domingo, novembro 09, 2008

Kristallnacht faz 70 anos




O vídeo foi produzido pela Federação Israelita do Rio. O vídeo tem comprometimento ideológico mas é historicamente correto, lembrando da perseguição aos comunistas e social democratas, do comprometimendo da população alemã com o "way of life" nazista e do silêncio das outras nações. É preciso não esquecer o Holocausto, é preciso lembrar das atrocidades cometidas para que elas não voltem a se repetir. O texto abaixo veio da página da Deutsch Welle:

1938: O pogrom da "Noite dos Cristais"

No dia 9 de novembro de 1938, agentes nazistas à paisana assassinaram 91 judeus, incendiaram 267 sinagogas, saquearam e destruíram lojas e empresas da comunidade e iniciaram o confinamento de 25 mil judeus em campos de concentração.

Aquela que ficaria conhecida no próprio jargão nazista como a "noite dos cristais quebrados" marcou o início do Holocausto, que causou a morte de seis milhões de judeus na Europa até o final da Segunda Guerra Mundial.

A "Noite dos Cristais" (Kristallnacht ou Reichspogromnacht), de 9 para 10 de novembro de 1938, em toda a Alemanha e Áustria, foi marcada pela destruição de símbolos judaicos. Sinagogas, casas comerciais e residências de judeus foram invadidas e seus pertences destruídos.

Série de proibições aos judeus

Milhares foram torturados, mortos ou deportados para campos de concentração. A justificativa usada pelos nazistas foi o assassinato do então diplomata alemão em Paris, Ernst von Rath, pelo jovem Herschel Grynszpan, de 17 anos, dois dias antes.

A perseguição nazista à comunidade judaica alemã já havia começado em abril de 1933, com a convocação aos cidadãos a boicotarem estabelecimentos pertencentes a judeus. Mais tarde, foram proibidos de freqüentar estabelecimentos públicos, inclusive hospitais.

No outono europeu de 1935, a perseguição aos judeus, apontados como "inimigos dos alemães", atingiu outro ponto alto com a chamada "Legislação Racista de Nurembergue". Enquanto o resto do mundo parecia não levar o genocídio a sério, Hitler via confirmada sua política de limpeza étnica.

Trajetória para o holocausto já havia sido aberta

Uma lei de 15 de novembro de 1935 havia proibido os casamentos e condenado as relações extraconjugais entre judeus e não-judeus. Havia ainda a proibição de que não-judeus fizessem serviços domésticos para famílias judaicas e que um judeu hasteasse a bandeira nazista.

Ainda em 1938, as crianças judias foram expulsas das escolas e foi decretada a expropriação compulsória de todas as lojas, indústrias e estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus. Em 1º de janeiro de 1939, foi adicionado obrigatoriamente aos documentos de judeus o nome Israel para homens e Sarah para mulheres.

A proporção da brutalidade do pogrom de 9 de novembro foi indescritível. Hermann Göring, chefe da SA (Tropa de Assalto), lamentou "as grandes perdas materiais" daquele 9 de novembro de 1938, acrescentando: "Preferia que tivessem assassinado 200 judeus em vez de destruir tantos objetos de valor!"

PROVA DA UFRJ/2009 – HISTÓRIA – 1º DIA


 

1) "A sociedade feudal era uma estrutura hierárquica: alguns eram senhores, outros, seus servidores. Numa peça teatral da época, um personagem indagava:


 

"- De quem és homem?

- Sou um servidor, porém não tenho senhor ou cavaleiro.

- Como pode ser isto?' Retrucava o personagem."


 

Fonte: Adaptado de HILL, Christopher. O mundo de ponta-cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 55.


 

No século XVI, a sociedade rural inglesa, até então relativamente estática, estava se desagregando. Apresente um processo sócio-econômico que tenha contribuído para essa desagregação.


 

2) Evolução das estimativas do número de escravos desembarcados no Brasil ao longo do século XVIII, por região africana de origem:


 


A partir da tabela, relacione a mudança ocorrida no padrão geográfico da oferta de escravos africanos com as transformações da economia colonial setecentista.


 

3) Entre os séculos XVII e XIX, a Europa foi sacudida por uma série de revoluções sociais que resultaram na constituição do sistema político liberal e democrático. Entre elas destacaram-se as revoluções inglesa de 1688 e francesa de 1789.


 

Indique um princípio de natureza econômica e outro de natureza política presentes nessas duas revoluções.


 

4) "A consolidação da República liberal (1889-1930) foi completada com a sucessão de Prudente de Morais (1894-1898) por outro paulista, Campos Sales (1898-1902), que em seu governo concebeu um arranjo conhecido como política dos governadores".

Fonte: Adaptado de FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995, p.258.


 

Apresente duas características da chamada Política dos Governadores.

5) "O fascismo rejeita na democracia o embuste convencional da igualdade política, o espírito de irresponsabilidade coletiva e o mito da felicidade e do progresso indefinido [...] Não se deve exagerar a importância do liberalismo no século passado, nem convertê-lo numa religião da humanidade para o presente e o futuro, quando na realidade ele foi apenas uma das muitas doutrinas daquele século [...] Agora o liberalismo está prestes a fechar as portas de seu templo deserto [...] O presente século é o século da autoridade, um século da direita, um século fascista" (Benito Mussolini)

Fonte: MAZOWER, Mark. Continente sombrio: a Europa no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 29.


 

O discurso proferido por Mussolini explicita a concepção política fascista nos anos 20 e 30 do século passado. Cite dois aspectos do regime fascista contrários aos princípios liberais.


GABARITO



QUESTÃO 1


Entre outros processos temos: as transformações no campo como os cercamentos (expropriação dos camponeses tradicionais); o crescimento comercial e manufatureiro de Londres, atraindo populações rurais; a proliferação de seitas protestantes que procuravam se desvencilhar das tradicionais relações senhoriais.


QUESTÃO 2


O candidato deverá relacionar a mudança no padrão geográfico da oferta de africanos com o contínuo crescimento da demanda por cativos da América Portuguesa, onde a montagem do complexo minerador em Minas Gerais, a partir do início do século 18, fez com que o número de escravos provenientes de Angola paulatinamente superasse o de cativos originários da Costa da Mina.


QUESTÃO 3


Entre outros princípios o candidato poderá indicar os seguintes: liberdade de expressão, liberdade comercial, liberdade individual e respeito à propriedade privada.


QUESTÃO 4


O candidato deverá apresentar duas das seguintes características da Política dos Governadores:


- o governo central sustentava os grupos dominantes nos Estados, enquanto esses, em troca, apoiavam a política do presidente da República;


- a instituição, na Câmara dos Deputados, da "Comissão de Verificação dos Poderes", instrumento através do qual eram validados os mandatos de deputados federais afinados com os grupos hegemônicos nos Estados e fiéis ao governo federal;


- fortalecimento do poder executivo; limitação da autonomia do poder legislativo e reforço nos poderes regionais e locais.


QUESTÃO 5


O aluno deverá citar, dentre outras, as seguintes características dos regimes fascistas que se opõem aos princípios liberais: Estado totalitário, corporativismo, unipartidarismo, culto à personalidade.


 

sábado, outubro 04, 2008

A Revolução Americana e os Direitos das Mulheres



Como citei em sala, a Revolução Americana contou com ampla participação popular, porém, quando se tratou de estabelecer quem teria pleno direito à cidadania, negros, índios e mulheres em geral foram excluídos. Ficou claro que "todos os homens foram criados iguais" desde que não fossem "de cor", do sexo feminino, analfabetos, e jovens "demais". Posto dois trechos de cartas trocadas entre Abigail Adams e seu marido, John Adams, segundo presidente dos EUA. Ela demandando direitos para as mulheres e ele respondendo que os homens não estavam dispostos a negociar tal questão. Todas as cartas estão on line em inglês.

Abigail Adams escreve em 31/03/1776 ao seu marido exigindo o direito de cidadania para as mulheres:

“... no novo código de leis que vós estais redigindo desejo que vos lembreis das mulheres e sejais mais generosos e favoráveis com elas do que foram vossos antepassados... Se não for dada a devida atenção às mulheres, estamos decididas a fomentar uma rebelião e não nos sentiremos obrigadas a cumprir leis para as quais não tivemos nem voz nem representação”.


A resposta do futuro presidente dos Estados Unidos, enfatizando que a Revolução provocou uma crise de autoridade, não tarda:

“Quanto ao seu extraordinário Código de Leis, eu só posso rir. Nossa luta, na verdade, afrouxou os laços de autoridade em todo o país. Crianças e aprendizes desobedecem, escolas e universidades se rebelam, índios afrontam seus guardiães e negros se tornam insolentes com seus senhores. Mas a sua carta é a primeira intimação de uma outra tribo, mais numerosa e poderosa do que todos estes descontentes. (...) Esteja certa, nós somos suficientemente lúcidos para não abrir mão do nosso sistema masculino.”

