Mostrando postagens com marcador Questões de Gênero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Questões de Gênero. Mostrar todas as postagens

sábado, dezembro 01, 2012

As Mulheres Negras e os Direitos Civis nos EUA



Desde o fim da Reconstrução Radical (1865-1877) vigoraram no Sul dos Estados Unidos as chamadas Leis Jim Crow (1876-1965), que legitimavam a Segregação Racial com base na premissa (*falsa*) "Separados, mas Iguais". Qualquer pessoa que tenha assistido mesmo o filme mediano Histórias Cruzadas, entende o que estou dizendo. Pois bem, Rosa Parks foi presa em 1 Dezembro de 1955, porque não quis se levantar para que um homem branco pudesse sentar. Hoje é dia de lembrá-la. Sua coragem, seu orgulho, foi o estopim para que outros negros e negras se mobilizassem nos EUA para que as leis racistas-segregacionistas fossem derrubadas. O sistema de transporte público de Montgomery, Alabama, sofreu boicote por 381 dias, até que as autoridades cederam a aboliram o sistema que estabelecia que negros sentavam no fundo do ônibus, brancos na frente e se o ônibus enchesse, a cada branco que entrasse, um negro ou negra deveria ceder o lugar.  Rosa Parks não foi a primeira mulher, nem a primeira pessoa, a se rebelar contra a segregação nos transportes públicos em algum Estado do Sul, antes dela, pelo menos três mulheres ganharam notoriedade por fazer o mesmo: Irene Morgan (1946), Sarah Louise Keys (1955), e Claudette Colvin (1955).


 Irene Morgan era secretária, e se recusou a levantar na cidade de Middlesex County, Virginia. Não somente isso, ela entrou em luta corporal com o xerife e outra autoridade masculina para não deixar o veículo. Foi presa, seu caso se arrastou na justiça, e foi parar na Suprema Corte. Imaginem o risco que essa mulher correu, e, claro, o mal exemplo, já que não somente se rebelou, mas partiu para a luta corporal... Sarah Keys (siga o link) era militar, das primeiras a se graduar na academia militar, das primeiras militares negas a cursar Direito com verba do Exército, e estava voltando para uma licença em sua cidade natal, Washington, Carolina do Norte. Ela tomou o ônibus em Fort Dix, New Jersey, seguiu até Washington D.C., onde embarcou em um ônibus sulista. Sentou-se na quinta fileira. Quando houve troca de motorista na pequena  Roanoke Rapids , o condutor exigiu que ela fosse para o fundo do ônibus e cedesse o lugar para um fuzileiro branco. Ela se recusou. Foi presa. O caso foi parar na seuprema Corte. Já Claudette Colvin, uma adolescente de 15 anos, voltando da escola. Colvin foi a primeira mulher em Montgomery a resistir às leis segregacionistas em ônibus, nove meses antes de Parks, mas por ser uma menina, que poderia ser taxada de "rebelde", não foi considerada como um símbolo adequado ao movimento de direitos civis.  Na verdade, e isso não diminui Rosa Parks, mas mostra o quanto uma imagem mais conservadora, todas as outras eram jovens, Parks já tinham 43 anos, por exemplo, se presta melhor como propaganda em uma sociedade igualmente conservadora... Hoje não é dia de lembrar somente de Rosa Parks, mas de todas essas outras mulheres e ressaltar que a luta por direitos iguais não acabou. 


sexta-feira, outubro 12, 2012

Ontem foi Celebrado o Dia Internacional das Meninas


Mala Yousafzai, mais uma vítima do Talibã.

Ontem foi comemorado pela primeira vez o Dia Internacional das Meninas.  Comemorado, não seria a palavra mais adequada, mas irei usá-la por falta de outra melhor.  Tal data foi estabelecida pela ONU com o objetivo de marcar a luta contra as desigualdades de gênero apontando que as meninas - jovens mulheres com menos de 19 anos - são o grupo mais vulnerável.  Não se enganem, há países nos quais a situação é muito precária, mas o Brasil não figura bem no mapa das desigualdades de gênero.  Segundo a ONU, "(...) no Brasil, um em cada cinco nascimentos ocorre com mães com idade entre 10 e 19 anos", é a única faixa na população brasileira no qual a fertilidade cresceu.  Também entre os adolescentes, especialmente as meninas, cresceu a infecção pelo HIV.  Motivo?  relações sexuais precoces, falta de educação formal de qualidade, e, claro, a pressão cultural que impede que a meninas peça que o parceiro use camisinha.

