quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Pesquisadores colocarão toda a obra de Chiquinha Gonzaga em um site



Essa notícia veio do site do Correio Braziliense e é uma boa notícia para os estudiosos da música popular brasileira e para os admiradores de Chiquinha Gonzaga.

Pesquisadores colocarão toda a obra de Chiquinha Gonzaga em um site

Pianistas Wandrei Braga e Alexandre Dias, pesquisadores da compositora Chiquinha Gonzaga. Autores e diretores veem a chance de emplacar novidades musicais em suas produções.

Wandrei Braga é rigoroso. Para ele, da extensa obra de Chiquinha Gonzaga, algo em torno de 2 mil composições, o grande público só conhece quatro: a valsa Lua branca, a marcha rancho Abre alas, a polca Atraente e o tango brasileiro Corta jaca, depois transformado em choro. A preferida do pesquisador e pianista, porém, é a nada notória Balada romântica, que faz parte do repertório da opereta A corte na roça.

A musicista e pianeira, considerada um dos pilares da identidade musical brasileira, possibilitou a Wandrei, designer paulista residente em Brasília há 11 anos, e a Alexandre Dias, professor de piano brasiliense, serem selecionados no edital nacional 2010 do programa Natura Musical, na categoria fomento à musica, entre mais de 800 inscritos. Eles concorreram com o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, que vai disponibilizar em um site músicas e partituras pouco conhecidas da primeira maestrina brasileira.

"Diferentemente de sua história biográfica - apresentada em livro escrito por Edinha Diniz e contada na minissérie escrita por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes -, mais de 95% da obra de Chiquinha Gonzaga ainda se encontram desconhecidos e inacessíveis, deixando uma lacuna misteriosa nesta parte da história sobre o nascimento da identidade musical brasileira", afirma Wandrei.

Fã de Chiquinha, o pesquisador buscou aprofundar seu conhecimento sobre a artista em 1999, ao ter a atenção despertada pela exibição da minissérie da TV Globo. "Até então, eu conhecia muito pouco sobre Chiquinha. Imediatamente pensei em criar um site, no qual pudesse, a partir de pesquisa, informar às pessoas sobre a importância dela para a música brasileira", conta.

Nessa tarefa, Wandrei teve o apoio de Alexandre Dias, a quem conheceu num recital da pianista Maria Teresa Madeira, no Clube do Choro de Brasília. "O site ChiquinhaGonzaga.com faz parte dessa história. Há mais de 11 anos no ar, divulga informações sobre a maestrina e coleciona admiradores e parceiros pelo Brasil e pelo mundo", comemora.

Inspiração

A ideia do acervo tem menos tempo. Em 2009, a pianista pioneira Neusa França, encantada com o repertório pouco conhecido da compositora, organizou na Embaixada de Portugal um recital chamado Saudades de Chiquinha Gonzaga, com a participação de 20 pianistas, entre eles Wandrei e Alexandre. De certa forma, esse recital foi fonte de inspiração para que os parceiros dessem início à concretização de um sonho: a elaboração e a articulação de um projeto para recuperar a obra de Chiquinha.

Consequência dessa história, o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga foi aprovado pelo Natura Musical 2010, entre 860 projetos apresentados. "Para essa conquista, tiveram importância fundamental a parceria do Instituto Moreira Salles (mantenedor do acervo de Chiquinha Gonzaga), a biógrafa Edinha Diniz, o portal Musica Brasilis (realizador de projeto semelhante com a obra de Ernesto Nazareth) e a Escola Portátil de Música (especializada no ensino de choro)", ressalta Wandrei.

Além de Wandrei Braga (coordenador, pesquisador, designer) e Alexandre Dias (coordenador, pesquisador e revisor), fazem parte da equipe responsável pelo projeto do acervo, a gerente Ana Carolina Pereira (Integrar Produções Culturais e Eventos), a designer Cíntia Coelho e o músico especialista em digitação musical Douglas Passoni. O lançamento está previsto para outubro, com a apresentação de recitais de piano em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e oficinas musicais na Escola Portátil, no Rio, dedicadas à obra da homenageada, sob a coordenação dos músicos Maurício Carrilho e Luciana Rabello, diretores da entidade.