Gabaritos das V.I.


Como prometi, aí estão os gabaritos das V.I.s Quem quiser baixar os modelos de prova, é só clicar sobre as palavras: いぬねことり. Para quem não está entendendo, eu fiz três modelos de prova sobre Revolução Americana; いぬ é cachorro、ねこ é gato、e とり é pássaro. Seguem os gabaritos discriminados:

- いぬ: 1.E 2.C, 3.C, 4.E, 5.E, 6.E, 7.C, 8.E, 9.C, 10.C, 11.E, 12.C, 13.C, 14.C, 15.E, 16.C, 17.E, 18.C, 19.E, 20.C.

- ねこ: 1.E 2.C, 3.C, 4.C, 5.E, 6.C, 7.E, 8.E, 9.C, 10.C, 11.E, 12.E, 13.E, 14.C, 15.C, 16.C, 17.C, 18.C, 19.C, 20.E

- とり: 1.C 2.C, 3.E, 4.C, 5.C, 6.E, 7.E, 8.E, 9.E, 10.C, 11.C, 12.E, 13.C, 14.C, 15.E, 16.C, 17.C, 18.E, 19.C, 20.C.

Inscrições para o PAS até dia 9


Para quem está interessado:

UnB
Inscrições para o PAS até dia 9


Os estudantes de ensino médio interessados em participar do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) poderão se inscrever até o próximo dia 9 no site www.cespe.unb.br/pas. As taxas de inscrição são de R$ 45 (1ª e 2ª etapas) e de R$ 60 (3ª etapa). São 1.364 vagas — entre cursos diurnos (57) e noturnos (15) —, divididas entre os câmpus de Ceilândia, Gama, Plano Piloto e Planaltina. Os alunos de escolas da rede pública do DF estão dispensados do pagamento. Para efetuar a inscrição é indispensável para os candidatos o número do CPF. As provas ocorrerão em dezembro, nos dias 6 (1ª etapa) e 7 (2ª e 3ª etapas).

domingo, setembro 21, 2008

Inglês grátis na Thomas


Para quem está em Brasília é uma boa chance de iniciar um curso de inglês com qualidade e ainda concorrer a uma bolsa integral. O anúncio está no Correio Braziliense.

Inglês grátis na Thomas

Um curso gratuito para iniciantes na língua inglesa será oferecido pela Casa Thomas Jefferson. O custo será apenas do material didático, R$ 60. São dois meses de aula com formandos do curso para professor da escola. Os encontros ocorrerão de 13 de outubro a 3 de dezembro, às segundas e quartas-feiras, das 18h30 às 19h20. As inscrições devem ser feitas na filial da Asa Norte (SGAN 606, Módulo B) a partir de amanhã, dia 22, e serão encerradas assim que as 60 vagas forem preenchidas. Não haverá seleção. Após a conclusão do curso, duas bolsas de estudos integrais para o curso básico, com duração de quatro semestres, serão oferecidas aos melhores alunos. Mais informações pelo telefone (61) 3347-4040.

Editor: Valéria Velasco // placido.fernandes@correioweb.com.br
e-mail:
emprego@correioweb.com.br
Tel: 3214-1184

domingo, setembro 14, 2008

Uma lição para ser guardada por toda a vida


Estou postando como homenagem a um grande amigo que foi o primeiro professor cego concursado (*e talvez não-concursado*) do Colégio Militar e do Pedro II. Por sua trajetória d evida, ele merece aplausos e pode servir de exemplo para outros jovens com deficiências. Enfim, a matéria saiu no Jornal O Dia do Rio, pequena, mas cumpre sua função.


Uma lição para ser guardada por toda a vida

Professor cego com doutorado é admirado por seus alunos

Maria Luisa Barros

Rio - Duas vezes por semana, estudantes dos cursos de Turismo e História da Universidade Federal Rural, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, se reúnem à noite para assistir a uma aula que é uma lição de vida. Apesar do cansaço comum a quem trabalha o dia todo, ninguém falta. Sala lotada, olhares atentos e expressão de admiração: eles são alunos do professor doutor Vanderlei Vazelesk Ribeiro, 39 anos, que faz a chamada em braile.

A cegueira que o acompanha desde o berço não impediu que esse ex-ascensorista conquistasse a única vaga no concurso para a Rural, disputada por mais cinco candidatos, também com doutorado. Antes de entrar para a Rural como professor adjunto, Vanderlei passou em mais oito concursos públicos, competindo de igual para igual, já que não havia reserva de vaga para portadores de deficiência. Para ler dezenas de livros de mais de 400 páginas, teve a ajuda da esposa Helena Dias de Carvalho, que lia até de madrugada. “Ela foi e continua sendo muito importante na minha vida”, confidencia.

De origem humilde e ascendência polonesa, professor Vanderlei foi o primeiro da família a chegar a uma universidade. Os pais eram operários em Presidente Prudente, no Interior paulista, e trabalhavam num abatedouro. “Eu não enxergava, não tinha dom musical e nem habilidades manuais. Minha única saída era estudar”, conta. Sem dinheiro, a mãe enviou carta para o programa de rádio ‘A Turma da Maré Mansa’, que, sensibilizado com a história do menino, conseguiu uma vaga no Instituto Benjamin Constant, para cegos, no Rio.

VITÓRIA SOBRE AS DIFICULTADES

Para ajudar a pagar os estudos, Vanderlei, que veio morar sozinho no Rio aos 13 anos, trabalhava como ascensorista no Hospital Souza Aguiar, no Centro. “Eu memorizava os botões de cada andar e ia contando as pessoas que entravam pelo vulto que conseguia distinguir. Assim eu limitava a entrada no elevador”, recorda-se. Há 10 anos, concluiu a graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também fez o mestrado. Em 2006, fez o doutorado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que rendeu livro sobre questão agrária publicado na Argentina.

O preconceito sempre foi uma sombra no caminho do professor. Certa vez, dando aulas no Colégio Militar, um aluno da 6ª série fez o desenho do órgão genital masculino no jaleco de dar aulas. “Fiquei mal uns dois dias, mas os outros estudantes foram solidários comigo”, conta.

Vanderlei tem que ser esperto para evitar as colas. “Os alunos tentam me enrolar o tempo todo. Minha obrigação é criar meios para não ser enrolado”, diz. Quando aplica provas, pede a presença de um funcionário.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O Cartismo e os Luditas


O Ludismo, que vem de Ned Lud, líder do movimento, foi um movimento de artesãos desempregados e operários ingleses que, no séc. XIX, marcavam encontros altas horas da noite, invadiam fábricas e destruíram máquinas de grande porte e, muitas vezes, tocavam fogo nas instalações. Boa parte dos luditas eram ex-membros do outrora própero grupo dos artesãos que perderam suas oificinas, empregos e caiam na miséria. Em alguns casos o termo se aplica a todos que são contra o avanço à industrialização intensa ou ao avanço tecnológico.

Movimento político reformista ocorrido na Inglaterra, entre 1830 e 1848, e cujo programa se continha na chamada Carta do Povo escrita por William Lovett. Era um movimento democrático radical para os padrões da época e defendia: o sufrágio universal masculino; voto secreto através da cédula; eleição anual; igualdade entre os direitos eleitorais; participação de representantes da classe operária no parlamento; remuneração aos parlamentares. Recusadas as propostas, houve revoltas de operários. Mesmo que o movimento não tenha sido bem sucedido, sua pressão ajudou na aprovação de leis regulamentando o trabalho infantil (1933) e feminino, revisão do Código Penal (1937), a permissão das associações políticas de operários e da implementação de jornadas de trabalho de 10 horas.

O trabalho das mulheres

Depoimento de Betty Harris, 37 anos:

Casei-me aos 23 anos, e foi somente depois de casada que eu desci à mina; não sei ler nem escrever. Trabalho para Andrew Knowles, da Little Bolton (Lancashire). Puxo pequenos vagões de carvão; trabalho das 6 da manhã às 6 da tarde. Há uma pausa de cerca de uma hora, ao meio-dia, para o almoço; dão-me pão e manteiga, mas nada para beber. Tenho dois filhos, porém eles são jovens demais para trabalhar. Eu puxava esses vagões, quando estava grávida. Conheci uma mulher que voltou para casa, se lavou, se deitou, deu à luz e retomou o trabalho menos de uma semana depois.