Enfim, achei um texto simples e interessante no Washington Post, decidi traduzi-lo e colocar aqui no blog.  Lembrem, também, em suas orações ou pensamentos, da jovem  Mala Yousafzai (foto), menina paquistanesa de 14 anos, cujo único sonho era poder estudar, tornar-se médica, mas que sofria ameaças do Talibã local.  Esta semana, Mala sofreu um atentado, ela parece estar fora de perigo, mas não se sabe se terá seqüelas ou se os bandidos misóginos que se escondem por trás de uma leitura radical da religião islâmica voltarão a tentar novamente.  Segue o texto:

Menina do Níger.  Quanto tempo de infância terá até o seu casamento?


Dia Internacional das Meninas: Cinco Dados sobre os direitos globais das Meninas

Por Olga Khazan

Balki Souley, uma garota de 14 anos do Níger, perdeu seu filho no parto no início deste ano depois de sofrer de desnutrição por meses, sangrando em profusão e quase morrendo.

Souley foi uma das garotas mostradas em uma recente matéria sobre o crescimento do casamento infantil no Níger feito pelo correspondente do Washington Post, Sudarsan Raghavan. O Níger tem a mais alta taxa de casamentos infantis do mundo, com uma a cada duas meninas casada antes dos 15 anos.

Mas o Níger não é o único país no qual a infância é interrompida pelo casamento, parto ou abuso. A Assembléia Geral das Nações Unidas designou o 11 de outubro como o Dia Internacional das Meninas com o objetivo de chamar a atenção para as desigualdades entre meninos e meninas no mundo.


Casal de noivos: na Índia, o casamento infantil é proibido, mas continua sendo realizado em várias regiões.
Aqui estão alguns obstáculos que as meninas e jovens mulheres do mundo enfrentam:
• A UNICEF descreve o casamento infantil como “a forma mais prevalente de abuso sexual e exploração de meninas.” A cada três segundos, uma menina com menos de 18 anos é casada com alguém no mundo, segundo o Reuters’ TrustLaw.
• Garotas com menos de 15 anos tem cinco vezes mais chance de morrer no parto do que mulheres com mais de 20 anos. Gravidez é a maior causa de morte feminina entre 15 e 19 anos, segundo o International Center for Research on Women.
• Há cerca de 2 milhões de meninas sofrendo de fístula obstétrica, um buraco no canal vaginal. A fístula pode causar incontinência crônica, conduzindo a infecções de pele, doença nos rins e isolamento social. A Organização Mundial de Saúde diz que adiar a idade da primeira gravidez é uma das melhores formas de prevenir a fístula obstétrica.
• Meninas com maior escolaridade correm menos riscos de entrarem em um casamento infantil. Mas em mais de 100 países, a escola não é gratuita, e somente 30% das meninas estão matriculadas no ensino secundário.
• Segundo a ONU Mulheres, cerca de metade das agressões sexuais no mundo são cometidas contra meninas com menos de 16 anos. E que para cerca de 1/3 das mulheres, a primeira relação sexual é uma experiência forçada, segundo a agência.
Slate, em parceria com a New America Foundation, tem um mapa interessante mostrando as disparidades de gênero por país, com base em índices, como a fertilidade dos adolescentes, a taxa de alfabetização e expectativa de vida. Não parece ser surpresa que os países da África sub-saariana e no Oriente Médio parecem ser a mais desiguais, enquanto o Canadá ea Europa são os mais igualitários:
(Visite o site da matéria para visualizar o gráfico animado.)

Eles também apontam para uma possível solução: identificação biométrica, como impressões digitais ou exames de retina, que permitiria que o auxílio pudesse ser encaminhado diretamente para as mulheres e meninas em vez de políticos corruptos.

domingo, março 04, 2012

Cinema & História: A Dama de Ferro



Hoje à tarde finalmente consegui assistir A Dama de Ferro. Apesar de já ter o filme no meu HD, fui ao cinema acreditando que poderia, sim, ser um bom filme. Enfim, se eu tivesse que resumir em uma palavra The Iron Lady seria engodo. Antes que alguém se espante, afinal, Meryl Streep levou o Oscar, explico que são coisas diferentes. O desempenho da atriz, assim como o de Jim Broadbent, que faz o marido da Primeira-Ministra, é soberbo, mas o filme deixa muito, muito, muito a desejar. Tentarei explicar de forma bem econômica: não se deixe enganar pelo trailer, pois você não vai ver um filme sobre Thatcher, a Dama de Ferro, mas sobre as reminiscências de uma velhinha solitária e perdendo a sanidade. Gato por lebre, acredite. No entanto, vou tentar observar o filme por vários ângulos, afinal, não considero a película de todo ruim.

