terça-feira, outubro 09, 2007

4º BIMESTRE: IGREJA


>> O Cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano no século IV. Até então, uma religião urbana, teve que se adaptar à nova realidade do mundo ocidental que era marcadamente rural. A Igreja Romana, como guardiã da cultura greco-romana, terminou por servir de apoio para os novos reinos que bárbaros que se estruturavam, promoveu a evangelização de regiões não cristianizadas, lutou contra a expansão da Igreja Irlandesa e se afirmou como poderosa dona de terras adaptando-se ao novo mundo ruralizado.

>> AFIRMAÇÂO DA IGREJA: Entre os séculos V e IX, as fronteiras da Cristandade Ocidental se expandiram muito, mesmo que essa expansão tenha sido dentro da própria Europa, devemos destacar:

— A Criação da Regra de São Bento: Este conjunto de obrigações e deveres criados por Bento de Núrcia (480-547) passou a regular a vida de grande parte dos mosteiros medievais. No entanto, não havia ainda nenhuma Ordem religiosa no Ocidente.
— A difusão do pensamento de Santo Agostinho (354-430): Grande pensador, ele deixou uma série de escritos que influenciaram profundamente a Teologia da Igreja e a vida religiosa medieval.
— O Trabalho de Evangelização: A Igreja Romana enviou missionários à Inglaterra, Irlanda e Germânia, principalmente para barrar a expansão missionária dos monges irlandeses.
— Fundação da Ordem de Cluny (910): A primeira Ordem do Ocidente seguia a Regra de São Bento e espalhou suas casas por toda a Europa. Foi grande defensora da Reforma Religiosa,
[1] da moralização da Igreja e do fortalecimento do poder do Bispo de Roma. Muitos Papas saíram das suas fileiras.
>> CULTURA E IGREJA: Durante a Idade Média, a Igreja controlava a educação e era responsável pelas escolas. Até meados da Idade Média boa parte dessas escolas estava em mosteiros. Nos mosteiros, eram mantidas bibliotecas e um dos trabalhos dos monges e monjas era fazer cópias de livros e manuscritos, religiosos ou não. Os monges e monjas dedicados a este trabalho eram chamados de copistas. Muitas das crianças mandadas às escolas acabavam por se tornar religiosos. Era uma das carreiras mais seguras e, até o surgimento das universidades, boa parte dos funcionários eram religiosos. Daí a utilização da palavra clérigo para todos os intelectuais, mesmo depois do surgimento das Universidades, no século XIII. Apesar dos muitos pensadores, os que mais influenciaram a Igreja Medieval foram sem dúvida Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274), o primeiro adaptou Platão ao pensamento cristão e o segundo cristianizou o pensamento de Aristóteles.

