domingo, fevereiro 14, 2010

Cinema e História da Igreja: Comentando O Conclave



Como se faz um papa? Quem ganha e quem perde? Essas são duas perguntas que o filme O Conclave (The Conclave) tenta responder. Fosse nos dias atuais, acredito que o filme seria um tanto inócuo, mas em um dos momentos cruciais da História da Igreja Católica (*Afinal, a Reforma Protestante teve bons motivos para ocorrer*), o confronto entre os cardeais e a luta desesperada para que o jovem Rodrigo Borgia – sim, o futuro papa Alexandre VI – mantenha não somente o seu cargo de Vice-Chanceler da Igreja, como a sua própria vida acaba empolgando bastante.

O filme começa em 1458, com a morte do primeiro Papa Borgia, Calixto III (1455-58), e o duplo drama, a eleição do novo papa, e a sobrevivência política de Rodrigo Borgia, um jovem de 27 anos, chamado com desprezo pelos outros cardeais de “cardeal-sobrinho”. Morto o tio papa, a situação dos sobrinhos fica muito complicada. Como Vice-Chanceler cabia a Rodrigo liderar o Conclave, mas as raposas e outros bichos envolvidos eram muito mais poderosos que ele. Rodrigo é ameaçado e adulado, mas desempenha um papel fundamental na eleição de Pio II, além de garantir não só sua sobrevivência política, mas iniciar um sólido percurso até que ele mesmo se torne papa.

O Conclave não estreou nos cinemas brasileiros, mas pode ser comprado por um preço bem acessível ou alugado em uma locadora. O filme lembra um pouco uma peça filmada. Há ação, violência, algumas locações abertas, mas é dentro do claustrofóbico Conclave que se desenvolve boa parte do filme. Não é um momento muito feliz da História da Igreja Católica e os papas do Renascimento não tem lá muito boa fama, especialmente Alexandre VI, o nosso Rodrigo Borgia. Mas é inegável que ele foi grande diplomata e que sobreviveu politicamente graças a muita astúcia.

Já o encontramos no início do filme nos braços de sua amante mais famosa, Vannozza dei Cattanei (*que não parece bem uma condessa no filme*), pouco interessado na pol[itica da Igreja, e uma figura bem diferente dos cardeais de nossos dias. Aliás, com a morte do tio ele não é tratado como cardeal “de verdade” pelos outros cardeais e sua vida parece estar por um fio. A poderosa família Orsini só espera o momento para matá-lo, como faz com seu irmão. O ator espanhol Manu Fullola defende bem o seu Rodrigo e eu até fico com pena dele, especialmente quando se confronta e é quase engolido pelos cardeais Guillaume D'Estouteville (James Faulkner), Aeneas Sylvius Piccolomini (Brian Blessed) e Latino Orsini (Peter Guinness)

Dito isso, o legal do filme são os diálogos. Ameaças de morte explícitas, compra de voto, chantagens, falsas promessas, rola de tudo. Os cardeais são capazes de qualquer coisa, especialmente o francês Guillaume D'Estouteville, que quase foi papa, que praticamente diz “vote em mim ou...” e balança o poder do Rei da França e tudo mais que pode sacar da manga. Para cooptar os votos dos dois cardeais “gregos” promete até uma cruzada para livrar Constantinopla recém conquistada pelos turcos.

No confronto, Piccolomini parece o melhor candidato, ou um homem melhor, ainda que D'Estouteville lhe atire no rosto que ele não é nobre e seja pouco refinado. E o pobre Borgia no meio, pressionado a conseguir o voto dos cardeais espanhóis para os franceses ou... Pois é, dá pena dele, e olha que o sujeito já não era boa coisa com seus vinte e poucos aninhos. Mas a cada nova eleição sem resultado definitivo a tensão vai crescendo, até a seqüência final angustiante.

Eu recomendo o filme por compor bem o quadro histórico, pelos diálogos, pelo clima claustrofóbico, e pelo duelo de grandes atores. Destaque para o final, o confronto entre D'Estouteville e Piccolomini e a vitória do último, pois depois de tanta maquinação e eleições infrutíferas a gente respira aliviada e Rodrigo Borgia, também, pois mudou de lado na hora certa e definiu o Conclave. Tá aí um filme que eu poderia passar para a minha turma de História da Igreja II.

domingo, fevereiro 07, 2010

Grécia reconstruída



Essa matéria saiu no Correio Braziliense de hoje. Clique aqui para baixar o infográfico.