Margaret Thatcher merece um lugar na História, afinal, conseguiu ser a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra em um país ocidental (foi precedida por Golda Meir em Israel e Indira Gandhi na Índia) e o político a permanecer por mais tempo nessa função durante o século XX, governando de 1979 até 1990. Ela foi tão icônica, que há uma anedota inglesa sobre o menininho que perguntou ao professor de História se homens podiam ser primeira-ministra. Vejam bem, que até a eleição de Dilma, muita gente dizia que uma mulher jamais seria eleita para o cargo ou que teríamos que esperar umas boas décadas. Thatcher é, portanto, uma personagem muito importante quando se pensa em mulheres ocupando o comando de nações. Antes que alguém fale que a Inglaterra tem e teve rainhas, vale lembrar que, até a recente lei que acaba com a primazia masculina, rainhas na Inglaterra eram um acidente, elas estão lá porque, por azar, nenhum menino nasceu antes ou depois delas. Triste, não é?

Só que a mesma Thatcher se comportou como qualquer outro político conservador, ou até mais ainda, porque talvez tenha ajudado a redefinir as políticas do partido, atacando sindicatos, cortando direitos sociais, favorecendo a concentração de renda, reprimindo violentamente os irlandeses, privatizando a economia inglesa, mostrando desprezo pelos milhares de desempregados. Aliás, quando ministra da educação, ela cortou o leite das criancinhas. Para que, não é? Precisamos economizar. Thatcher junto com Ronald Reagan são os maiores responsáveis pela imposição das políticas neoliberais. Os frutos estão seno colhidos agora. Há melhor momento para se fazer um filme sobre Thatcher? Se o filme fosse abordar essas questões seriamente, mas não foi bem o caso.

A Dama de Ferro tem como foco principal a senil ex-primeira-ministra da Inglaterra. As memórias da sua trajetória política são fragmentadas e pontuadas com alucinações nas quais ela imagina que seu marido, Denis Thatcher (Jim Broadbent), ainda está vivo. Tudo que vemos do tempo de Thatcher adolescente, postulante à carreira política, mãe, ministra da educação, primeira-ministra é flashback. E tudo, como já pontuei, muito fragmentado. Quando a gente começava a gostar e, caramba, ame ou odeie Thatcher, ela foi impressionante e interpretada por Meryl Streep... a cena era cortada e voltávamos para a velhinha debilitada, sua solidão, sua saudade do marido, etc., etc. Assim, um balde d'água fria. Os trailers de A Dama de Ferro fazem parte do engodo. Eu cheguei em casa e fui assistir todas as versões que encontrei. Procure a Thatcher idosa. Ela aparece muito rapidamente, nunca vemos uma cena dela. Parece até "pegadinha do malandro".

Se eu tivesse ido ao cinema ver um filme sobre a solidão da velhice, sobre a incapacidade da nossa sociedade atual em valorizar o passado, sobre a dificuldade em se perder alguém que se ama, OK. Só que o trailer e as críticas me venderam que era um filme sobre A Dama de Ferro. Mesmo a entrevista com a Meryl Streep, que coloquei aqui no blog, não deixou claro que o fio condutor seria a mulher senil. Sabia da cena de Thatcher comprando leite, mas acreditava que essa faceta da personagem, que, aliás, ainda está muito viva, seria detalhe. Só que não é. Como representação da velhice, da angustia do esquecimento e da saudade, o filme é bom. No entanto, o filme é sobre Margaret Thatcher e a todo instante somos levados a esquecer disso... Só que paguei ingresso para ver a política aguerrida e insensível para com as questões sociais. Cadê? Vendo o filme, entendi perfeitamente porque não foi indicado para Melhor Filme, Roteiro ou Direção (*OK, a diretora é mulher, provavelmente ficaria de fora mesmo...*) . Simplesmente, não merecia.

Como a longa trajetória política de Thatcher como primeira-ministra é detalhe, algumas questões não são tocadas, como a aliança com Ronald Reagan (*Ah! Mas eles aparecem dançando!*), o fim da Guerra Fria (*mas é dito que a primeira-ministra quer acabar com ela!*) e a questão irlandesa. Por que eles estavam fazendo atentados mesmo? Por que tentaram matar a Primeira-Ministra e seu marido fofo? O filme não explica. Parecem omissões propositais, especialmente, o caso Reagan. De resto, a trajetória política e mesmo a vida de Thatcher é mostrada como memória fragmentada. Sabemos que desde cedo ela se interessa por política, que seu pai era atuante em sua cidade, que ele a incentivava, enquanto sua mãe a puxava para a cozinha. Sabemos que ela era pobre, que teve que se esforçar para conseguir ir para Oxford. Mas o que ela estudou mesmo? Daí, pulamos para o início de sua carreira política e seu encontro com o marido. E vamos de salto em salto. Opção? Sim, mas quem saiu perdendo foi o filme. O destaque maior desses saltos são as cenas de arquivo mostrando as manifestações, os embates entre manifestantes e a polícia, e a violência da repressão.