Tenho uma correia em volta da cintura, uma corrente que passa por entre as minhas pernas e ando sobre as mãos e os pés. O caminho é muito íngreme, e somos obrigados a segurar urna corda - e quando não há corda, nós nos agarramos a tudo o que podemos. Nos poços onde trabalho, há seis mulheres e meia dúzia de rapazes e garotas; é um trabalho muito duro para uma mulher. No local onde trabalho, a cova é muito úmida e a água sempre cobre os nossos sapatos. Um dia, a água chegou até minhas coxas. E o que cai do teto é terrível! Minhas roupas ficam molhadas durante quase o dia todo. Nunca fiquei doente em minha vida, a não ser na época dos partos.

Estou muito cansada quando volto à noite para casa, às vezes adormeço antes de me lavar. Não sou mais tão forte como antes, não tenho mais a mesma resistência no trabalho. Puxei esses vagões até arrancar a pele; a correia e a corrente são ainda piores quando se espera uma criança.

(Extraído de um relatório parlamentar inglês, 1842. Em: Valéry Zangheilini, direção, Connaissance du Monde Contemporain, p. 110.)

Fordismo e Taylorismo



Administração científica é o empenho sistemático em analisar o trabalho para identificar a maneira mais eficiente de realizar uma dada tarefa. A teoria surgiu em 1911 na obra de F.W. Taylor (e daí ser freqüentemente chamada de taylorismo). Taylor comparou o corpo humano a uma máquina e realizou estudos lie tempo e movimento a fim de determinar o modo mais eficiente de utilizá-lo. O taylorismo esteve estreitamente relacionado ao desenvolvimento da produção em massa, em especial às linhas de montagem em fábrica introduzidas por Henry Ford, o fabricante americano de automóveis. O que veio a ser conhecido como fordismo separava os operários uns dos outros e dividia o processo de produção em uma série fragmentada de tarefas que podiam ser controladas com maior facilidade por supervisores e pela administração.

Críticos do capitalismo industrial consideram a administração científica como um dos principais instrumentos de controle dos operários, não apenas para aumentar a produtividade, mas também para solapar o poder dos sindicatos em relação à administração, ao privar os trabalhadores do controle sobre seu processo de trabalho.

Fonte: JOHNSON, Allan G. "Administração científica" in ___. Dicionário de Sociologia - Guia Prático da Lingagem Sociológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 5

As crises sociais e econômicas do capitalismo liberal


O nascimento do capitalismo foi marcado por graves crises econômicas e sociais. Elas atingem, inicialmente, a Inglaterra, pais que conheceu o primeiro capitalismo industrial, generalizando-se pela Europa.

As primeiras crises sociais do capitalismo colocam o mundo agrícola inglês as voltas com o cercamento dos campos, em seguida aparece a luta, antecipadamente perdida, entre os artesãos e a indústria; rapidamente, porem, a luta social opõe os operários aos capitalistas.

(...) A maioria dos operários são camponeses e artesãos arruinados; expulsos das terras e das aldeias, vivem em ignóbeis condições de alojamento e de promiscuidade. O artesão perde a sua antiga qualificação (...) Estamos na presença de uma verdadeira castração de talento. Todos eles são desenraizados, considerados pela burguesia como seres úteis, mas perigosos. Na Franca, o operário passa a ter uma carteira de trabalho que o submete ao controle da Polícia. Na Inglaterra, o operário que deixa seu patrão é passível de ser preso. As condições de trabalho são duras. A Jornada é de pelo menos 12 horas e não há férias nem feriados. O trabalho das mulheres e das crianças 6 a regra. Praticamente, as crianças começam a trabalhar desde a idade de seis anos. É preciso esperar pelos meados do século XIX para ver aparecer na França e na Inglaterra uma regulamentação quanto ao trabalho da mulher e das crianças.

(...) no século XIX o ritmo da alteração econômica, no referente a estrutura da indústria e das relações sociais, o volume de produção e a extensão e variedade do comércio mostrou-se inteiramente anormal, a julgar pelos padrões dos séculos anteriores; tão anormal a ponto de transformar radicalmente as idéias do homem sobre a sociedade, de uma concepção mais ou menos estática de um mundo onde, de uma geração para a outra, os homens estavam fadados a permanecer na posição de vida que lhes fora dada ao nascimento e onde o rompimento com a tradição era contrario a natureza, para uma concepção de progresso como lei da vida e da melhoria constante como estado normal de qualquer sociedade sadia. (...)

Fonte: CASTRO, Ana Maria, DIAS, Edmundo Fernandes (org.) Introdução ao Pensamento Sociológico – Emile Dürkheim, Max Weber, Karl Marx e Talcott Parsons. São Paulo: Centauro, 2002, p. 6-7.

Algumas razões do pioneirismo inglês na Revolução Industrial



A Inglaterra foi pioneira na industrialização. Isso ocorreu porque esse país concentrava condições favoráveis para o desenvolvimento da produção industrial:

• Tinha grande reserva de capitais oriundos da exploração colonial;

• Possuía um Estado afinado com os interesses do Capitalismo inglês, responsável por criar uma legislação favorável aos negócios burgueses, principalmente após a Revolução Gloriosa de 1688;

• O cercamento dos campos, que substituiu a antiga produção agrícola feudal pela criação de ovelhas, foi responsável pela formação de um mercado fornecedor de matéria-prima têxtil (a lã) e do primeiro grupo de operários, formado por trabalhadores que, expulsos do campo, iam para as cidades em busca de outros meios de sobrevivência;

• Finalmente, possuía grandes reservas de carvão, um dos mais importantes combustíveis dos primeiros tempos da industrialização.

Fonte: PETTA, Nicolina Luiza de, OJEDA, Eduardo Aparício Baez. Hitória – Uma Abordagem Integrada. São Paulo: Moderna, s/d, p. 115.

Revolução Industrial


Este quadro abaixo é um esquema das duas primeiras fases da Revolução Industrial. Basta clicar em cima para visualizar.


Se preferir baixar o arquivo em formato *.doc (Word) e bem maior, claro, é só clicar aqui.

quinta-feira, agosto 21, 2008

2º Bimestre: Católicos e Protestantes no Século XVI



(Prometi colocar esse post para o início por causa da recuperação)

O quadro abaixo é um esquema que mostra simplificadamente a situação de católicos e protestantes na Europa do século XVI. Clique na figura e salve para estudar para a AE ou VI. Só esclarecendo alguns pontos, sobre a questão a "livre interpretação", ela é chamada pelos protestantes de "sacerdócio universal". Quanto a Eucaristia (Ceia do Senhor), havia também a discussão sobre se ela deveria ser para todos os fiéis ou se somente o sacerdote deveria beber o vinho. Enfim, o quadro é simplificado, como bem expliquei.

terça-feira, agosto 19, 2008

Mineração: Gráficos


Esses gráficos podem ser úteis para vocês. O primeiro mostra a produção de ouro ao longo do século XVIII. Vejam que ela sobe muito e depois começa a cair rápido. O segundo mostra a desproporção entre população masculina e feminina na região das minas. Estejam atentos também à população parda e negra livre.

sábado, agosto 16, 2008

Quilombo dos Palmares e Outros Quilombos



AS RESISTÊNCIAS À ESCRAVIDÃO

Nem sempre os escravos, africanos ou crioulos, aceitaram se integrar à sociedade escravista brasileira, enquadrando-se em algum tipo de relação com seus senhores. Também foram várias as formas de resistir à escravidão que encontraram, seja negando-a totalmente pela fuga, seja negociando melhores condições de vida e trabalho.

Fugir era o recurso mais radical que os escravos tinham para escapar da servidão. E eram muitos os que fugiam. Para os sertões, se embrenhando nos matos, ou para os arredores das cidades, se escondendo em lugares de difícil acesso. Fugiam juntos ou sozinhos, seguindo um plano ou aproveitando uma oportunidade inesperada.

Os agrupamentos de escravos fugidos eram chamados de quilombos, e podiam ter algumas poucas pessoas, dezenas, centenas, ou até milhares de moradores, como chegou a ter Palmares, o maior quilombo que existiu no Brasil e o que mais tempo durou.

O quilombo de Palmares foi o mais estudado e sobre o qual temos mais informações até agora, e mesmo assim ainda sabemos muito pouco sobre ele. Começou a ser formado nos primeiros anos do século XVII, e só foi completamente destruído em 1694. O pouco que sabemos sobre seu cotidiano e sua organização o liga aos povos bantos da região de Angola. As técnicas de guerrilha empregadas contra as expedições que tentavam acabar com o quilombo, ou nos ataques que os quilombolas faziam a fazendas e viajantes, eram semelhantes às usadas pelos imbangalas, assim como a construção de cidadelas defendidas por paliçadas e fossos cheios de estrepes.