Três perguntas - Wandrei Braga

A minissérie exibida na tevê foi fiel à história de Chiquinha Gonzaga?
O que os autores da minissérie fizeram não foi um documentário e sim uma história romanceada. De qualquer forma, ela foi importante para a popularização do legado da maestrina.

Qual é a avaliação que você faz da biografia de Chiquinha, escrita por Edinha Diniz? É um documento histórico valioso, pois além de contar a história de Chiquinha, contextualiza, com riqueza de detalhes, a época em que ela viveu.

Há algo a destacar no projeto do acervo?
Posso citar a história de um broche que Chiquinha aparece usando em fotos. Esse broche, que ganhou de amigos, se perdeu, mas com Edinha (Diniz), saí à procura do enfeite e o descobrimos. Ele havia sido vendido pela filha da folclorista Marisa Lira, primeira biógrafa da maestrina, ao Museu da República (antigo Palácio do Catete), no Rio de Janeiro.

sábado, janeiro 08, 2011

Comentando Os Últimos Dias dos Romanov



O primeiro livro completo que li este ano foi “Os Últimos Dias dos Romanov”, de Helen Rappaport. Então decidi comentar algumas coisinhas. O nome original do livro é Ekaterinburg. Ecaterinburgo foi a prisão final da família do Czar e lugar da execução de onze pessoas e um cachorro: Nicolau II; a czarina Alexandra; suas filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia; seu filho, Alexei; a governanta, o médico, dois criados, e uma cadelinha (*eram três cachorros, um desapareceu, e outro terminou seus dias na Inglaterra*). Na página da Livraria Cultura há uma sinopse do livro:
A execução em julho de 1918 dos Romanov - a família do último czar da Rússia, Nicolau II - é cercada de mitos e histórias macabras. Especialista em história russa, Helen Rappaport teve acesso aos depoimentos de várias testemunhas-chave. Ela revela o papel de Lenin na execução e mostra também como os Romanov e seus carcereiros desenvolveram uma relação complexa.
Minha primeira observação sobre o material é editorial. O livro parece ter sido feito às pressas, assim, em vários momentos há letras faltando e erros de digitação. Além disso, há repetições de palavras muito próximas, que acabam empobrecendo o texto em alguns momentos. Outro problema, este mais grave, é a ligeira sensação de que certas partes não foram traduzidas adequadamente. Em dois lugares, mesmo sem ter lido o original, eu tenho certeza absoluta. Fora, claro, palavras em russo, aqui e ali, sem uma notinha sequer. Eu não leio russo, e a maioria das palavras eram desconhecidas para mim. Esse tipo de trabalho capenga, em um livro relativamente caro (*ou em qualquer livro*), pesam muito contra a editora.

Quanto ao valor histórico do material, ele é relativo. Acredito que, apesar do esforço enorme da autora em ir até os arquivos e fontes produzidas o mais próximo possível da chacina (*porque foi exatamente isso que aconteceu ali*), há muito mais especulação do que eu admitiria em uma obra historiográfica. Imaginar o que fulano ou ciclano poderiam estar pensando ou sentindo sem ter uma fonte que sirva de evidência (*ela cita trechos de memórias dos assassinos entre aspas, assim como trechos de cartas e diários*) é coisa de romancista. E não pense que eu estou desqualificando o romance, até porque as fronteiras entre história e ficção são de fato muito tênues.

Três coisinhas me irritam muito no livro. A primeira é a complacência com que a autora trata Nicolau II. A todo momento ela parece relevar o fato dele ter sido um governante fraco, medíocre e responsável – já que seu governo era autocrático – por milhares de mortes e muito sofrimento. Em nenhum momento ela usa para ele o termo “assassino” ou “bandido” que é fartamente distribuído para os bolcheviques. Eis o segundo incômodo. Os bolcheviques cometeram barbaridades – e o assassinato de toda a família e criados é uma delas, só que em nível micro – mas os Romanov e seu último Czar não ficaram atrás de forma alguma. Ela volta no tempo várias vezes, mas não se dá ao trabalho de descrever as atrocidades do regime czarista, como faz, por exemplo, com as neuroses e interferências da czarina ou "o banditismo" dos bolcheviques. É preciso ser justa, e isso a autora, ainda que tente fugir da hagiografia, não consegue ser. É visível que ela não gosta dos bolcheviques, e isso é direito dela, mas ao descrever os últimos dias e mesclar com fatos passados, ela deveria ter equilibrado melhor as coisas.

