domingo, outubro 16, 2011

Cinema & História: Alexandria (Agora)



Já assisti Ágora tantas vezes que é uma vergonha não ter resenhado ainda, eu até tinha feito um post quando soube do filme, tinha ficado super contente, e esperei ansiosamente por ele nos cinemas. A estréia nunca aconteceu. Assisti Ágora ou Alexandria a primeira vez sozinha em casa, depois que desisti de esperar que estreasse nos cinemas brasileiros (*vergonha terem mandado um filme tão bom direto para DVD*), já exibi para duas turmas da faculdade e para o terceiro ano no Colégio Militar, já revi pedaços que acho mais interessantes. Na verdade, Ágora é um filme que entrou na lista dos meus favoritos, mesmo com vários problemas históricos, mesmo com várias críticas, considero o filme excelente. Aliás, a película de Alejandro Amenábar é o melhor filme querem conheço para discutir história da ciência, afinal, as limitações impostas por dogmas não são um problema somente no campo religioso.

Para quem não conhece a história do filme, ele começa em Alexandria do Egito, a segunda cidade mais populosa do Império Romano, no fim do século IV, quando Teodósio I transforma o cristianismo em religião oficial do Estado. Hyphatia, filósofa, matemática, astrônoma e médica (*embora o filme não comente isso*), vivia e ensinava na prestigiosa escola da cidade. É através dos olhos de Hyphatia e de seu escravo Davos que assistimos a ruína do que tinha sobrado da velha ordem pagã, que luta para não morrer, e o nascimento de um mundo cristão cada vez mais intolerante. Davos é apaixonado pela filósofa, assim como Orestes, seu aluno e futuro prefeito da cidade. Depois da trágica destruição da escola de filosofia, o filme dá um salto no tempo e nos coloca em uma Alexandria cristã, nela Davos se tornou membro de um grupo de fanáticos cristãos, os parabolani, que estão a serviço do bispo, Cirilo, que quer ser o maior poder e autoridade da cidade, e para isso, precisa derrotar o prefeito. A forma mais direta é roubar dele a pessoa que mais ama, sua amiga e antiga mestra Hyphatia. O final do filme, claro, é trágico...

Como é baseado em uma história real, não é spoiler dizer que Hyphatia morre no final do filme. Ela é considerada por muitos a primeira mártir pagã e uma das temáticas chave do filme é a intolerância religiosa que destrói viras e o trabalho científico da protagonista. Primeiro, a intolerância de pagãos contra cristãos, quando esses já se tornavam uma força, depois, dos últimos contra quem quer que não aderisse a sua fé. A expulsão dos judeus ilustra bem a questão. O filme também mostra como o Império – especialmente no Ocidente e Norte da África – vai enfraquecendo e as lideranças religiosas, como o Bispo Cirilo, tentam usurpar o poder civil. É aí que se dá o embate com o prefeito e a trágica morte da protagonista.

Os três protagonistas do filme estão muito bem. Rachel Weiz é uma Hyphatia que oscila entre o brilhantismo e o abatimento diante do desafio de entender as órbitas dos planetas e seu movimento com tantos dogmas filosóficos e científicos a atrapalhá-la. Ela também é bela – e não envelhece, como virou regra nos filmes e novelas – e tem atitude, coragem e humanidade. Mas o bom do filme é que não a livraram dos preconceitos da época, vide sua relação com Davos. Só me decepciona o final, mas eu falo disso mais tarde. O Orestes de Oscar Isaac faz o melhor papel masculino do filme para mim. A interação dele com Hyphatia, a paixão que ele transmite no olhar, o desespero do final... E a cena em que ele acha que Hyphatia vai dizer que queria poder amá-lo e descobre que ela está falando de seus planetas é ótima. Adoro a expressão dele. Na verdade, acho o Oscar Isaac lindo no filme, ele fica perfeito de toga. E há o Davos de Max Minghella, uma personagem cheia de nuances. Sua inteligência negligenciada e desprezada por ser escravo, sua angústia, a paixão não correspondida por sua senhora, a conversão e a adesão ao fanatismo cristão, ele desce ao inferno, literalmente. Meus alunos e alunas no Colégio Militar torciam por ele, a empatia com seu drama foi imediata. Queriam que ele terminasse com Hyphatia. Tadinhos! Não conheciam a história ...