Foi no século XVII que aconteceram as guerras dos portugueses contra os povos de Angola que opunham resistência à penetração do seu território, e muitos dos prisioneiros que delas resultaram foram vendidos para o Recife, onde os engenhos de açúcar precisavam de braços. Assim, não era de estranhar a predominância de escravos bantos nos engenhos de Pernambuco, que ao se verem livres novamente buscavam reproduzir as formas de vida que tinham antes da captura. Nas aldeias do quilombo viviam também alguns índios e mesmo brancos, misturados à variedade de africanos e crioulos, mas os nomes bantos dos chefes indicam quem ditava as regras entre os quilombolas. Também não custa lembrar que quilombo era o nome dos acampamentos dos imbangalas, povo essencialmente guerreiro que, provavelmente, quando escravizado, não se conformou com essa situação.

Palmares, que se espalhava por terras cheias de palmeiras, era composto por um conjunto de aldeias subordinadas a uma delas, onde estava o principal chefe. Cada aldeia tinha o seu chefe, que fazia parte do conselho, que governava todos. Tal estrutura política, como vimos, era comum na África centro-ocidental, onde confederações de aldeias formavam províncias, que formavam reinos, para usarmos a terminologia européia que primeiro descreveu essas organizações políticas.

Em 1678 quem governava Palmares era Ganga Zumba, que mesmo tendo derrotado mais uma expedição contra o quilombo aceitou negociar um acordo de paz com o então governador de Pernambuco, Aires de Souza e Castro, que estava de posse de alguns parentes seus capturados no último embate militar. Seu povo teria terra para viver (no Cucaú, ao norte do atual estado de Alagoas), poderia comerciar com seus vizinhos e os nascidos no quilombo seriam reconhecidos como súditos livres do rei de Portugal. Esse acordo não foi aceito por todos os palmarmos, e, liderados por Zumbi, os adversários de Ganga Zumba o envenenaram. Logo em seguida, os que haviam se mudado para o Cucaú foram re-escravizados, enquanto no sertão Zumbi passou a liderar Palmares, que foi finalmente destruído por uma expedição chefiada por Domingos Jorge Velho, paulista com vasta experiência em capturar índios no sertão, que se dispôs a atacar o quilombo em troca de um quinto dos prisioneiros obtidos na expedição e parte das terras ocupadas pelos palmarinos.

Palmares e Zumbi se tornaram importantes símbolos da resistência contra a escravidão, sendo o exemplo mais espetacular de um tipo de ação largamente adotada pelos escravos por todo o período escravista. (...)

OS VÁRIOS TIPOS DE QUILOMBOS

Em todas as regiões onde existiram escravos, existiram quilombos, que eram maiores quando ligados aos centros econômicos mais dinâmicos. Palmares e outros quilombos do Nordeste estão ligados à economia do açúcar, e os quilombos de Minas Gerais, entre os quais se destaca o do Ambrósio, ligam-se à economia mineradora. Goiás, para onde os escravos também foram levados para trabalhar nas minas, abrigou muitos quilombos, que também existiram no Maranhão, no Pará, no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. No século XIX havia vários quilombos relativamente próximos às principais cidades da época, como o de Iguaçu, protegido por rios e mangues, que fornecia parte da lenha consumida no Rio de Janeiro, o do Buraco do Tatu, em Itapoã, nas cercanias de Salvador, ou o do Malunguinho, nas cercanias do Recife, que por mais de 15 anos resistiu às investidas contra ele, sendo uma constante ameaça à segurança de alguns moradores da cidade, enquanto outros tinham laços de solidariedade e de comércio com os quilombolas, entre os quais havia índios e procurados pela lei.

No final do século XIX apareceu um outro tipo de quilombo localizado nas cercanias das cidades, onde escravos fugidos eram favorecidos por abolicionistas, que protegiam os quilombos, davam trabalho a seus moradores e ajudavam mais escravos fugidos a se instalar neles. O maior de todos esses quilombos foi o do Jabaquara, na serra de Cubatão, perto do porto de Santos, fundado por abolicionistas e que recebia grande parte dos escravos que fugiam em massa das fazendas de café do oeste paulista. A ele se uniu um quilombo mais antigo, conhecido como Vila Matias, que apesar de não estar ligado ao abolicionismo em sua origem a ele somou suas forças.

No Rio de Janeiro, o quilombo do Leblon, formado em terras de um comerciante abolicionista que usava os moradores para cuidarem de uma plantação de camélias, foi mais importante pelo lugar simbólico que ocupou do que pela quantidade de escravos fugidos que abrigou. A camélia se tornou um símbolo do movimento abolicionista e foi um ramalhete vindo das plantações do Leblon que foi ofertado à princesa Isabel logo após a assinatura da lei que aboliu a escravidão no Brasil. No quilombo do Leblon, grupos de jornalistas e intelectuais passaram algumas noitadas em companhia dos negros, ouvindo suas músicas e suas danças. Mais tarde, no século XX, essa cultura seria valorizada por outros intelectuais, que introduziriam a música dos negros nos meios de classe média urbana e elegeram o samba como o gênero musical mais expressivo da identidade brasileira.


Fonte1: SOUZA, Marina de Mello e Souza. África e Brasil Africano. São Paulo: Ática, 2006, p. 97-98.
Fonte2: A imagem veio do site
Opinião de Ipiaú.

Proibição das Manufaturas no Brasil



Alvará de D. Maria I


“EU, A RAINHA, faço saber aos que este alvará virem:

Que sendo-me presente o grande número de fábricas, e manufaturas, que de alguns anos a esta parte se tem difundido em diferentes Capitanias do Brasil, com grave prejuízo para da cultura, da lavoura e da exploração das terras minerais daquele vasto continente: porque havendo nele uma grande e conhecida falta de população é evidente que quanto mais se multiplicar o número dos fabricantes mais diminuirá o dos cultivadores; e menos braços haverá, se possam empregar no descobrimento e rompimento de uma grande parte daqueles extensos domínios, que ainda se acha inculta e desconhecida (...)

Hei por bem ordenar que todas as fábricas, manufaturas, ou teares de galões, ou de bordados de ouro e prata: de veludo, brilhante, cetins, tafetás, ou de outra qualquer qualidade (...) excetuando-se tão-somente aqueles dos ditos teares, e manufaturas, em que se tecem, ou manufaturam, fazendas grossas de algodão, que servem para o uso, e vestuário dos negros, para enfardar, e empacotar fazendas, e para outros ministérios semelhantes, sejam extintas, e abolidas em qualquer parte onde se acharem nos meus domínios do Brasil debaixo de pena de perdimento (...).

Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 5 de janeiro de 1785."
P.S.: Essa página é do livro D. João Carioca. Comentei sobre ele aqui.

Os Tratados de Limites



* O Tratado de Lisboa (1681):

- tratou da devolução da Colônia do Sacramento,[2] ocupada pelos espanhóis no ano de sua fundação. O apoio da Inglaterra foi decisivo para Portugal conseguir essa vitória diplomática. A saída das forças espanholas só se dá efetivamente em 1683.

* Tratados de Utretch:

- são firmados por conta dos desdobramentos da Guerra de Sucessão ao Trono de Espanha (1702-1714) que contrapôs o Rei da França, que desejava seu neto – Filipe V – no trono espanhol e a possibilidade de unir as duas coroas e a Inglaterra que se aliou à Áustria, Holanda para impedir os planos franceses. Portugal foi arrastado para o conflito pela Inglaterra e foi nesse contexto que se assinou o Tratado de Methuen ou Tratado de Panos e Vinhos (1703). Não vamos falar aqui dos ganhos obtidos pela Inglaterra com os tratados, mas das relações entre Portugal e Espanha.

- O Primeiro Tratado de Utrecht entre Portugal e França (1713) estabeleceu as fronteiras portuguesas do norte do Brasil: o rio Oiapoque foi reconhecido como limite natural entre a Guiana e a Capitania do Cabo do Norte. A França reconhece o direito de Portugal à bacia do Amazonas.

- O Segundo Tratado de Utrecht entre Portugal e Espanha (1715) tratou da segunda devolução da Colônia de Sacramento a Portugal.

* O Tratado de Madri (1750):

- redefiniu as fronteiras entre as Américas Portuguesa e Espanhola, anulando o estabelecido no Tratado de Tordesilhas: Portugal garantia o controle da maior parte da Bacia Amazônica, enquanto que a Espanha controlava a maior parte da baixa do Prata. Neste Tratado, o princípio da usucapião (uti possidetis), que quer dizer a terra pertence a quem a ocupa, foi levado em consideração pela primeira vez. É o tratado que define as fronteiras aproximadas do Brasil até nos nossos dias.