O meu último grande incômodo é a forma como ela tenta jogar boa parte da culpa da desgraça da família em Alexandra, compondo uma imagem desagradável da czarina. E, nesse ponto, as informações, mesmo cronológicas, não são precisas, o que é um pecado em um livro descritivo. E, pior, sobrou até para a pobre Vitória da Prússia, a filha mais velha da rainha Vitória. Alice de Hesse (*Alix era seu apelido e, depois de casada e convertida ao Catolicismo Ortodoxo, tornou-se Alexandra*) era neta da Rainha Vitória (*Vicky*), que supervisionou sua educação já que ela ficou órfã muito cedo. Fora isso, a Princesa Vicky tinha muitos problemas para resolver, ela tinha que lidar com Bismarck, só para começo de conversa e a Rainha Vitória estava viúva e com tempo de sobra para se meter na educação das netas na Alemanha.

Hesse poderia não ser grandes coisas, mas era de praxe tanto os reis da Inglaterra (*de origem alemã*), quanto os czares russos buscarem esposas baratas e com poucas capacidades de barganha nesses principados alemães. Daí, ela era uma noiva em potencial e não uma “escolha qualquer”. Uma duquesa muito mais rica teria muito menos chance, pois não pertencia a uma casa reinante. A autora oscila dizendo que Alexandra tinha se tornado russa de corpo e alma (*principalmente alma, porque ela é colocada como uma fanática religiosa*), mas a acusa de ser vista como alemã. Em nenhum momento ela se dá ao trabalho de falar da unificação alemã e da I Guerra de forma didática. Também não explica a pressão violenta sobre a czarina, já que a lei de sucessão russa (*por vingança do filho de Catarina, a Grande*) era semi-sálica, isto é, suas filhas eram as últimas da fila, só poderiam herdar o trono depois que o último dos primos desaparecesse. Isso, por si só, torna o assassinato das meninas ainda mais pavoroso. Mas voltando à Alexandra, ela tinha que dar um herdeiro para a Rússia, foi culpada por produzir quatro meninas e, quando, finalmente, nasce o único filho, ele tem um quadro grave de hemofilia. Naquele momento e dada a gravidade da doença, o menino tinha pouca expectativa de vida e, claro, todos sabiam que a culpa era da mãe.

Ela se tornou presa fácil do fanatismo religioso, das dores imaginárias (*que a autora diz que ela cultivava*), e de Rasputin. Aqui, outra falha, mostrar o quanto Rasputin foi daninho. Rappaport cita o monge “louco”, fala dele no capítulo sobre Alexei, mas fica mais tempo falando das mesquinharias e abusos dos bolcheviques, ou especulando sobre emoções e pensamentos. De resto, sentirem pena de Nicolau – ele russo – e culparem Alexandra – a princesa estrangeira, cuja timidez parecia arrogância aos estranhos – é muito fácil. Para mim, é repetição da Revolução Francesa, e os bolcheviques se espelharam nela, Trotsky, muito pouco falado no livro, queria um julgamento público de Nicolau e Alexandra ao estilo que que acontecera na França Revolucionária. Enfim, se Maria Antonieta descarregava suas frustrações na moda, Alexandra tinha como saída o fanatismo religioso (*que a colocou sob a órbita de Rasputin*), ambas tinham maridos pouco competentes, ambas se tornaram alvo do ódio dos seus contemporâneos enquanto seus maridos puderam gozar de alguma simpatia. De comum, ambas mulheres e estrangeiras.