O desempenho de Meryl Streep como Thatcher foi soberbo. Algumas cenas, são fantásticas, mas o mérito é dela, não do roteiro ou da direção. Eu não lembrava bem da forma como Thatcher falava. Achei a entonação de Streep bem irritante, menos, depois que ela passa a ser treinada para se candidatar à chefia do partido conservador, mas era exatamente assim que Thatcher falava. Olhem só esse vídeo. Streep deu o seu máximo para conseguir dar vida à Margaret Thatcher e à velhinha inventada para o filme. Sim, inventada, porque Streep diz que Thatcher e seus familiares não colaboraram com o filme e que essa parte dependeu muito da sua interpretação. Streep interpreta Thatcher adulta e idosa, e a maquiagem só serviu para acentuar seu desempenho. Já a Thatcher jovem foi muito bem interpretada por Alexandra Roach. Mas além de Streep, quem arrasou foi Jim Broadbent, ele merecia ser indicado como coadjuvante.

Antes do fim resta tocar em uma questão importante. Há quem esteja querendo vender Thatcher como um modelo para as mulheres. Outros se preocupam com a suposta tentativa do filme em fazer dela um ícone feminista. Thatcher é importante para as mulheres, aliás, escrevi isso lá no início do texto. Ela abriu caminho e é tão simbólica como Obama nos EUA, ou Dilma aqui. Isso quer dizer que ela era feminista? Não. E o filme não a vende assim. Aliás, há uma cena em que Thatcher idosa mostra desprezo pela fala de uma mulher que diz que ela foi inspiradora para as mulheres e para ela. Thatcher no filme estava interessada em vencer e chegar o mais longe possível, afinal, ela tinha sido estimulada desde cedo pelo pai. Ela não questiona os papéis das mulheres, ela os despreza, ela prefere os homens. Prestem atenção na questão das xícaras. É algo fundamental para se entender o caráter dela. Thatcher não estava pensando em mudar o lugar que as mulheres – a maioria delas, pelo menos – ocupavam na sociedade, ela simplesmente não queria ocupá-lo. Vencer, dependeu dela mesma. É isso que o filme vende. Aliás, ela é a self made woman, no máximo, ela dá algum crédito ao pai, de resto, ela chegou lá por seus esforços.

Agora, como o filme foi feito pro mulheres, a diretora (Phyllida Lloyd) e a roteirista (Abi Morgan) não deixam de discutir questões de gênero. Adolescente, Thatcher é puxada pela mãe para as prendas domésticas. Candidata a primeira vez, ela é tratada com complacência e desprezo porque reúne três estigmas, é mulher, é jovem, e tem origem nas classes trabalhadoras. Depois, no Parlamento, ela é sempre mostrada como única entre homens e a sala das deputadas é minúscula e tem uma tábua de passar ocupando boa parte do espaço. E para achar um banheiro? Como Ministra, é acusada de histérica, afinal, ela é mulher, é a acusação machista mais fácil. Quando no caso das Malvinas, ela diz ao Embaixador Americano que esteve em guerra sua vida inteira. Sim, mesmo quando uma mulher na política, ou um gay, ou outra minoria qualquer, levam à sério seu papel, mesmo quando não levantam bandeiras sociais, eles sofrem. Sofrem somente por estarem lá. E eu não tenho dúvidas que Thatcher levava seu papel á sério, ainda que eu não concorde com a forma como ela conduzia a sua política. Agora, cortaram uma cena que aparece no trailer, quando Thatcher à frente de um bandão de chefes de Estado – todos homens – diz "Gentlemen, let's join the ladies!". Sim, porque ela, Thatcher, podia ser mulher, mas não era uma das "ladies", ela era única, pois tinha invadido o "clube do bolinha". Essa cena precisava estar no filme para fazer par com a outra, lá do início do filme, quando a jovem candidata Thatcher é obrigada a "se juntar às damas", enquanto os homens conversam coisas sérias, ou seja, política e economia. :)