* Tratado de El Pardo (1761):

- anulava o Tratado de Madri e a Colônia do Sacramento voltava para Portugal.

+ Guerras Guaraníticas (1754-1777)[1]:

- revolta dos índios de Sete Povos das Missões liderados pelos jesuítas. É preciso lembrar que o Marquês de Pombal irá expulsar os jesuítas do Brasil em 1759 e mover forte perseguição à ordem religiosa.

- Motivos: os jesuítas não concordavam com a entrega de Sete Povos das Missões para os portugueses e os índios suspeitavam de uma possível ocupação de suas terras e da escravização.

- Repressão Portuguesa: a população de Sete Povos das Missões foi chacinada pelas tropas portuguesas.

* Tratado de Santo Ildefonso (1777):

- a Colônia do Sacramento e Sete Povos das Missões foram devolvidos para a Espanha em troca da Ilha de Santa Catarina.

* Tratado de Badajós (1801):

- confirmava os limites estabelecidos pelo Tratado de Madri.


[1]Para uma visualização do conflito, sugiro que você assista o filme A Missão ou o início da minissérie Global O Tempo e o Vento, baseada na obra de Érico Veríssimo, em especial o primeiro livro da trilogia, o Continente.
[2] Para a fundação da Colônia de Sacramento, visite
este site.

A Guerra Guaranítica



O território dos Sete Povos das Missões, destinado a Portugal pelo Tratado de Madri, era habitado por índios guaranis aculturados sob a administração de jesuítas castelhanos. Nos termos do tratado todos eles deveriam abandonar a região e se transferir para o lado ocidental do rio Uruguai para que os portugueses pudessem tomar posse da terra.

Entretanto, os indígenas, liderados pelo cacique Sepé Tiaraju e com o apoio de jesuítas, se recusaram a sair do território e pegaram em armas para resistir às tropas luso-espanholas enviadas de Buenos Aires e do Rio de Janeiro com o objetivo de enfrentá-los. Em seguida, entre 1753 e 1756 houve uma sucessão de conflitos, que ficaram conhecidos como Guerra Guaranítica. Ao final do confronto, as missões foram destruídas e os indígenas derrotados, dispersaram-se pela região.

Fonte: FIGUEIRA, Divalte Garcia. História. 2ª ed. São Paulo: Ática, 2005, p. 190.

terça-feira, julho 08, 2008

Futura traz série completa sobre d. João



Um quadrinho pode ensinar História? Pode, sim! Com certeza! São muitos os exemplos fora do Brasil, mas aqui a coisa ainda é rara. Torço para que os espaços se abram para jovens quadrinistas e historiadores. No sábado eles exibiram um making off com os dubladores, os autores, não vi tudo, mas a parte que assisti foi excelente. Decidi comprar o quadrinho. A matéria que segue saiu na Folha de São Paulo e lá embaixo a sinopse do livro.

Televisão/Especial

Futura traz série completa sobre d. João
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em meio à comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil e de todo o revisionismo que ela incita, a historiadora Lilia Schwarcz e o ilustrador Spacca propuseram contar o período pela linguagem dos quadrinhos em "D. João Carioca - A Corte Portuguesa no Brasil (1808-21)" (Companhia das Letras).

Baseado no livro, o canal Futura exibe desde março "Dom João no Brasil". Na série de 12 programetes, os desenhos originais ganharam vida com movimento de câmera, recursos de videografismo, trilha sonora e dublagem -que inclui o sotaque lusitano.

E, se não chegam a ser um desenho animado em seu formato mais tradicional, os programetes fazem uma boa transposição do livro para a TV. Hoje, o Futura reúne todos os episódios em um único programa, que traz ainda um making of sobre o processo de animação das ilustrações do livro.

Permeado por humor, "Dom João no Brasil" começa ainda em Portugal, com a notícia de que Napoleão dará um mês aos portugueses para que fechem seus portos aos ingleses, levando dom João a cogitar a mudança da corte ao Brasil.

O programa segue narrando os principais fatos dos 13 anos em que dom João esteve bem à vontade em terras brasileiras.
(BRUNA BITTENCOURT)


DOM JOÃO NO BRASIL
Quando: às 19h30
Onde: no Canal Futura; classificação livre


D. João Carioca: a Corte Portuguesa no Brasil(1808-21)
SPACCA;LILIA MORITZ SCHWARCZ

Há quem diga que d. João gostou tanto do Brasil que por aqui foi ficando. Mesmo depois que os franceses foram expulsos de Portugal, que aconteceu o Congresso de Viena, que a paz foi decretada e a guerra chegou ao fim, o príncipe português preferiu não voltar a ocupar o seu trono em Portugal.Na nova capital do Império, sediada no Rio de Janeiro, o príncipe regente reproduziu a pesada estrutura portuguesa, criou instituições e escolas, fundou jornais e o Banco do Brasil. Além do mais, encontrou um belo lugar para morar ? a Quinta da Boa Vista , onde ficava apartado da esposa, Carlota Joaquina, que vivia em Botafogo. Esqueceu da guerra, sarou da gota e aproveitou o clima e as frutas dos trópicos. Acomodou-se de tal maneira que virou um João carioca personagem popular de nossa história e cuja passagem pelo Brasil completa cem anos em 2008. Para lembrar dessa data especial, o cartunista Spacca e a historiadora Lilia Moritz Schwarcz narram a aventura da casa real que atravessa o oceano e pela primeira vez governa um império a partir de sua colônia americana.O livro reconta essa história usando a linguagem dos quadrinhos, elaborada com base em extensa pesquisa não só documental e historiográfica,como fielmente pautada na iconografia da época. A obra traz ainda uma bibliografia sobre o tema, uma cronologia que ajuda a entender os fatos no calor da hora e inclui uma galeria de esboços preliminares e estudos de personagens, cenários e vestimentas. D. João nunca foi tão brasileiro!

sexta-feira, julho 04, 2008

Gabarito da Prova


Segue o gabarito da prova integrada como eu prometi. H é História, P é Português e L é Literatura. Se tiverem dúvidas em alguma questão, usem os comentários deste post para tirá-las, OK?

segunda-feira, junho 30, 2008

Respostas da V.I.


Por que a colonização inglesa foi tão diversificada? Explique as diferenças entre as colônias.

– A colonização da América Inglesa foi tardia e movida por ações patrocinada por interesses privados. A ocupação das colônias se deu de forma diferenciada. No norte, o modelo foi de povoamento, com predomínio da mão-de-obra familiar, a pequena propriedade e o cultivo – por causa do clima – de produtos semelhantes aos cultivados na Europa. Os colonos do norte eram em sua maioria puritanos e vieram fugindo das perseguições religiosas com o objetivo de fundar uma nova nação. As colônias do Sul também foram ocupadas em sua maioria por colonos que buscavam um novo lar – como os huguenotes franceses – mas o clima favorável possibilitou o estabelecimento da plantation, primeiro do tabaco, depois do algodão. As colônias do centro seguiram principalmente o modelo do norte, mas com maior diversidade e tolerância religiosa. A Inglaterra não submeteu as suas colônias aos rigores do pacto colonial (*não por falta de interesse, mas por falta de possibilidades*), e as colônias se autogovernavam (*self-government*).

Como funcionava o sistema de Encomienda? Qual o seu objetivo?

– Nas colônias espanholas, particulares (encomienderos) recebiam da Coroa lotes de nativos para trabalhar vitaliciamente nas lavouras e nas minas. O objetivo da encomienda, de acordo com seus idealizadores, era promover a evangelização dos índios, porém muitos senhores os maltratavam e não providenciavam a sua cristianização. Por conta disso, o sistema foi duramente criticado por alguns membros da Igreja.

Diferencie colônia de povoamento de colônia de exploração. Se o Brasil fosse colonizado por outra nação moderna o modelo implantado aqui seria diferente? Justifique.

– A colonização da América foi marcada por dois modelos, as colônias de povoamento e de exploração. As colônias de exploração eram marcadas pela plantation, isto é, por terem condições favoráveis, nelas foi implantada a grande lavoura com mão-de-obra escrava voltada para a exportação. Muitos dos colonos que iam para essas colônias tinham o objetivo de fazer fortuna e voltar para a Europa. As colônias de povoamento foram estabelecidas em regiões de clima semelhante ao da Europa e nelas predominaram a pequena propriedade familiar, a policultura e o trabalho livre. Muitos dos que se estabeleceram nestas colônias tinham como objetivo construir uma nova nação, pois eram perseguidos em seus países de origem. Se o Brasil tivesse sido colonizado por outra nação, muito provavelmente o modelo seria o mesmo, pois a colônia apresentava as condições ideais para o estabelecimento da plantation e todas as nações que tiveram colônias tropicais e subtropicais usaram do mesmo modelo.