O livro, no entanto, é bem interessante. Ele mostra com precisão como a situação pós-revolução russa era complicada. Apresenta, ainda que de forma superficial, que os bolcheviques foram se apropriando do poder expulsando e eliminando outros grupos (*mencheviques, socialistas revolucionários, anarquistas, etc.*). Mostra que nem todos os que estavam contra os bolcheviques eram burgueses e monarquistas, como a propaganda bolchevique conseguiu enfiar em muitas cabeças. Fala muito dos tchecos, que tomaram Ecaterinburgo pouco depois do massacre, embora não explique bem quem eram eles. A autora também conseguiu apresentar de forma muito completa o Tratado de Brest-Litovsk e como o governo bolchevique vendeu boa parte do país para a Alemanha para conseguir sair da I Guerra. Rappaport foi muito feliz em apresentar a indiferença dos outros monarcas, mesmo parentes, em relação ao futuro dos Romanov, da falta de ação especialmente por parte do Rei da Inglaterra, o que condenou Nicolau e sua família e de como os ingleses tentaram encobrir o fato.

Apesar dos problemas de tradução e da pouca fluência do texto em alguns momentos, foi muito bem apresentada a estratégia, depois que a chacina foi descoberta, em transformar o assassinato em uma conspiração judaica. Ainda que a autora tenha falhado absolutamente em comparar o assassinato dos Romanov ao Holocausto dos judeus. Para ela, que se viu depois na Alemanha Nazista teria sido um aperfeiçoamento do que os bolcheviques fizeram. Menos, por favor! Mas ela foi muito feliz em mostrar que o assassinato dos Romanov, da família inteira, não somente a execução justificada do czar, foi um ato covarde de vingança. Mais covarde ainda, porque o governo bolchevique negou por meses ter executado as meninas e a czarina (*Alexei parece que nunca era citado... talvez, proque sua morte fosse algo certo. Ainda assim, os últimos dias do menino foram horríveis demais.*). E os empregados, claro, foram punidos por sua fidelidade ao antigo regime. Ou seja, se há vergonha, há culpa ou sentimento de culpa. Não havia justificativa legal para o extermínio de todos, inclusive dos criados.

Coisas legais que aprendi com o livro foi que existiram destacamentos de mulheres no exército russo durante a I Guerra, mais precisamente, no final dela, os chamados Batalhões Femininos da Morte. O objetivo desses batalhões, recebidos com muita má vontade pelos generais, era envergonhar os homens que fugiam do front, já que as mulheres tinham mais coragem que eles. Nunca tinha ouvido falar da tenente-coronel Maria Bochkareva, camponesa idealizadora dos batalhões femininos, e da sua ida aos Estados Unidos pedindo ajuda para a Rússia em nome do deposto governo de Kerensky. Na verdade, esses detalhes se perdem em uma aula de História comum, mesmo na faculdade, e muito do que eu estudei na escola e mesmo na universidade foi direcionado por uma complacência em relação a tudo que os bolcheviques tivessem feito ou executado, como se eles tivessem razão, e só houvesse um caminho. Como se toda e qualquer selvageria tivesse sido necessária, naquele esquema do “o fim justifica os meios”. Obviamente, não se trata, também, de construir uma história de mocinhos e vilões, como muitos parecem desejar.

É preciso deixar claro que em História, pelo menos naquela que eu ensino e advogo, nada é inexorável, nada “precisava ser assim”, simplesmente foi assim. Poderia ter sido diferente, e ainda que se tenha simpatias por um lado ou outro, é preciso tentar ser just@ na análise das fontes e dos discursos. Considero a Revolução Russa muito importante, e a queda da monarquia autocrática russa era uma questão de tempo, não porque "era vontade de Deus", mas porque estruturalmente, ela era um fóssil vivo dentro da Europa. O caminho, entretanto, foi escolha dos agentes do processo histórico, das contingências, das suas condições de produção, não execução de algo que estava predestinado. Uma monarquia constitucional ou uma república burguesa ou a fragmentação do território ou a tomada de poder por um grupo de esquerda mais heterogêneo ou uma ditadura ou... As possibilidades eram quase infinitas. De certo, e isso a autora coloca muito bem, havia a impossibilidade do retorno do Czar, pois Nicolau não era opção nem entre os monarquistas. Não se trata, portanto, de estigmatizar os bolcheviques, tampouco de santificar Lênin e jogar as “maldades” nas costas de outros, especialmente Stalin, como virou moda por aí, mas de perceber que foi um momento muito rico. E, claro, que o massacre da família do Czar foi um ato de selvageria. Enfim, nem sei se esta resenha desorganizada é útil, mas precisava comentar o livro, que é válido, sim, embora esteja longe de ser excelente.