>> A IGREJA NO SÉCULO X A XIII:
— Durante a Idade Média praticamente toda a Europa foi Cristianizada e no Ocidente ser Católico era obrigatório.
— Até o século X, XI, muitos senhores poderosos mandavam e desmandavam nas Igrejas locais. É preciso lembrar que muitos bispos eram aparentados com esses senhores e, não raro, eles também eram senhores de terras.
— A partir do século X, um discurso moralizador começa a se estruturar. A primeira fonte foi o Sacro Império Romano Germânico. O Imperador protegia o Bispo de Roma e desejava que estes tivessem maior dignidade, se colocando, claro, sempre acima do poder espiritual como na época do antigo Império Romano. As medidas, no entanto, terminaram por fortalecer o poder papal que irá tentar se colocar acima de reis e imperadores.
— Com a expansão da Ordem de Cluny, no século XI, esta vai propor uma série de reformas: os grandes senhores não poderiam interferir nas questões religiosas e o papa deveria ser o poder máximo da Cristandade. Ainda nesse século, a Igreja começou a legislar sobre as lutas entre senhores feudais (alguns deles religiosos) criando a “Trégua de Deus” e a “Paz de Deus” que determinavam a suspensão dos conflitos em determinadas épocas do ano.
— REFORMA GREGORIANA: No século XI, Gregório VII, monge de Cluny, iniciou a reforma que abalaria a ordem estabelecida. Seu interesse era reforça o poder papal ante o imperador e resguardar a Igreja da intervenção dos grandes senhores. Alguns pontos da sua reforma foram: proibição do casamento dos padres, proibição da simonia (comércio dos bens da Igreja e sacramentos) e que somente o papa poderia investir eclesiásticos tirando esse poder do imperador. A síntese das idéias da Reforma Gregoriana estão expressas no Dictatus Papae de 1075.[2] As pretensões de supremacia do Papa deram início à chamada Questão ou Querela das Investiduras com o Imperador Henrique IV. O conflito que culminou com a excomunhão do Imperador e seu perdão em Canossa, só seria resolvido com a Concordata de Worms.
— A REFORMA CONTINUA: Até o século XIII, muitos papas vão tomar medidas com o intuito de moralizar a Igreja e reforçar o seu poder, assim, destacamos: Nicolau II tirou do Imperador o direito de eleger o Papa – como em Bizâncio –e deu a responsabilidade aos Cardeais; Calixto III, no século XII, vai assinar com o Imperador a Concordata de Worms (1122), pondo fim a chamada Questão das Investiduras, e determinando que o papa daria aos novos bispos o poder (investidura) religioso e o Imperador o poder (investidura) temporal sobre as terras. Isso pode ser considerado como derrota para o Papa, pois este queria o direito de conceder ambas as investiduras; no século XIII, o Papa Inocêncio III, vai reafirmar o poder do Papa colocando-o acima do poder dos reis e imperadores a quem somente o papa teria o poder de julgar e derrubar. Esse Papa também criou a Inquisição e convocou o IV Concílio de Latrão (1215) que legislou sobre uma série de assuntos referentes à reforma religiosa.
>> O CLERO: Este grupo era a base da organização da Igreja. Havia vários tipos de religiosos e estes exerciam várias funções. O clero se dividia em secular – que viviam em contato direto com a população – e regular – aqueles que viviam de acordo com uma regra. Entre o clero secular podemos incluir os bispos, cônegos, padres. Já os regulares poderiam viver ou não em comunidades separadas e compreendiam os monges e monjas e frades e freiras. Somente os sacerdotes poderiam presidir cerimônias ministrar sacramentos (batismo, matrimônio, extrema-unção, etc) e nem todos os monges e frades eram sacerdotes. Uma das questões que as reformas religiosas vão priorizar é a formação dos sacerdotes e sua moralidade, pois muitos padres eram analfabetos e alguns bispos eram nobres que recebiam os cargos diretamente sem sequer terem uma formação religiosa mais específica, além disso, alguns, por serem nobres, ainda se dedicavam a atividades proibidas aos religiosos como a caça e a guerra.

>> AS ORDENS RELIGIOSAS: No início da Idade Média os mosteiros eram independentes, dirigidos por um abade ou abadessa. A maioria seguia principalmente a Regra de São Bento que tinha como lema “Ora et Labora”, ou seja, o monge deveria se dedicar tanto ao trabalho manual quanto às orações. A partir da fundação de Cluny passaram a se agrupar em Ordens. Uma Ordem é um conjunto de casas religiosas que seguem a mesma Regra Canônica. A partir do IV Concílio de Latrão as Regras consideradas Canônicas pela Igreja são: a de São Bento, a de Santo Agostinho, a de São Francisco e a de Santo Ambrósio. As principais Ordens Medievais são a Beneditina (Cluniacenses e Cisterciences), a Agostiniana (dividida em várias ramificações), a Franciscana, a Dominicana e a Carmelita. Geralmente as Ordens tinham casas femininas e masculinas. Antes das Reformas, eram comuns Ordens Mistas compostas de mosteiros de homens e mulheres presididos principalmente por uma abadessa, com o passar do tempo esta estrutura passou a ser combatida e desapareceu com o tempo. No contexto das Cruzadas surgiram as Ordens Militares, como a dos Templários e a dos Hospitalários, que eram compostas por religiosos soldados. Essas Ordens conseguiram grande sucesso, algumas se tornando muito ricas. As Ordens Militares também aceitavam homens e mulheres.

>> O TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO: A Inquisição foi criada no século XIII durante o pontificado de Inocêncio III. A ordem era que os bispos julgassem os acusados de heresia. Em 1229, o papa seguinte, Gregório IX, instituiu o Tribunal em si. O objetivo era combater a heresia e levar os hereges ao arrependimento e ao retorno ao seio da Igreja. Só refrescando a memória, heresia era qualquer prática que discordasse da Igreja oficial. O número de heresias havia crescido muito durante o século XII e a Inquisição foi uma reação mas não a única. A Ordem Dominicana, por exemplo, foi criada com essa função também. Não se deve acreditar na imagem mostrada da inquisição queimando montes de bruxas e hereges, pois esta prática é muito mais característica do final da idade Média e, principalmente, da Idade Moderna. Outro fator a se destacar é que quem executava os “não-arrependidos” era o poder temporal (nobres, reis, o imperador, etc) e não a Igreja.