Explique por que a Holanda foi a última nação a entrar na empreitada colonial. Por que Portugal foi a grande vítima dos ataques holandeses?

– Quando o movimento das grandes navegações começou a Holanda ainda era um território dependente do Sacro Império que na época era governado pelo monarca espanhol, Carlos V. Quando a Holanda entrou em guerra pela sua independência, levou a guerra para o mar, e como as coroas de Portugal e Espanha estavam unidas na chamada União Ibérica, os portugueses foram tratados como inimigos pela Holanda. As colônias portuguesas eram mais vulneráveis por serem litorâneas e Portugal perdeu territórios para a Holanda.

Por que a França questionou a partilha da América entre Portugal e Espanha?

Explique por que a França iniciou tardiamente a sua colonização na América.
– O rei francês Francisco I não considerou justo o tratado feito entre Portugal e Espanha com o apoio do papa dividindo o mundo conhecido de então e disse que desconhecia o “testamento de Adão” que servira de base para o acordo. Por conta disso, a França proclamou que estaria se guiando pelo princípio de utis possidetis, ou seja, a terra pertence a quem a ocupou. Mesmo assim, a França não priorizou as colonizações, pois estava enfraquecida por várias guerras e sempre mais ocupada com as questões européias.

Como funcionava o comércio Triangular? Por que ele contrariava o Pacto Colonial?

– O comércio triangular tinha como ponto de partida as colônias inglesas do centro e do norte, possibilitando a troca de produtos temperados por bens manufaturados ou matéria-prima para a produção de rum que era trocado na África por escravos. Na sua modalidade mais conhecida, o comércio triangular, as colônias inglesas do norte e do centro vendiam produtos temperados e compravam melaço da América Central, este produto era transformado em rum que era trocado por escravos, e estes últimos eram vendidos nas Antilhas. Todas essas atividades eram feitas sem a anuência da metrópole e evidenciam como era frouxo o pacto colonial imposto pela Inglaterra.

sábado, junho 14, 2008

2º BIMESTRE: Inácio de Loyola e a Companhia de Jesus

Inácio de Loyola (1491-1556), o fundador da Companhia de Jesus, espanhol de nascimento, fora pajem, tesoureiro-mor do rei Fernando, o Católico (1506-1517), depois gentil-homem na corte do vice-rei de Navarra. Ferido na batalha de Pamplona, em maio de 1521, é socorrido pelos franceses, seus vencedores, e reconduzido ao castelo de Loyola. Aí ocorre sua primeira experiência espiritual, com visões, conflitos íntimos muito fortes e chamados de Deus, os quais aparecem em seus sonhos.

Estando uma noite desperto, viu claramente uma imagem de Nossa Senhora com o santo Menino Jesus, com cuja visão, por espaço notável, recebeu consolação muito extraordinária, e ficou com tanto asco da vida passada, e especialmente de coisas da carne, que lhe parecia terem-lhe saído do ânimo todas as espécies que antes nele tinha pintadas. (Inácio de Loyola,'Relato do peregrino'. Apud Karl Rahner, op. cit., p. 53.)

Convertido, põe-se a andar como peregrino e mendigo. Começa a fazer pregações e, em Salamanca, acaba sendo chamado pela Inquisição, e ojuiz o proíbe de tratar de assuntos teológicos antes de ter concluído os estudos. Vai para Paris (1528) e lá permanece estudando e buscando agregar a si companheiros dispostos a adotar seu modo de vida: pobreza evangélica, trabalho de catequese com os pobres, ideal de missão, disciplina rígida.

Em abril de 1538, Inácio e mais nove companheiros são recebidos pelo papa Paulo III, que os submete a um exame público de doutrina, em que eles são aprovados. O papa lhes concede a faculdade de pregar e confessar no mundo inteiro e sem recorrer aos bispos locais. Em novembro do mesmo ano, o grupo resolve pôr-se à disposição da vontade do papa, vigário de Cristo:
[...] nos oferecemos ao Pontífice Supremo, enquanto senhor da messe* universal de Cristo, e, neste oferecimento, significamos-lhe que estávamos prontos a tudo o que resolvesse fazer de nós em Cristo.[...] Por que motivos nos ligamos com tal compromisso à vontade do Pontífice? É por sabermos que ele conhece melhor do que ninguém o que convém ao cristianismo universal. (Fabro, carta a Diogo de Gouvea, 23 de novembro de 1538. Apud André Ravier S. J., Santo Inácio funda a Companhia de Jesus, p. 24.)

A Companhia de Jesus

Inácio e seus companheiros se envolvem em inúmeras atividades em Roma, especialmente com a instrução e com a catequese, e logo começam a ser solicitados a outras missões: Carlos V os quer para as índias espanholas; D.João III deseja enviá-los às índias portuguesas; os bispos e príncipes do norte da Itália os solicitam a seus domínios; o arcebispo de Sena os quer para a reforma de um mosteiro; o cardeal de Parma e Placência necessita deles para efetuar uma reforma nos costumes destas cidades...

O grupo apresenta sinais de separação definitiva, o que preocupa os companheiros. Eles deliberam longamente e apresentam em setembro de 1539 um documento ao papa Paulo III, intitulado Prima Societatis Jesu Instituti Summa, propondo a criação de uma ordem, a Companhia de Jesus. Um ano depois, em 27 de setembro de 1540, o papa Paulo III assina a bula Regimini militantis ecclesiae e funda oficialmente a Companhia de Jesus. Duas são as possibilidades de explicação para a designação "Companhia de Jesus":

Ao verem que não havia entre eles chefe nem superior, exceto Jesus Cristo, a quem queriam servir com exclusão de qualquer outro, pareceu-lhes bom tomar o nome daquele que tinham como chefe e chamar-se Companhia de Jesus. (Polanco, Summarium Hispanicum, 1547. Apud André Ravier S. J., op. cit., p. 21.)

O espírito militar de Inácio de Loyola e a ideia de uma ordem militante e missionária, que necessitava de uma organização semelhante a um exército, também explicam a escolha dessa designação:

Saibam todos os companheiros e se recordem, não só nos primeiros tempos de sua profissão, mas todos os dias de sua vida, que esta Companhia inteira e cada um de seus membros combatem por Deus sob a fiel obediência a nosso Santíssimo Padre Paulo III e a seus sucessores.[...] (Prima Societatis Jesu Instituti Summa, 1539. Apud André Ravier S. J., op. cit., p. 101.)

Uma intensa atividade missioneira e militante e uma formação intelectual muito sólida foram duas das características dos padres da Companhia de Jesus, seguindo, inúmeras vezes, orientação expressa por Inácio de Loyola e registrada nos documentos de fundação da Companhia:

Todo aquele que pretender alistar-se sob a bandeira da cruz, na nossa Companhia, que desejamos se assinale com o nome de Jesus, para combater por Deus e servir somente ao Senhor e ao Romano Pontífice, seu Vigário na terra, depois do voto solene de perpétua castidade persuada-se que é membro da Companhia. Esta foi instituída principalmente para o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristãs, epara a propagação da fé, por meio de pregações públicas, do ministério da palavra de Deus, dos Exercícios Espirituais e obras de caridade e, nomeadamente pela formação cristã das crianças e dos rudes, bem como por meio de Confissões,buscando principalmente a consolação espiritual dos fiéis cristãos. [...] (Fórmula do Instituto da Companhia de Jesus, aprovada por Paulo III, 1539. Apud Karl Rahner, op. cit., p. 78.)

2º BIMESTRE: A Contra-Reforma e o Concílio de Trento

No final do ano de 1535, o papa Paulo III constituiu um grupo de conselheiros para estudar a grave questão da reforma doutrinal e espiritual da Igreja Católica. Esse grupo produziu um documento editado pela primeira vez em 1538, no qual se fazia uma avaliação muito severa da situação da Igreja. O documento atacava em primeiro lugar o emprego abusivo dos bens da Igreja pelo papa, que podia vender "benefícios", dispondo livremente do que era considerado seu. Na sequência, constatava-se a ignorância e a imoralidade do clero, especialmente em Roma.
O Concilio de Trento
Após muitas hesitações e desentendimentos entre o papa, bispos, reis e imperadores sobre o local de realização e quem participaria, abriu-se a 13 de dezembro de 1545 o Décimo Nono Concílio Ecumênico da Igreja Cristã, na cidade de Trento. Paulo III, com 80 anos, ficou em Roma e presidia o concílio a distância.