A seqüência da destruição da Academia e da Biblioteca é muito emocionante, dramática e bem dirigida. A câmera vira de ponta à cabeça na cena em que livros e objetos de estudo são destruídos, mostrando que o mundo todo está enlouquecido. Aquele mundo, pelo menos... A analogia entre as massas intolerantes e formigas que vão de lá para cá também é muito bem feita. A fotografia e o figurino – simples e elegante – são trunfos do filme que foi o mais caro feito na Espanha até então. E o elenco é multirracial, nada de atores e atrizes brancos preenchendo todos os papéis. Temos a diversidade étnica do Império Romano e do Egito na tela. Isso é positivo, já que o branqueamento parece ser quase a regra para a maioria dos filmes. Ágora, no entanto, não preenche a Bechdel Rule. Hyphatia é uma personagem solitária, a mulher filósofa incompamas poderiam ter colocado pelo menos outra personagem feminina. Todas as mulheres fora Hyphatia são figurantes sem falas. O positivo da composição do elenco não é contrabalançada com uma um maior número de personagens femininas, mesmo que fosse somente para que Hyphatia brilhasse ainda mais.

E chegamos às coisas que me incomodam. Sinesius, um dos discípulos de Hyphatia, era cristão (no filme, desde a juventude, na vida real, não) e tornou-se bispo. Trata-se de uma personagem histórica. Quando entramos na reta final do filme, ele assume um tom anti-cristão e nem falo só da questão da destruição da biblioteca já que ninguém sabe verdadeiramente quem e quando foi destruída, se de uma vez ou em partes. Sinesius nunca traiu Hyphatia, na verdade, ele já estava morto quando de seu assassinato. Suas últimas cenas são uma difamação. Ora, poderiam ter criado uma personagem para cumprir essa função, não precisavam infamar uma personagem histórica. Outro problema é o prefeito. O original enfrentou o bispo e dizia com orgulho que tinha sido batizado pelo patriarca de Constantinopla, que estava acima do líder eclesiástico de Alexandria. No filme, Orestes é cristão de conveniência; até aí, OK, muitos eram, mas a forma como a personagem é massacrada no final é outra traição, uma forma de ilustrar, talvez, o quanto os cristãos eram visar... Ele também abandona Hyphatia ao ser reduzido à impotência por Cirilo e Sinesius. Eu odiei aquilo, pois o prefeito nunca traiu a amiga. E Hyphatia se entrega para morrer, afinal, seu mundo tinha sido destruído... Em nenhuma das fontes ela se entregou para ser massacrada. Ela foi arrastada, ela lutou... Apresentá-la como um animal indo para o sacrifício pode ter um efeito dramático (*uma aluna chorou copiosamente no final do filme*), mas não é fiel à personagem, que, provavelmente, era uma mulher de grande coragem, dignidade e já idosa quando destroçada pela turba de cristãos.

Mas, ainda que com essas ressalvas – e outras mais – eu amo Ágora. Aprendi muita coisa com o filme. Por exemplo, não sabia quem eram os temíveis parabolani. E é um material ótimo para se discutir história da ciência. Eu sinto a angústia de Hyphatia, lamento que ela não tivesse condições de deduzir a existência da gravidade, é desesperador o peso dos dogmas que se travestem de ciência ou a apatia. Tudo isso foi muito bem colocado em Ágora. Hyphatia no filme é uma sonhadora em tempos sombrios, tempos de fanatismos, tempos em que para ser um espírito prático como Orestes é preciso renunciar à imaginação. Enfim, recomendo muito este filme, muito, muito mesmo! Não se trata de um filme feminista, não vejo Hyphatia como uma defensora das liberdades femininas. Ela queria viver para a sua ciência em uma Alexandria cada vez mais obtusa e dominada por outras questões, como as cizânias religiosas. Triste o mundo em que as pessoas competem entre si para saber quem é o mais fanático... Esse é o caso da Alexandria do filme e, infelizmente, do nosso mundo de hoje.