>> AS HERESIAS: Muitas foram as práticas religiosas consideradas como heresia na história da Igreja. Nós mesmos já ouvimos falar dos monofisistas e arianos. Durante o século XIII, duas heresias chamaram muito a atenção da Igreja e foram duramente reprimidas: os Cátaros ou Albigenses e os Valdenses. Os Albigenses floresceram principalmente no sul da França, obtendo sucesso com indivíduos de todas as camadas da sociedade, inclusive a nobreza. Faziam voto de pobreza, dividiam o mundo entre bem e mal que estavam em luta permanente (Dualismo). Entre os cátaros mesmo as mulheres poderiam exercer o sacerdócio. Foram duramente combatidos durante o governo de Inocêncio III que convocou contra eles uma Cruzada. Coube principalmente aos Dominicanos cuidar dos cátaros que quisessem voltar ao seio da Igreja. Os Valdenses surgiram com Pedro Valdo, rico comerciante que doou tudo aos pobres e fez voto de pobreza. Eram pregadores, itinerantes, pregando a pobreza individual e da Igreja. Os ideais do grupo eram muito parecidos com os dos Franciscanos, mas como queriam que a Igreja fosse pobre e homens e mulheres pregavam sem permissão, foram duramente condenados e perseguidos.

>> DO CATIVEIRO “BABILÔNICO” ATÉ O GRANDE CISMA: Entre o século X e XIII, os papas conseguiram ganhar muito poder e autoridade, apesar das resistências e lutas enfrentadas. Até esse momento, seu embate era contra o imperador e pela moralização e independência da Igreja. A partir do século XIII, no entanto, os reis começaram a se fortalecer e a interferência do papa dentro dos seus reinos no momento em que se estruturavam. A reação dos reis se deu de várias formas mas foi o rei da França, Felipe IV (o Belo) que deu uma demonstração de força que marcou a história da Igreja Medieval. Como não estava disposto a admitir que o Papa aplicasse suas ordens dentro da França sem aprovação real, mandou um exército seqüestrar não somente o Papa, mas a corte papal inteira. (Lembre-se de que desde a
época dos francos as relações entre a França e a Igreja eram muito “próximas”.) O Papa agredido morreu logo, mas a sede do governo da Igreja terminou por ficar na França, na cidade de Avignon, de 1305 até 1378. Esse período ficou conhecido como “Cativeiro de Avignon” ou “Cativeiro da Babilônia”. Quando o Papado retornou à Roma, em 1378, não houve consenso e começaram a conviver dois ou até três Papas ao mesmo tempo (um em Roma, outro em Avignon e outro em Pisa). Tal situação enfraqueceu a Igreja e só se viu resolvida em 1417 depois de intervenção de vários reis. A resolução, entretanto, não foi suficiente para dar estabilidade a Igreja e um século depois a Cristandade iria se dividir graças à Reforma Protestante (1518).

[1] A Reforma Religiosa em questão não é a Protestante do século XVI. Durante a Idade Média foram implementadas várias reformas com objetivos diversos, sem, contudo provocar a fragmentação da Cristandade como no caso de Lutero.
[2] Ver parte do documento no livro texto, p. 225.

4º BIMESTRE: SACRO IMPÉRIO

AVISO: Este resumo deverá ser lido em casa. Não haverá aula de Sacro Império, mas tirarei as dúvidas. Não haverá questão direta de Sacro Império na A.E., mas para compreender outras questões é preciso saber sobre ele.

>> O chamado Sacro Império Romano Germânico foi uma das mais duradouras criações da Idade Média, tendo durado do século X até o século XIX.

>> O Império nasceu do Reino da Germânia, surgido da dissolução do Império Carolíngio com o Tratado de Verdun de 843. Por este tratado, os netos de Carlos Magno dividiriam o território em três, surgindo deste acordo o Reino da França (*Francia Ocidentalis*), a Lotaríngia (*que manteve a Itália e a coroa Imperial*) e o Reino da Germânia (*Francia Orientalis*).

>> A dinastia de Carlos Magno resistiu por algum tempo nos três territórios, mas o poder dos reis se viu muito diminuído. No caso da Germânia, os carolíngios governaram até 911, quando faleceu o último descendente de Carlos Magno. A partir daí, os grandes duques – que passaram a serem chamados eleitores – decidiram escolher entre si quem deveria reinar. A Coroa então passou Conrado, duque da Francônia e, em seguida, para Henrique, o Passarinheiro, duque da Saxônia, que conseguiu garantir a manutenção da coroa por algumas gerações.