P.S.1: Eu queria muito um filme sobre as meninas Romanov. Por conta da propaganda - o czar sabia muito bem o quanto seus filhos eram bonitos - há muitas fotos delas, as meninas de vestidos brancos, e por conta do pessoal que fica colorizando esse material nno Deviantart, aprendi a gostar delas. Nos filmes, Raputin/Nicolau & Alexandra/O Segredo de Anna, nunca colocam meninas realmente bonitas e parecidas com elas para fazerem seus papéis, além, claro, do foco ser Alexei, Alexandra e Nicolau.
P.S.2: A irmã da Czarina, Elizabeth (Ella), também foi assassinada pelos bolcheviques. Seu marido, tio do czar, tinha sido morto no início do século XX, ela inclusive saiu em defesa do assassino pedindo clemência e perdão, depois, se tornou freira e dedicou-se ao trabalho com os necessitados. Com a Revolução foi tirada do convento e mantida presa. Pouco depois do assassinato da família imperial, ela foi arremessada dentro de uma mina, junto com outros membros da família imperial por agentes da Cheka (*o primeiro ensaio da KGB*). Não lhe deram tiro, mas uma pancada na cabeça. Depois atiraram granadas. Ainda assim, ela sobreviveu por algum tempo e quando os Brancos resgataram o seu corpo, ela aind atinha tido a iniciativa de tentar cuidar do ferimento de uma das outras vítimas. Outra morte desnecessária entre tantas.

quinta-feira, novembro 25, 2010

25 de novembro: Dia da Não-Violência contra as Mulheres



A violência de gênero é tão recorrente, tão recorrente, que nunca é demais repetir que ela existe, até porque tem gente que não lembra. Para se ter uma idéia, ontem uma menina de 15 anos foi morta à pancadas pelo pai em São Paulo. Motivo? Estava namorando escondido. Mas o delegado já mostrou para quem vai a simpatia: "Foi uma infelicidade. O pai não queria matar a filha, mas dar um corretivo". Alguém chuta a cabeça de uma pessoa (*mulheres são pessoas, eu acho*) por "infelicidade"? Acho que, não. E não concordo com uma discussão que explodiu no Twitter associando esse tipo de coisa a São Paulo, por conta das últimas explosões de racismo e homofobia. Não, amiguinhos! Pode acontecer e acontece em todo o lugar, não somente em São Paulo, não somente no Brasil.

sábado, outubro 16, 2010

Laurentino Gomes no Programa do Jô Soares



Laurentino Gomes, autor de 1808 e 1822, foi entrevistado pelo Jô Soares no dia 8 de outubro. Muito interessante a conversa, eu nem sempre gosto das entrevistas que o Jô Soares faz, mas esta rendeu bem. E o Jô ainda fez uma excelente análise da Revolução Cubana. Vale assisir.

Com higiene precária, navios não eram para narizes delicados



A travessia para o Brasil era precária e suja. Bem, isso todo mundo que lê sobre História das Navegações já sabia, mas não custa nada, como sempre, recordar. A matéria saiu na Folha de São Paulo.

Isolado e imundo

Hábito de jogar excrementos pela janela e ausência de médicos faziam do Brasil Colônia grande foco de epidemias, mostra novo livro

RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO

Não raro, no Rio de Janeiro, em Salvador ou em qualquer outro núcleo urbano brasileiro colonial, um pedestre era "abatido" por excrementos humanos voadores enquanto seguia pela rua. Não havia esgoto, e o hábito era jogar o resíduo pela janela mesmo. As ruas, claro, não ficavam exatamente limpas, e se tornavam bastante insalubres. Não tendo o país nenhuma faculdade de medicina, doenças contagiosas chegavam e ficavam sem enfrentar grande resistência.

Mesmo em 1799, já muito perto do fim da colônia e da chegada da família real portuguesa em fuga para o Brasil, o país, com cerca de 3 milhões de habitantes, não tinha mais de 12 médicos formados -todos importados. Em Portugal (como no resto da Europa) também existia o hábito pouco higiênico de defenestrar fezes humanas, mas por lá, pelo menos, a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra já formava gente desde 1290 -outros países europeus também já tinham escolas médicas.
No caso brasileiro, a única solução era improvisar.