O Concílio de Trento teve uma existência longa e tumultuada: foi interrompido diversas vezes devido a guerras, desen tendimentos, uma peste que grassou na região e reduzido número de participantes. Iniciou sob o pontificado de Paulo III, continuou sob Júlio III (quando os protestantes também puderam participar), não se reuniu nenhuma vez durante o pontificado de Paulo IV, voltou a reunir-se e terminou a 4 de dezembro de 1563 com o papa Pio IV. Tomou deliberações que mexeram na estrutura do clero e governaram a Igreja durante séculos.
O Sagrado Concílio de Trento, juridicamente reunido pelo Espírito Santo [...], exorta os bispos e todas as pessoas da Igreja aqui reunidas a celebrar o concílio universal, que pretende louvar sempre a Deus, oferecer-lhe sacrifícios, glórias e preces, e a realizar o sacrifício da missa pelo menos aos domingos: naquele dia Deus criou o mundo, ressuscitou os mortos e manifestou o Espírito Santo em seus discípulos [...]

Nós os exortamos ainda a jejuar pelo menos cada sexta-feira, em memória da paixão de Nosso Senhor, e a dar esmolas aos pobres; e que na catedral todos os domingos celebre-se a missa do Espírito Santo com ladainhas e outras orações compostas para esse uso [...]

E que enquanto o serviço da missa se faça, não se converse, não se fale nada: mas que se a assista com espírito de oração.

Os bispos devem ser irrepreensíveis, sábios, castos e bons dirigentes de seus bispados; o concílio pede que cada um seja sóbrio em sua mesa e coma pouca carne. É também preciso que se acostumem a não falar de assuntos ociosos durante as refeições: o concílio ordena leituras santas e que cada um instrua seus empregados a não semearem a discórdia, não beberem e não serem imorais, cobiçosos, arrogantes ou blasfe-madores. Que logo abandonem os vícios e sigam as virtudes; que nas roupas e no vestuário e em todos os atos eles sejam honestos, como convém a um ministro de Deus.

Na concessão de indulgências o concílio decreta que todo lucro criminoso daí proveniente será inteiramente abolido, como fonte de abuso grave entre o povo cristão; e quanto a outras desordens originadas da superstição, da ignorância,da irreverência ou de qualquer causa que seja, o concílio impõe a cada bispo o dever de denunciar tais abusos desde que existam em sua própria diocese.
(Resoluções do Concílio de Trento, 1563. Apud José Jobson de Andrade Arruda, História moderna e contemporânea, p. 45.)
O Concílio de Trento reforçou o poder do papa, criou o Index, relação de livros proibidos à leitura dos cristãos, eliminou a comunhão de ambos os tipos (pão e vinho), mantendo apenas a comunhão do pão. Obrigou também os bispos a residirem em suas sedes, conservou os sete sacramentos, reforçou o Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), afirmou que somente a Igreja podia interpretar a Escritura e fixou regras para a formação e a vida dos padres (seminários) e dos regulares (clausura). Ao contrário dos protestantes, que defendiam uma cerimônia simplificada, salientou a importância da missa como sacrifício que renova o de Cristo, devendo ela ser realizada segundo ritual estabelecido pela Igreja:
Como a natureza humana não pode elevar-se facilmente às coisas divinas sem uma ajuda exterior dos sentidos, a Igreja, em sua bondade, instituiu diversos ritos: certas palavras da missa serão pronunciadas em voz baixa, outras em voz alta. A Igreja prevê cerimônias apropriadas, bênçãos, luzes, incenso, vestimentas e muitas outras coisas que procedem da disciplina e da tradição apostólicas. Por esses sinais visíveis da religião e da piedade, enquanto se recordam da majestade de tão grande sacrifício, os espíritos dos fiéis se elevam à contemplação das realidades celestiais ocultas neste sacrifício. (Resoluções do Concílio de Trento, 1563. Apud Miguel Artola, op. cit., p. 296-7.)
No debate sobre a salvação do homem, as posições se dividiam: enquanto uns afirmavam o livre-arbítrio, ou seja, que as boas obras feitas pelo homem o conduzem à salvação, outros defendiam que a salvação era obra unicamente da graça do Senhor, concedida segundo sua estrita vontade. Os teólogos rejeitavam Erasmo porque concedia demasiado ao homem, e Lutero porque lhe recusava tudo:
I — Se alguém disser que o homem se pode justificar para com Deus por suas próprias obras, [...] ou pela doutrina da lei, sem a divina graça adquirida por Jesus Cristo, seja excomungado.

IV — Se alguém disser que o livre-arbítrio do homem, movido e excitado por Deus, nada coopera [...] para alcançar a graça da justificação, dizendo que o homem é como um ser inanimado ou sujeito passivo, seja excomungado.

V — Se alguém disser que o livre-arbítrio do homem está perdido e extinto depois do pecado de Adão, ou que ele é um simples nome sem objeto, ou que ele é uma ficção introduzida pelo Demônio na Igreja, seja excomungado.
(Resoluções do Concílio de Trento, 1563. Apud Miguel Artola, op. cit., p. 296-7.)
O documento final terminou proclamando o livre-arbítrio, mas estabeleceu duas fases sucessivas na operação da graça:
Se a vontade humana, tocada pela misericórdia preveni-ente, faz um esforço para executar a vontade de Deus, então Deus lhe concede a verdadeira Graça, e, se o homem responde favoravelmente por suas boas obras, então ele a merece para a vida eterna. A Graça é necessária, mas não prejudica o livre-arbítrio, não é constrangedora. (Resoluções do Concílio de Trento, 1563. Apud Miguel Artola, op. cit.,p. 294-6.)

Trabalha como se tudo dependesse de ti; reza como se tudo dependesse de Deus. (Ditado popular da época. Apud Karl Rahner, Inácio de Loyola, p. 77.)
Ao longo de todo o concílio teve grande influência nas discussões teológicas um grupo de padres de sólida formação cultural, grande disciplina e intensa atividade militante, pertencente à recém-formada Companhia de Jesus — os jesuítas —, braço direito do papa.

2º BIMESTRE: Henrique VIII e a Igreja Anglicana

Em 1521, o rei inglês Henrique VIII publicou um livro em que atacava as idéias de Lutero, recebendo do papa, por isso, o título de Defensor Fidei. Mas as relações da Coroa com a Igreja se complicaram a partir de 1527, quando Henrique VIII começou a dar os primeiros passos no sentido de conseguir a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão. Catarina era princesa espanhola, filha de Fernão e Isabel, os reis católicos. Tinha vindo à Inglaterra em 1501, e havia se casado com o irmão mais velho de Henrique, que deveria ser o futuro rei. Artur e Catarina tinham 16 anos de idade. Artur morreu poucos meses depois, e seu pai, o rei Henrique VII, temendo que Catarina voltasse à Espanha levando de volta os 200 000 ducados que tinha trazido como dote, casou-a com o filho mais novo, Henrique, que seria depois o rei Henrique VIII. Henrique tinha 12 anos, e Catarina 18.

Inúmeras vezes a rainha engravidou, mas deu à luz natimortos ou crianças que morreram nas primeiras semanas de vida. A única exceção foi a filha Maria, nascida em 1516, que se tornaria a futura rainha Maria Tudor. Desejando um herdei¬ro masculino para o trono, Henrique VIII pediu ao papa a anulação de seu casamento com Catarina. O poder papal concedia tais separações e já havia precedentes. Mas o papa Clemente VII, fortemente pressionado pelo imperador Carlos V (Espanha e Sacro Império), iniciou uma série de manobras adiando ao máximo a decisão.

Ao mesmo tempo, as críticas à Igreja cresciam cada vez mais: chamavam-se os padres de "classe vadia", e os comerciantes pediam ao rei que diminuísse o poder e as rendas da Igreja.