O filme, claro, cumpre a Bechdel Rule. Há várias mulheres personagens, com nomes, e que conversam entre si e não é para falar de algum homem. Isso é importante, porque, como pontuei, Thatcher tem como seus grandes parceiros em tela homens, seu marido e os políticos. Ainda assim, a diretora e a roteirista cuidaram de colocar outras mulheres em cena. O destaque para a filha de Thatcher e a governanta. Enfim, se você quiser ver um filme melancólico sobre a velhice sem se importar que a velhinha é Thatcher, esse filme é para você. Se é fã de Meryl Streep, que conseguiu levar o Oscar dessa vez, não pode deixar de assistir. Agora, se quiser saber sobre os anos que antecederam a subida de Thatcher ao poder, sua política e seus desdobramentos, melhor pegar Billy Elliot, Ou Tudo ou Nada, ou ainda Em Nome do Pai. E, claro, a miséria do neoliberalismo está aí para quem quiser ver nos jornais. O importante, no entanto, é tentar separar a antipatia (*ou simpatia*) em relação à personagem Margaret Thatcher, da percepção geral do filme. Infelizmente, pelo que observei, muita gente não está conseguindo fazer isso.
P.S.: As legendas estavam horríveis. Um dos piores trabalhos de tradução/adaptação dos últimos tempos. Para quem não entendia inglês, houve muita informação perdida. Como é possível oferecer um serviço tão ruim aos consumidores?

sábado, março 03, 2012

Quando o Infanticídio era obrigatório: como os valores mudaram ao longo da História



O jornal inglês Daily Mail trouxe uma longa matéria sobre a discussão suscitada por uma filósofa que defende que os médicos tenham o direito de matar recém nascidos deficientes, porque eles não seriam seres humanos plenos. Não entrando, no mérito da discussão – e digo que sou contra o infanticídio – achei que o texto falando das diferentes perspectivas sobre a questão ao longo da História merecia ser traduzido. Claro, que faltou falar da prática dentro de sociedades cristãs e islâmicas, porque há muitas referências sobre isso, apesar das condenações religiosas, e que o judaísmo também condena o infanticídio, mas, no geral, é um texto bem escrito. O original está aqui. Segue a tradução:
Quando o Infanticídio era obrigatório: Como os valores mudaram ao longo da História

Apesar do infanticídio parecer um conceito desumano para muitas pessoas, houve períodos da história nos quais ele foi um comportamento aceitável – e mesmo uma obrigação legal. Na cultura romana, crianças com deficiências físicas eram freqüentemente abandonadas pelos pais que não as queriam ou podiam arcar com o encargo econômico. A criança seria simplesmente deixada do lado de fora da casa para morrer de fome ou vítima das intempéries em uma prática conhecida como "exposição". Era um procedimento estabelecido e aceitável.

Em 1912, a Villa de Yewsden foi escavada em Hambleden, Buckinghamshire, e os pesquisadores ficaram chocados ao descobrir os corpos de 97 bebês em um vala comum. Os bebês aparentemente tinham sido mortos logo depois do nascimento, e a teoria geralmente aceita era de que o sítio ficava perto de um bordel. Com a falta de métodos anticoncepcionais nos tempos romanos, gravidezes indesejadas deveriam ser muito mais comuns, e túmulos coletivos é um outro exemplo de que o infanticídio não deveria representar um grande dilema ético nesse período. Arqueólogos acreditam que os romanos não consideravam crianças como seres humanos "plenos" até que atingiam a idade de dois anos, e bebês que morriam antes dessa idade não eram enterrados em cemitérios, mas em áreas públicas ou comuns. Entretanto, um casal romano tinha o direito de criar uma criança com deficiências físicas.

Em Esparta, havia pouca escolha nesta questão. Recém nascidos eram vistos como propriedade do Estado e todos os bebês eram inspecionados pelo líder da comunidade. Se a criança mostrasse sinais de deformidade ou de problemas de saúde, os pais recebiam a ordem de expor [abandonar] a criança. Muitos pais na Antiga Grécia também abandonavam os recém nascidos por causa de doença, pressão financeira, ou simplesmente por ter o "sexo" errado em uma sociedade dominada pelos homens.

Muitas religiões não levantavam objeções morais ao infanticídio, apesar do Cristianismo e do Islã se distinguirem pela sua rejeição à prática. Deixar a criança "exposta" ao clima era o método preferido, porque significaria que a criança morreu por causas naturais, o que era uma morte mais "moralmente" aceitável do que matar diretamente a criança. A prática geralmente desapareceu, e foi colocada fora da lei nos últimos anos do Império Romano. Entretanto, há referências ao infanticídio em várias culturas em todos os períodos da História, e ainda se acredita que persista em certas regiões da Índia, da África, e China. A controversa política do “filho único" chinesa faz com que muitas crianças sejam abandonadas após o nascimento.
P.S.: Essa filósofa parece estar à serviço dos grupos que defendem o confisco do direito de aborto, porque esse tipo de analogia é típico dos grupos pró-vida.