>> Enquanto isso, a Lotaríngia se fragmentou e a maioria dos territórios foram incorporados à Germânia. A coroa imperial continuou existindo até 924, mas sem que representasse nada realmente importante, pois os nobres que a portavam tinham domínios muito restritos e nenhum poder real.

>> Com a morte de Henrique, o passarinheiro, seu filho Otão assumiu o trono. Sua missão não era nada fácil, pois teve que conter tanto os grandes vassalos (*não esqueçam dos laços feudais*), quanto os novos invasores vindos do leste (*magiares, eslavos*). Bem sucedido, nas guerras, optou por se apoiar dentro do território nos grandes senhores da Igreja, a quem deu terras e títulos, em troca de fidelidade.

>> O ano de 962, marca o nascimento do Sacro Império. Otão foi chamado à Itália para livrar o jovem bispo de Roma/papa João XII (*só tinha 17 anos*) dos seus inimigos. Na verdade, os senhores italianos pouco respeito tinham pela igreja e suas terras, e o bispo da cidade de Roma – o mais importante do Ocidente – era escolhido sem muito critério dentre as grandes famílias. Otão derrota os inimigos do bispo de Roma e é coroado como Imperador. O título ressuscitado era importante para a segurança da Igreja, que se acostumara à proteção dos imperadores. Em contrapartida, todo um discurso de glorificação de Oto, do cargo imperial, do novo Império Romano é criado.
>> Otão I percebe seu cargo como o de Carlos Magno, isto é, quer que sua dignidade seja reconhecida dentro dos seus territórios e pelos reinos que o cercam, sendo visto o imperador como alguém que governa sobre os reis. É com esse intuito que enfrenta e vence os bizantinos na Itália em 972, conseguindo para seu filho, o futuro Otão II, um vantajoso e inédito casamento com uma princesa do Oriente. Os três Otões (I, II e III) dão grande valor ao seu cargo e se colocam como o poder universal máximo no Ocidente. Assim, eles são o pontífice máximo, eles escolhem os bispos de Roma, eles investem os bispos. Otão III chega a mudar-se para a Itália, mas isso não é bem visto nem pelos seus vassalos alemães, nem pelos italianos e sua morte prematura – seguida um ano depois (1003) pelo Papa Silvestre II seu maior aliado – põe fim tanto à dinastia dos Otônidas quanto às pretensões de ressuscitar o Império Romano em todo o seu esplendor.
>> No entanto, a idéia de que a Igreja deve se subordinar ao Império permanece firme nos sucessores dos Otônidas e isso será responsável pelos grandes conflitos entre papas e imperadores nos séculos seguintes. Dois poderes universais não podiam subsistir juntos no mesmo espaço. (Ver: Igreja)
>> Quanto à política, os imperadores oscilavam entre seus interesses no Norte e no Sul, alguns optando por dar mais atenção aos domínios alemães, outros às possessões italianas. Importante lembrar que o equilíbrio sempre foi difícil, e os conflitos constantes. Por exemplo, dentro da Itália o conflito entre papa e imperador produziram, em especial a partir do século XIII, conflitos sangrentos, com a formação de dois blocos políticos: o dos Guelfos que defendia que a Itália fosse separada do Império e governada pelo papa; e o dos Guibelinos que mesmo não desejando um imperador alemão, preferiam apoiá-lo a terem o papa como governante.
>> LEMBRE-SE 1: O Império é “sacro” ou “sagrado” porque foi instituído por Deus (*ou assim a Igreja desejou que se pensasse*), era “romano” porque pretendia reviver o antigo Império (*daí a necessidade de manter Roma dentro do seu território*) e é “germânico” porque os imperadores são alemães e são eles que têm o poderio militar.

>> LEMBRE-SE 2: Graças ao Império, a Igreja Romana teve condições de se reorganizar e fortalecer, pois os imperadores se comprometeram tanto com um projeto de moralização e educação do alto clero, quanto com a concessão de feudos em troca de fidelidade.

>> LEMBRE-SE 3: O Império retardou e muito a unificação de Alemanha e Itália e sua afirmação como Estados Nacionais. Os interesses tanto do papa quanto do imperador eram de reconhecimento de seus poderes universais, e não havia interesse em permitir a organização de estados que poderiam se tornar independentes. Assim, fortaleceu-se o poder dos grandes e pequenos senhores (*duques, condes, príncipes, pequenos reis*), enquanto em outras regiões da Europa os poderes estavam sendo centralizados nas mãos dos reis ainda na Baixa Idade Média.

BIBLIOGRAFIA:

GRIMBERG, Carl. História Universal. Santiago: Europa América, vol. 10, 1989.
LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC, 2005.
Livro didático, p. 266-267.