Grécia reconstruída

Laboratório da USP se dedica a entender o funcionamento da sociedade grega antiga a partir do estudo das construções presentes nas cidades

Gisela Cabral

Como os espaços presentes em uma cidade podem auxiliar na compreensão da sociedade? A partir de estudos sobre o ambiente construído, os especialistas têm conseguido decifrar sistemas políticos, econômicos e culturais de povos que viveram há séculos e até encontrar respostas que nem sempre condizem com os registros feitos ao longo dos anos. Um grupo de pesquisadores do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), da Universidade de São Paulo (USP), tem se dedicado ao estudo do ambiente construído das cidades gregas dos períodos arcaico, clássico e helenístico. Uma quantidade considerável de pesquisas e textos publicados, aliada ao suporte financeiro de instituições de apoio à ciência, foram o ponto de partida para a criação do Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga (Labeca).

As linhas de pesquisas que norteiam o trabalho de 32 pesquisadores — entre estudantes (iniciação científica, mestrado e doutorado), professores e técnicos — vão desde a formação da pólis (cidade antiga), passam pela religião, economia, identidade, até o planejamento urbano. “Estudamos, por exemplo, o espaço que os gregos dedicavam aos deuses naquele período. Como ele era organizado, seja no centro urbano, dentro das casas, e o que isso significava em relação à religiosidade do grego”, explica a responsável pelo laboratório, Maria Beatriz Florenzano, professora titular do MAE.

Desde que foi oficialmente criado, em 2006, o Labeca passou a ser uma fonte de pesquisa para especialistas da área e professores de faculdades, de cursos preparatórios e dos ensinos médio e fundamental. Segundo a especialista, a ida de parte dos pesquisadores à Grécia e a regiões da Itália que na antiguidade estavam sob domínio grego ajudou no desenvolvimento dos estudos e até serviu para questionar algumas teorias e mitos enfatizados atualmente (veja quadro). “Os textos mais antigos, por exemplo, mostram uma mulher sem espaço na sociedade grega. Acreditam que somente o homem era cidadão, porque tinha o poder do voto. Porém, percebemos a preponderância que ela tinha no controle da casa, a maneira como a imagem dela aparece nos cemitérios”, diz.

Conforme a pesquisadora, a intenção do Labeca é mostrar que a contribuição da sociedade grega para o mundo vai além da visão política, tão enfatizada nos livros de história. “O espaço dirigido aos escravos também nos trouxe algumas conclusões. Em Atenas, vimos que eles exerciam posições de comando em muitos aspectos”, afirma. Outra importante linha de pesquisa diz respeito à relação entre o espaço e a economia. “O intuito é saber se aquele ambiente era especializado ou não, se as atividades comerciais eram distribuídas igualmente por todo o terreno, ou especializada em algum ponto, o que mostra uma certa sofisticação”, analisa.

Acervo

Um projeto temático apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) foi o grande incentivo para que o laboratório passasse a ter uma estrutura maior. Segundo Maria Beatriz, o auxílio possibilitou a compra de equipamentos de última geração, como computadores usados para edição de imagens, e a contratação de sete pesquisadores bolsistas. Além disso, os cientistas também receberam recursos para a realização de viagens ao exterior, para recolher material de pesquisa e adquirir bibliografia específica.

A pesquisadora Ana Paula Tauhyl, 25 anos, está no Labeca desde 2005, período no qual ingressou como estagiária do curso de história na USP. Atualmente, ela possui uma bolsa de treinamento técnico e desenvolve um trabalho que consiste no tratamento de imagens e tradução das legendas dos mapas e plantas para o português. “Desde a época da faculdade, me interessava bastante pelo assunto, pois no meu entendimento, a nossa civilização deve muito aos gregos. Aqui no Labeca, posso contribuir para a pesquisa de outras pessoas, já que o laboratório tem sido bastante procurado”, enfatiza a pesquisadora e integrante de uma das expedições às cidades gregas.

O acervo do Labeca é composto atualmente por 17 horas de filmagem e cerca de 4 mil fotografias feitas em campo. Além do banco de dados e da grande quantidade de textos, o local acaba de lançar um DVD que reúne informações sobre Siracusa, a cidade antiga grega que hoje está situada na região da Sicília, na Itália. “Ela foi fundada no século 8 a.C., passou pelos gregos, romanos, normandos e bizantinos, e hoje vive em torno dessas memórias”, destaca Maria Beatriz.

De acordo com ela, um teatro grego da antiguidade existe até hoje na cidade e foi incorporado à cultura contemporânea, com a apresentação de danças, shows, entre outras manifestações. “Porém, há o outro lado. Conhecemos uma senhora que planta uvas para a produção de vinho na região. Em algumas ocasiões, ela passava o arado na plantação e esbarrava em objetos bizantinos ou romanos. Percebemos então que há um choque de interesses: a necessidade de sobrevivência e a preservação do patrimônio”, destaca.

