uma indústria têxtil.

No topo dessa cadeia estavam as praças de Salvador e Rio de Janeiro. A Bahia era a segunda principal porta de entrada de escravos, o maior produtor de açúcar e tabaco, dois dos principais artigos de exportação do século 17, e também tinha algodão. Mas a riqueza grande estava na capital, entre os comerciantes. E, dentro do comércio, o tráfico de escravos não tinha rival em lucratividade.

Escolha errada

No século 18, chegaram ao Rio de Janeiro 850 mil escravos, o que envolvia uma complexa operação que começava com a construção, compra ou aluguel de navios — alguns deles importados; exigia a formação de estoque para a troca — tecidos asiáticos, cachaça brasileira e armas européias; os alimentos para a travessia — farinha de mandioca; e toda uma rede de distribuição que do Rio se estendia a Mato Grosso e Buenos Aires. E era sob as ordens dos traficantes de escravos cariocas que correspondentes agiam principalmente em Angola para capturar os negros.

A mobilização desses recursos exigia capital forte. Essa operação custava entre 15 e 30 contos de réis, dinheiro suficiente para comprar três engenhos de açúcar com 1,5 mil hectares, 40 escravos e benfeitorias. Como explicou Jorge Caldeira, “não é de estranhar que, comparados aos grandes traficantes, os mais poderosos senhores rurais brasileiros não passassem de simples gotas no oceano monetário das fortunas negreiras”.

Com tanto em jogo, também não surpreende que o Brasil tenha sido o último país a abolir a escravidão. Mas talvez seja enganoso explicar por essa via o posterior atraso econômico do país. Todas as ricas nações européias e os Estados Unidos utilizaram largamente o trabalho escravo e lucraram cifras astronômicas com o tráfico. Ainda que não justifique a escravidão, tampouco essa serve como explicação para a decadência. Se nos primeiros anos do século 19 o Brasil era tão rico como os Estados Unidos, ao se aproximar dos 1900 teria uma economia de apenas a décima parte da norte-americana, foram as escolhas ao longo desse intervalo que definiram tal descompasso.

Burocracia importada

Mesmo falida, a corte que aportou no Brasil era vasta. Entre 10 mil e 15 mil portugueses singraram o Atlântico em quase 50 navios — quando os EUA transferiram sua capital da Filadélfia para Washington, apenas oito anos antes, o total de funcionários não superava 1 mil. Além da família real, vieram 276 fidalgos, 2 mil funcionários reais, 700 padres, 500 advogados, 200 praticantes da medicina e 5 mil militares.

Gastos públicos

A simples transferência do rei e de 15 mil funcionários redirecionou os gastos públicos. Em 1808 foram instalados no Rio os ministérios, os conselhos de Estado, Militar e da Fazenda, tribunais superiores, academias militar e da marinha e a biblioteca. Se antes da vinda da Coroa boa parte dos recursos para financiar tal estrutura seguiam do Brasil para Portugal, agora o dinheiro circulava na colônia.

Novos nobres

A distribuição de títulos de nobreza e comendas e as oportunidades que as honrarias abriam no serviço público foram as primeiras formas de arrecadação. Ao chegar ao Brasil Dom João outorgou mais títulos que Portugal concedera desde sua independência, no século 12. Como observou o historiador Pedro Calmon, “em Portugal, para fazer-se um conde se pediam quinhentos anos; no Brasil, quinhentos contos”.

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