quarta-feira, agosto 17, 2011

A Divina Comédia ganha duas edições em quadrinhos



O Correio Braziliense noticiou hoje que será lançada no Brasil uma edição bilíngüe da Divina Comédia de Dante Alighieri (1265-1321), com ilustrações e um trabalho de tradução e composição que levou 25 anos para ficar pronto. Além do livro, que narra a jornada do poeta pelo Inferno, Purgatório e Céu, teremos duas edições em quadrinhos chegando às nossas livrarias:
Na estante das graphic novels, a poesia de Alighieri chega em duas adaptações. O norte-americano Seymour Chwast interpreta a matriz sem medo de parecer infiel. Em A Divina comédia de Dante (Companhia das Letras), o herói é um detetive, com cachimbo e casacos escuros, em busca da verdade: ar retrô — lembrando a ficção americana dos anos 1940 e 1950 —, humor afiado, mas coerente com os detalhes descritos pelo intelectual italiano.

Criação conjunta de pai (Giuseppe Bagnariol), roteirista, e filho (Piero), quadrinista, A Divina comédia em quadrinhos (Peirópolis) tem uma postura menos pop e procura conservar e condensar características do original. A HQ é mais um título que leva para os quadrinhos criações literárias consagradas, como Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Os Lusíadas, de Luís de Camões.

Espero que essas edições valham a pena. Eu devo dar uma olhada e, quem sabe comprar as três. ^__^

sexta-feira, julho 01, 2011

Palestra sobre a "Primavera Árabe"



Como prometi, aqui está o link para baixar a palestra sobre a Primavera Árabe feita no Colégio Militar de Brasília no dia 29/06. Oa países abordados são Tunísia, Egito, Líbia e Síria. Para baixar, clique aqui.

domingo, junho 19, 2011

Aulas de História para Download - 2º Bimestre



Estava em débito com meus alunos e alunas do Colégio Militar de Brasília, pois eu deveria colocar as aulas que usamos no multi-mídia para que fizessem download. Enfim, agora estão aqui as aulas do segundo bimestre. Só explicando, eu não carreguei uma a uma, simplesmente coloquei o pacote completo. Há aulas que estão repetidas em *.pps, são as que converti e reformei, ou seja, a minha versão da aula e, não, as do Prof. Vicente, embora ele tenha sido o responsável por boa parte do material. As aulas estão no 4Shared, logo, vai abrir outra página e você precisa clicar em download e aguardar alguns minutos. O Prof. Vicente não se importa com o uso amplo do material, eu, no entanto, peço que se faça o crédito da origem. Para baixar: História do Brasil - História Geral. O conteúdo é do 3º ano do Ensino Médio.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Pesquisadores colocarão toda a obra de Chiquinha Gonzaga em um site



Essa notícia veio do site do Correio Braziliense e é uma boa notícia para os estudiosos da música popular brasileira e para os admiradores de Chiquinha Gonzaga.

Pesquisadores colocarão toda a obra de Chiquinha Gonzaga em um site

Pianistas Wandrei Braga e Alexandre Dias, pesquisadores da compositora Chiquinha Gonzaga. Autores e diretores veem a chance de emplacar novidades musicais em suas produções.

Wandrei Braga é rigoroso. Para ele, da extensa obra de Chiquinha Gonzaga, algo em torno de 2 mil composições, o grande público só conhece quatro: a valsa Lua branca, a marcha rancho Abre alas, a polca Atraente e o tango brasileiro Corta jaca, depois transformado em choro. A preferida do pesquisador e pianista, porém, é a nada notória Balada romântica, que faz parte do repertório da opereta A corte na roça.