sábado, fevereiro 25, 2012

80 Anos de Voto Feminino no Brasil



Ontem, 24 de fevereiro, comemorou-se os 80 anos da concessão do direito de voto às mulheres no Brasil. Dentro do código eleitoral provisório ficou estabelecido que poderiam votar todas as mulheres alfabetizadas e maiores de 21 anos. As diferenças entre o voto feminino e masculino existiam. O voto das mulheres era facultativo, enquanto o dos homens era obrigatório. E a diferença mais gritante – e que foi retirada do texto definitivo – é que mulheres casada só poderiam votar com a autorização por escrito do marido, afinal, ele tinha autoridade sobre ela. No entanto, para que uma mulher fosse eleitora, ela precisava ser remunerada e, claro, provar. Percebem que, apesar do avanço, a maioria das mulheres continuavam ainda excluídas do direito ao voto?

Ainda assim, não pensem, no entanto, que o direito de voto foi um "presente" dos homens, assim, um mimo. Foi fruto de muitas lutas e demandas. Não vou abrir o leque para o mundo, mas só para ficarmos no Brasil, a discussão já existia na época da primeira constituição republicana em 1891. Aliás, oficialmente, as mulheres foram excluídas do direito ao voto nesse momento, já que a Constituição do Império não estabelecia restrições de sexo ou relativas à alfabetização. O critério era ser livre e ter a renda exigida para votar em 1ª instância. Agora, nunca li de mulher que tenha tentado votar, ou, se alguma votou, a informação não foi desenterrada ainda. Como historiadora a minha regra é "nunca diga nunca".

A demanda pelo direito ao voto foi crescendo com a articulação de diversas mulheres, feministas, ou não, mas que demandavam uma cidadania plena. Voto é sinônimo de cidadania, privar as mulheres dele é tira-lhes o direito de participar das decisões, de serem agentes políticos plenos. Como na República Velha havia grande autonomia dos Estados da Federação, em 1927, o Rio Grande do Norte concedeu o direito de voto às mulheres e houve a eleição de primeira prefeita do Brasil, Alzira Soriano de Souza. No entanto, apesar dos protestos das mulheres, que foram para as ruas, seus votos terminaram sendo anulados.

Com a Constituição de 1934 o voto feminino passou a ser obrigatório para todas as mulheres que exercessem profissão pública e remunerada, mas algumas restrições persistiram. Para se ter uma idéia, a exigência de que fossem remuneradas só foi abolida definitivamente em 1965. Imagino que a coisa não fosse cobrada, mas continuava na lei, assim como outras restrições à plena cidadania das mulheres persistem até hoje. Não pense que seus direitos caíram do céu. Não desdenhe da luta de tantas mulheres (e homens, também) de gerações passadas. Há quem reclame do voto obrigatório, e é legítimo discutir sobre esta questão, mas não pense que o direito de voto foi algo que sempre existiu, que as mulheres foram sempre convidadas ou intimadas a participar, muitos desejam até hoje nos privar desse direito. Para terminar, cito a minha orientadora (querida), a prof.ª Tânia Navarro-Swain:
Em tese, [o direito ao voto] representa a não discriminação do feminino no processo político, pois as mulheres podem não apenas votar, como serem votadas. Representa igualmente levar em conta as reivindicações das mulheres no quadro socioeconômico do País e sua intervenção na elaboração de políticas públicas específicas e globais.
Espero que o texto seja útil para algumas reflexões. Eu queria ter terminado ontem, mas a internet estava tão ruim que eu não conseguia navegar nas páginas.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Com 3.000 anos, tumba de cantora é descoberta no Egito



Este blog não morreu... Está paradinho, mas continua funcionando. E, bem, essa noticia do túmulo da da cantora,o único túmulo de mulher sem ligações com a realeza descoberto no Vale dos Reis, merece abrir 2012. Muito provavelmente, essa mulher tem uma história muito interessante, resta saber se, um dia, conseguiremos saber parte dela. Segue a notícia:

Com 3.000 anos, tumba de cantora é descoberta no Egito

Segundo arqueólogos, essa é a única do Vale dos Reis pertencente a uma mulher sem ligação com famílias reais
DA ASSOCIATED PRESS

Arqueólogos egípcios e suíços encontraram uma tumba de mais ou menos 3.000 anos que pertencia a uma cantora. A descoberta foi feita no Vale dos Reis, no Egito. Essa é a única tumba de uma mulher sem parentesco com as famílias reais achada na região, segundo Mansour Boraiq, do ministério das Antiguidades. O Vale dos Reis, em Luxor, é uma importante atração turística. Foi lá que, em 1922, arqueólogos acharam a máscara funerária dourada de Tutancâmon, que governou a região até 1323 a.C.