Um segundo DVD deve ser lançado até o fim do mês. O objetivo do material é mostrar trechos longos de uma peça encenada no teatro de Siracusa. “No DVD, também serão reproduzidas imagens de outros teatros da Grécia, de forma a posicioná-los como atividades culturais e religiosas da Grécia Antiga. A intenção é colocar os materiais do laboratório à disposição do grande público”, finaliza.

terça-feira, novembro 24, 2009

16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres



Trata-se de uma campanha anual, porque a violência contra as mulheres é algo tão corrente (*exemplo: Evangélico espanca filha adulta (e esposa) porque ela fazia chapinha no cabelo*), tão absurdo (*vide o caso UNIBAN*) e tão aceito socialmente, que é necessário repetir e repetir que nós não somos cidadas de segunda classe e que não podemos aceitar ou nos calar. Na página da Campanha é possível obter informações atualizadas. Ela começou oficialmente no dia 20 de novembro até o dia 10 de dezembro. O video aí em cima está ligado à campanha. É apra chocar mesmo, porque esse tipo de coisa não pode continuar acontecendo.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Concurso "Tecnologias Sim"



O concurso "Tecnologia Sim" premiará grupos de adolescentes (12 a 18 anos) que produzam vídeos sobre soluções de como navegar com segurança na Internet. Não é preciso um professor responsável, mas um adulto pode auxiliar o grupo como 'facilitador". Segundo a página do concurso, é possível inscrever mais de um vídeo por grupo e cada equipe deve ter um mínimo de 2 e um máximo de 4 pessoas. Acho uma idéia ótima. As inscrições são até o dia 15 de novembro. A página oficial do evento é esta aqui.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Moedas perdidas revelam queda populacional na Roma antiga



A matéria abaixo foi publicada na Folha de São Paulo de hoje. Como é interessante, e está aberta somente para assinantes, decidi postar aqui.

Moedas perdidas revelam queda populacional na Roma antiga
Tesouro era enterrado durante guerras, o que dá pista sobre despovoamento


RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL


Estudando a distribuição, ao longo do tempo, de moedas romanas escondidas durante períodos de conflito interno, dois pesquisadores nos EUA concluíram que houve um declínio da população da Itália durante o século 1º a.C., resolvendo uma questão há muito debatida.

"Em tempos de violência as pessoas tendem a esconder seus objetos de valor, que são depois recuperados – a menos que seus donos tenham morrido ou sido expulsos. Assim, a distribuição temporal de moedas escondidas é uma excelente pista da intensidade de guerra interna", escreveram os autores em artigo na revista científica americana "PNAS".

Os dois são de áreas diferentes do conhecimento e, no caso, complementares. Peter Turchin é do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Connecticut e Walter Scheidel é do Departamento de Estudos Clássicos da Universidade Stanford.

"Os tesouros escondidos tinham desde três a quatro moedas até algumas dezenas de milhares. Cem denários equivaliam à metade do salário anual de um soldado", disse Turchin à Folha. O "denarius" (plural: "denarii") era uma moeda de prata com cerca de quatro gramas de peso. A palavra está na origem da palavra "dinheiro".

Perdendo o censo

Os romanos, tanto no período republicano (do século 5º a.C ao século 1º a. C.) quanto no Império que o seguiu, realizavam censos de seus cidadãos, necessários para fins de taxação, recrutamento militar e direito de voto em assembléias. Contavam-se apenas os homens adultos. Os números registrados passaram de cerca de 200 mil para perto de 400 mil entre a metade do século 3º a.C. e o final do século 2º a.C.

Com a extensão da cidadania romana ao resto da Itália depois da chamada Guerra Social (91-89 a.C. ), os números praticamente triplicaram. Três censos feitos pelo imperador Augusto em 28 a.C., 8 a.C. e 14 d.C. mostram um número de 4 milhões passando para 5 milhões. Mesmo levando em conta a extensão da cidadania, os números não batem. Falta explicar como a população de romanos teria aumentado até três vezes no século anterior ao primeiro censo de Augusto. É que todo esse período foi marcado por três grandes guerras civis, sem falar em conflitos menores, doenças e fome.

A solução de uma corrente de pesquisadores foi concluir que os censos de Augusto passaram a incluir também mulheres e menores. É a chamada hipótese de "contagem baixa". Mas as fontes históricas não fazem menção a contagens diferentes. Outra corrente, a da "contagem alta", assume que não houve mudança na identidade das pessoas recenseadas. Ela se baseia na crença de que os censos republicanos se tornaram cada vez mais imprecisos, e portanto exagerariam a escala de aumento populacional. O problema é que isso resultaria em uma população total que iria de 15 milhões a 20 milhões. Seria alta demais para a época romana, pois só na metade do século 19 é que a Itália atingiu essa cifra.

O modelo criado pelos dois pesquisadores, adicionando os tesouros de moedas como uma variável ao longo do tempo, demonstrou ser mais compatível com a "contagem baixa".