A musicista e pianeira, considerada um dos pilares da identidade musical brasileira, possibilitou a Wandrei, designer paulista residente em Brasília há 11 anos, e a Alexandre Dias, professor de piano brasiliense, serem selecionados no edital nacional 2010 do programa Natura Musical, na categoria fomento à musica, entre mais de 800 inscritos. Eles concorreram com o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, que vai disponibilizar em um site músicas e partituras pouco conhecidas da primeira maestrina brasileira.

"Diferentemente de sua história biográfica - apresentada em livro escrito por Edinha Diniz e contada na minissérie escrita por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes -, mais de 95% da obra de Chiquinha Gonzaga ainda se encontram desconhecidos e inacessíveis, deixando uma lacuna misteriosa nesta parte da história sobre o nascimento da identidade musical brasileira", afirma Wandrei.

Fã de Chiquinha, o pesquisador buscou aprofundar seu conhecimento sobre a artista em 1999, ao ter a atenção despertada pela exibição da minissérie da TV Globo. "Até então, eu conhecia muito pouco sobre Chiquinha. Imediatamente pensei em criar um site, no qual pudesse, a partir de pesquisa, informar às pessoas sobre a importância dela para a música brasileira", conta.

Nessa tarefa, Wandrei teve o apoio de Alexandre Dias, a quem conheceu num recital da pianista Maria Teresa Madeira, no Clube do Choro de Brasília. "O site ChiquinhaGonzaga.com faz parte dessa história. Há mais de 11 anos no ar, divulga informações sobre a maestrina e coleciona admiradores e parceiros pelo Brasil e pelo mundo", comemora.

Inspiração

A ideia do acervo tem menos tempo. Em 2009, a pianista pioneira Neusa França, encantada com o repertório pouco conhecido da compositora, organizou na Embaixada de Portugal um recital chamado Saudades de Chiquinha Gonzaga, com a participação de 20 pianistas, entre eles Wandrei e Alexandre. De certa forma, esse recital foi fonte de inspiração para que os parceiros dessem início à concretização de um sonho: a elaboração e a articulação de um projeto para recuperar a obra de Chiquinha.

Consequência dessa história, o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga foi aprovado pelo Natura Musical 2010, entre 860 projetos apresentados. "Para essa conquista, tiveram importância fundamental a parceria do Instituto Moreira Salles (mantenedor do acervo de Chiquinha Gonzaga), a biógrafa Edinha Diniz, o portal Musica Brasilis (realizador de projeto semelhante com a obra de Ernesto Nazareth) e a Escola Portátil de Música (especializada no ensino de choro)", ressalta Wandrei.

Além de Wandrei Braga (coordenador, pesquisador, designer) e Alexandre Dias (coordenador, pesquisador e revisor), fazem parte da equipe responsável pelo projeto do acervo, a gerente Ana Carolina Pereira (Integrar Produções Culturais e Eventos), a designer Cíntia Coelho e o músico especialista em digitação musical Douglas Passoni. O lançamento está previsto para outubro, com a apresentação de recitais de piano em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e oficinas musicais na Escola Portátil, no Rio, dedicadas à obra da homenageada, sob a coordenação dos músicos Maurício Carrilho e Luciana Rabello, diretores da entidade.

Três perguntas - Wandrei Braga

A minissérie exibida na tevê foi fiel à história de Chiquinha Gonzaga?
O que os autores da minissérie fizeram não foi um documentário e sim uma história romanceada. De qualquer forma, ela foi importante para a popularização do legado da maestrina.

Qual é a avaliação que você faz da biografia de Chiquinha, escrita por Edinha Diniz? É um documento histórico valioso, pois além de contar a história de Chiquinha, contextualiza, com riqueza de detalhes, a época em que ela viveu.

Há algo a destacar no projeto do acervo?
Posso citar a história de um broche que Chiquinha aparece usando em fotos. Esse broche, que ganhou de amigos, se perdeu, mas com Edinha (Diniz), saí à procura do enfeite e o descobrimos. Ele havia sido vendido pela filha da folclorista Marisa Lira, primeira biógrafa da maestrina, ao Museu da República (antigo Palácio do Catete), no Rio de Janeiro.