Segundo Boraiq, o caixão da cantora está surpreendentemente intacto. Quando ele for aberto, nesta semana, os cientistas devem achar uma múmia e uma máscara moldada sobre seu rosto, feita com camadas de tecido e gesso. O nome da cantora, Nehmes Bastet, quer dizer que ela era "protegida" pela divindade felina Bastet.

A tumba foi achada por acaso, segundo Elena Pauline-Grothe, diretora de escavações no Vale dos Reis pela Universidade de Basileia. "Não estávamos procurando novas tumbas. Essa estava perto de outra descoberta há cem anos." As inscrições achadas no local indicaram que a mulher era cantora no templo de Karnak, um dos mais famosos da era dos faraós.

quinta-feira, novembro 25, 2010

25 de novembro: Dia da Não-Violência contra as Mulheres



A violência de gênero é tão recorrente, tão recorrente, que nunca é demais repetir que ela existe, até porque tem gente que não lembra. Para se ter uma idéia, ontem uma menina de 15 anos foi morta à pancadas pelo pai em São Paulo. Motivo? Estava namorando escondido. Mas o delegado já mostrou para quem vai a simpatia: "Foi uma infelicidade. O pai não queria matar a filha, mas dar um corretivo". Alguém chuta a cabeça de uma pessoa (*mulheres são pessoas, eu acho*) por "infelicidade"? Acho que, não. E não concordo com uma discussão que explodiu no Twitter associando esse tipo de coisa a São Paulo, por conta das últimas explosões de racismo e homofobia. Não, amiguinhos! Pode acontecer e acontece em todo o lugar, não somente em São Paulo, não somente no Brasil.

sábado, setembro 11, 2010

Hypatia de Alexandria: Inimiga Pública



Desde que li a primeira vez sobre Hypatia de Alexandria fui tomada de grande fascinação por ela. Daria um ótimo filme... Daí, o anúncio do filme Ágora, ainda inédito no Brasil, me fez ficar atenta a tudo que aparecia sobre ela. Pois bem, eu já assisti o filme, não acredito que ele será lançado em cinema por aqui, e pretendo fazer uma resenha. Mas comprei o nº499 da revista espanhola Historia Y Vida e havia um perfil curto sobre Hypatia. A revista chega com meses de atraso no Brasil, então, deve ter sido da época do lançamento na Espanha. Achei que valia a pena traduzir e colocar no blog. Pretendo passar para os meus alunos e alunas da faculdade na semana que vem. Segue o texto traduzido:

Inimiga Pública

Hipatia, resgatada pelo cinema por Amenábar, pecou por ser pouco convencional em tempos ultraortodoxos

Nicolás Brihuega, Historiador

Tanto por sua formação intelectual quanto por sua trágica morte, Hypatia de Alexandria é provavelmente a mais célebre de todas as mulheres que dedicaram a sua vida à ciência na Antigüidade. Dela possuímos dados suficientes para traçar uma biografia fidedigna. Ainda se desconhece a data exata de seu nascimento (são possíveis os anos de 350, 370 ou 375 d.C.), a de sua morte não representa dúvidas: foi assassinada no ano de 415. A Alexandria de sua época era uma cidade cosmopolita como nenhuma outra, um formigueiro de religiões competia para ganhar adeptos. De todas elas, a cristã, como religião oficial do Império Romano, perseguia o objetivo de eliminar os outros cultos. O paganismo, junto com as heresias que se afastavam do credo oficial, era o grande inimigo a bater.

Com este pano de fundo tão desfavorável para os cultos tradicionais, Hypatia exerceu o cargo de diretora da Biblioteca, instituição pagã por excelência. E o fez graças a sua formação cultural modelar. Seu pai, o filósofo e matemático Téon, se preocupou, contra o que era o padrão daqueles tempos, que sua educação fosse de primeira linha. Baseou sua preparação em um profundo conhecimento da filosofia, da astronomia e das matemáticas.

O modo de vida realmente original de uma mulher como Hypatia não passava despercebido a ninguém, provocando muita suspeita, em especial entre as autoridades da Igreja. Hypatia não era uma pessoa a quem interessavam os bens materiais. Se vestia humildemente, se alimentava de forma espartana e se cobria com o tribón, o manto tradicional dos filósofos. Sua fama ultrapassava fronteiras. Atenas, a antiga capital da filosofia, lhe concedeu a coroa de louros, uma distinção honorífica que era entregue aos intelectuais de maior prestígio e aos seus cidadãos prediletos.