"No Brasil Colônia, então, formou-se uma pequena multidão de curandeiros, benzedeiras e rezadores que tentavam suprir a absoluta carência de profissionais habilitados", diz Cristina Gurgel, médica da PUC de Campinas que é especialista em história da saúde. Ela está lançando o livro "Doenças e curas: o Brasil nos primeiros séculos", pela editora Contexto. Nele, ela lista doenças que se propagavam com facilidade na época, como varíola, hanseníase, malária e sarampo, além de constantes disenterias. Por isso, a expectativa de vida dificilmente passava dos 30 anos. Crianças também eram vítimas fáceis: no século 17, por exemplo, apenas uma em cada três crianças nascidas no Nordeste conseguia sobreviver. Até existiam alguns hospitais, como as Santas Casas, mas eles eram mantidos muito mais pelos religiosos do que por médicos.

CURA PELA PÓLVORA

Mesmo quando o paciente tinha sorte e principalmente dinheiro para conseguir assistência profissional, sua situação não era das melhores - os médicos também não sabiam muito bem o que estavam fazendo. O médico português João Ferreira Rosa, por exemplo, chegou ao Recife em 1690 e, do alto do seu reconhecimento como um dos poucos profissionais de saúde no país, recomendou, entre outras coisas, a expulsão das prostitutas -elas ofendiam a Deus, que poderia querer se vingar.

Os remédios daquela época, aliás, frequentemente envolviam ingredientes como fumo, fezes de cavalo, aguardente e, está documentado, pólvora - imagine o alvoroço que isso tudo não causava no organismo do vivente, acabando por fazer muito mais mal do que bem. Ou seja, mesmo com a chegada da Corte ao país em 1808 e a criação de duas faculdades de medicina por aqui (uma em Salvador e outra no Rio), a saúde pública no país não melhorou muito. A própria expectativa de vida só viria a subir significativamente no século 20 - ontem, em termos históricos.

Com higiene precária, navios não eram para narizes delicados

DE SÃO PAULO

Se a saúde das pessoas em terra já era ruim, nos navios dos séculos 16 e 17 ela era ainda mais assustadora. Esse era um dos motivos do isolamento do Brasil durante o período colonial: atravessar o Atlântico era uma aventura que poucos tinham coragem de encarar. Por um lado, ao menos os excrementos humanos eram atirados ao mar e não na rua. Mas tanto a água quanto a comida, guardadas por meses em porões úmidos e sujos, eram invariavelmente ruins e contaminadas. Além disso, a higiene a bordo era precária. "Não por acaso, dizia-se que as viagens marítimas não eram para donos de narizes delicados", afirma Cristina Gurgel.

Não existia estrutura para que os viajantes tomassem banho - e não se sabe se eles estavam muito preocupados com isso, de qualquer forma. O padrão era usar a mesma roupa durante todo o percurso, que durava meses. "Quando possível, todos se perfumavam e incensavam o ambiente, na tentativa de controlar o mau cheiro emanado dos corpos e da sujeira", diz Gurgel. Surgiam, assim, pragas de piolhos, percevejos e pulgas. Pratos, copos e talheres não eram lavados. Doenças como varíola, difteria, escarlatina e tuberculose se propagavam sem controle.

Não bastassem os problemas de saúde que se espalhavam pelos navios, com frequência a comida acabava. E, mesmo antes disso acontecer, ela era bastante regulada: a ração diária de alimentos secos de um tripulante em uma expedição como as de Vasco da Gama ou de Cabral era de meros 400 gramas ao dia. Em casos extremos, até os ratos que infestavam as embarcações viravam comida.

"A gente tem uma visão bastante romanceada das navegações. Pensamos "que lindo, que heróis, que viagem ao desconhecido!" Não era bem assim", diz Gurgel. "Morria tanta gente que surgiram até as lendas dos navios fantasmas, em que tanta gente foi morrendo que não sobrou ninguém." Mesmo em viagens que tiveram sucesso, muita gente morreu. Na de Vasco da Gama às Índias, morreram 120 de um total de 160 marujos, por exemplo. Gurgel ressalta, porém, que isso não era exclusividade dos portugueses. Navios britânicos ou holandeses, por exemplo, tinham situação parecida. (RM)