No ano de 390, o bispo Teófilo (inimigo declarado do paganismo) ordenou a destruição dos templos gregos, inclusive a maravilhosa Biblioteca, com todo o seu conteúdo de livros “ímpios”. Se havia alguém que despertava o ódio doentio do bispo, esta era Hypatia. Ninguém como ela conhecia e explicava a Aritmética de Diofanto, um tratado sobre equações de primeiro e segundo grau. Seus conhecimentos de astronomia foram fundamentais para a invenção do astrolábio plano, empregado para medir a posição das estrelas, os objetos celestes e o sol, além de calcular o tempo e o signo ascendente do zodíaco.

O sucessor de Teófilo no episcopado alexandrino não seria mais tolerante. Se tratava de seu sobrinho Cirilo. O novo bispo desejava que a cidade fosse plenamente cristã e não teve dúvidas em se rodear de uma brutal guarda pretoriana, os Parabolani, jovens fanáticos que, sob as ordens de Cirilo, organizavam razias contra os adversários políticos ou religiosos.

Convertida em Bruxa

Hypatia era, além de uma intelectual perigosa, amiga pessoal do governador alexandrino Orestes, entre outros notáveis, tanto pagãos quanto cristãos. O bispo não só arremeteu contra ela por seu pecado de não adorar o Cristo, como também se encarregou de propagar o rumor de que praticava magia negra. Incitou seus fanáticos seguidores para, enquanto deixava claro quem ostentava o poder na cidade, eliminar a conselheira e confidente de Orestes.

João, bispo de Nikiu, narra em sua Crônica como aconteceu o assassinato da filósofa: “Uma multidão de crentes em Deus apareceu sob a direção do magistrado Pedro (um ajudante de Cirilo), e foram buscar a mulher pagam que tinha dominado as pessoas da cidade e o prefeito com sues encantamentos. Quando descobriram o lugar em que estava, a seguiram e a encontraram em uma cadeira, e tomando posse dela a arrastaram até a igreja de Cesarión... Rasgaram suas roupas e a arrastaram pelas ruas até que morreu. Logo a levaram para o Cenarión e queimaram o seu corpo. As pessoas rodearam ao patriarca Cirilo e o chamaram de “o novo Teófilo”, porque havia destruído os últimos restos de idolatria da cidade”. Arrastada violentamente de sua casa pela turba de fanáticos, ao que parece arrancaram sua pela com pedaços de cerâmica (ostrokoi).

A morte de Hypatia não só significou a desaparecimento violento de uma das mentes mais privilegiadas da Antigüidade. Sua eliminação foi um passo a mais na lenta agonia da filosofia helenística. Teríamos que esperar até o Iluminismo para que se produzisse um renascimento do interesse por Hypatia, graças a historiadores como Edward Gibbon. Em sua luta contra a religião e em sua incondicional defesa do livre pensamento, os homens das luzes converteram Hypatia em uma precursora de tudo o que defendiam.

domingo, junho 20, 2010

Vista a Minha Pele: E se nosso mundo fosse invertido?



Eu gosto muito de A Negação do Brasil do Joel Zito. Tenho várias críticas, mas é um documentário fundamental apra refletir sobre o racismo na TV brasileira. Na mesma linha é Vista a Minha Pele (2003). Trata-se de um curta metragem invertendo a forma como brancos e negros (*assim mesmo, duas cores, pois infelizmente o autor não consegue ver mestiços*) vivem aqui no Brasil.

Teria várias críticas, também, por exemplo, em um Brasil "invertido" jogadores de futebol, funkeiros e pagodeiros teriam que ser, em sua maioria, brancos, mas o documentário não toca nisso. Ser professor é profissão "de pobre" ou "idealista", então, é meio absurdo que todos os professores e professoras sejam negros. Também conheço várias diretoras negras, exatamente porque ser diretor/a de escola de Ensino Fundamental e Médio é profissão de pouco prestígio social, daí, mulheres negras poderem ocupar esse posto com mais freqüência que as diretorias de grandes empresas ou a reitoria de uma universidade pública ou privada.

No entanto, as reações dos comentaristas do Youtube mostra bem que o objetivo foi atingido. É muito difícil para a maioria imginar um mundo no qual Xuxas e Angélicas fossem negras, ou que cabelo liso fosse um estigma, ou que os galãs mais desejados fossem homens negros. Para quem não sabe, um filme americano abordou a questão da mesma maneira, mas não de forma didática e com adolescentes, trata-se do filme A Cor da Fúria (White Man’s Burden), com John Travolta, de 1995.