Em novembro de 1529, reuniu-se uma nova seção do Parlamento inglês. Os grupos mais influentes (nobres na Câmara Alta e mercadores na Câmara dos Comuns) concorda-vam com dois pontos: redução da riqueza e do poder eclesiásticos e apoio ao rei em sua campanha em prol de um herdeiro masculino ao trono. Foram aprovadas algumas leis que impediam que o clero tivesse direito de cobrar taxas obituárias e taxas sobre a homologação de testamentos. Em 1531, Henrique VIII exigiu ser reconhecido pela Igreja como Protetor e único chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra. Com isso, cessaria o voto de obediência da Igreja inglesa ao papa. Após muitas discussões, a Igreja concedeu ao rei o título de Protetor e único chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra, enquanto permitir a lei de Cristo. Em 1532, reuniu-se um sínodo dos bispos ingleses, e ficou claro que a maioria deles estava ao lado do rei e contra o papa:
Possa ser do agrado de Vossa Graça mandar cessar essas injustas exigências que nos faz a Igreja de Roma. [...] E, no caso que o Papa queira instaurar um processo contra este reino para obter as anatas, possa agradar a Vossa Majestade ordenar no presente parlamento que se retire da Igreja de Roma a obediência de Vossa Majestade e do Povo. (Carta do sínodo dos bispos ingleses ao rei Henrique VIII, 1532. Apud Will Durant, op. cit., p. 460.)
Com essa garantia dada pelos bispos e cardeais ingleses, em 15 de janeiro de 1533 Henrique VIII casou-se com Ana Bolena, que já estava grávida de quatro meses. A cúpula da Igreja da Inglaterra reconheceu o divórcio do rei com Catarina de Aragão, sendo coroada rainha da Inglaterra Ana Bolena, em maio de 1533. Emjulho do mesmo ano, o papa Clemente VII declarou nulo o novo casamento, ilegítima a sua descendência e excomungou o rei. Em novembro de 1534, o Parlamento votou os Estatutos de Supremacia, nos quais se reafirmava a soberania do rei sobre a Igreja e o Estado na Inglaterra. Batizava-se a nova Igreja nacional com o nome de Ecclesia Anglicana (Igreja Anglicana) e davam-se ao rei todos os poderes sobre moral, organizações, credo e reforma eclesiástica, pode¬res que anteriormente cabiam à Igreja:
O Rei é o chefe supremo da Igreja da Inglaterra [...]. Nesta qualidade, o Rei tem todo poder de examinar, reprimir, corrigir tais erros, heresias, abusos, ofensas e irregularidades que sejam ou possam ser reformados legalmente por autoridade espiritual, a fim de conservar a paz, a unidade e a tranquilidade do Reino, não obstante todos os usos, costumes e leis estrangeiras, toda autoridade estrangeira [...]. (Ato de Supremacia, 1534. Apud Rubim S. L. Aquino, História das sociedades modernas às sociedades atuais, p.85.)
As Perseguições eligiosas
Em julho de 1535, as perseguições movidas por Henrique VIII contra os religiosos que não aceitavam a nova situação atingiram Thomas More, antigo conselheiro do rei e autor do livro Utopia, que perdeu a cabeça no cadafalso.

Da mesma forma que na Alemanha, na Inglaterra a Refor¬ma havia nascido nas cidades e encontrou resistências para se implantar nos campos, especialmente a partir do momento em que a Coroa começou a extinguir os mosteiros e entregá-los nas mãos de nobres e burgueses. Os monges dos mosteiros aliaram-se aos camponeses e, entre 1535 e 1538, inúmeras regiões da Inglaterra e da Escócia foram agitadas por rebeliões camponesas, duramente reprimidas pelo rei:
Nossa vontade é que, antes de recolherdes nossas bandeiras novamente, façais uma execução tão terrível de um bom número de habitantes de cada cidade, vila e aldeia que participaram dessa ofensa, que elas possam ser um espetáculo horroroso para todos os demais que, daqui em diante, quise-rem agir de modo semelhante [...] Como todas essas revoltas surgiram por solicitação e traiçoeiras conspirações de monges e cónegos daquelas regiões, desejamos que vós, nesses lugares que conspiraram e opuseram resistência, mandeis, sem piedade e formalidades, deter sem mais demora ou cerimônia todos os monges e cónegos que, de qualquer modo, forem culpados. (Ordens de Henrique VIII aos comandantes militares, 1537. Apud Will Durant, op. cit., p. 447.)
Por volta de 1540, todos os mosteiros e propriedades rurais da Igreja haviam passado para as mãos do rei, que os deu de presente a inúmeras famflias da aristocracia e da burguesia. Assim sendo, esses grupos se tornaram defensores ferrenhos da nova religião e inimigos da volta do catolicismo e da obediência ao papa.

A Igreja Anglicana conservou a estrutura e os dogmas da Igreja Católica, com pequenas alterações. Não foi feita uma reforma profunda nos costumes do clero, que passou a ser visto pela população como um aliado da Coroa, o que facilitou o surgimento e a disseminação de uma série de religiões puritanas e protestantes, normalmente perseguidas pelos reis ingleses seguintes.

2º BIMESTRE: Lutero e as rebeliões camponesas

As revoltas camponesas não eram raras na Europa. Oprimidos por altos impostos e obrigações feudais, as tensões eram permanentes. A partir de 1521, quando a excomunhão de Lutero condenou os protestantes à ruptura com Roma, as agitações cresceram entre os camponeses. Pregadores radicais como Thomas Munzer falavam contra o poder dos príncipes e as obrigações feudais. Em 1525, seus seguidores tomaram a cidade de Mulhausen e proclamaram o “Conselho Eterno”. Na região de Memmingen, 30 mil camponeses em armas ameaçavam a “ordem”. Eles produziram um documento, os “Doze Artigos” explicando os motivos de seu levante e o enviaram à Lutero. Lutero respondeu num panfleto que criticava tanto os senhores e príncipes como os camponeses, mas se mostrava ainda acolhedor com algumas demandas dos revoltosos:
Não temos ninguém a quem agradecer esta rebelião maligna a não ser vós, príncipes e senhores, e principalmente vós, bispos e padres e monges alucinados, cujos corações estão endurecidos contra o Santo Evangelho, embora saibais que é verdade e que não podeis desmenti-lo. Além disso, em vosso governo temporal, não fazeis outra coisa senão espoliar e roubar vossos súditos, para poderdes levar vida de esplendor e soberba, até o pobre povo comum não poder aguentar mais. Muito bem, então, uma vez que sois a causa desta ira de Deus, ela indubitavelmente cairá sobre vós, se não modificardes a tempo vossos métodos. Os camponeses estão reunidos, e isso pode resultar na ruína, destruição e desolação da Alemanha por duros assassínios e derramamentos de sangue, a menos que Deus seja levado por vosso arrependimento a impedi-lo [...] Não são os camponeses que se levantam contra vós, mas Deus mesmo.(...)

Escolhei, entre os nobres, determinados condes e senhores, e das cidades alguns conselheiros, e tratai desses assuntos e resolvei-os de maneira amistosa. Vós, senhores, abandonai vossa teimosia, e desisti de uma parte de vossa tirania e opressão, para que a pobre gente tenha ar e espaço para viver. Por sua parte, os camponeses deveriam deixar-se instruir,ceder e deixar passar alguns artigos que visam longe demais e alto demais. (Lutero, 'Exortação à paz', abril de 1525. Apud Will Durant, op. cit, p. 323.)
Thomas Munzer, uma das lideranças do movimento camponês, protestou publicamente, chamando Lutero de Dr. Mentiroso:
Então ele não vê que a usura e as taxas impedem que se tenha acesso à fé? Ele afirma que a palavra de Deus é suficiente. Então não vê que os homens que consomem todos os momentos da sua vida na luta pela sobrevivência não têm tempo para aprender a ler a palavra de Deus ? Os príncipes sangram o povo por meio da usura e contam como seus todos os peixes dos rios, os pássaros do ar e a erva dos campos, e o Dr. Mentiroso diz "Amém". Que coragem afinal é a dele, o Dr. Patinha de Gato, o novo Papa de Wittenberg, o Dr. Cadeira de Balanço, o sicofante amante dos banhos de sol? Ah, ele afirma que não deve haver revolta porque a espada foi entregue por Deus aos governantes. Mas o poder da espada pertence a toda a comunidade! (Thomas Munzer, carta pública a Lutero, 1525. Apud Henry Kamen, op. cit., p. 32.)
Lutero condena os camponeses
Os camponeses prosseguiram com a revolta, atacando castelos e cidades, distribuindo terras e alimentos. A rebelião espalhou-se tão depressa que em maio do mesmo ano já havia combates entre senhores e camponeses em inúmeras regiões da Alemanha. Lutero lançou então outro panfleto condenando severamente os camponeses o que resultou em um banho de sangue:
No primeiro livro não me aventurei a julgar os camponeses, uma vez que tinham oferecido deixar-se acomodar e instruir. Mas antes que eu me voltasse para eles, esquecendo seu oferecimento, entregaram-se à violência, e roubaram, enfureceram-se e agiram como cães enraivecidos. O que estão fazendo é obra do Diabo, e em particular é obra do arquidiabo [refere-se a Thomas Munzer] que governa em Mulhausen. Devo principiar apresentando-lhes seus pecados. Em seguida devo ensinar aos governantes como deverão conduzir-se nessas circunstâncias [...]
Qualquer homem contra o qual se possa provar sedição está fora da lei de Deus e do Império, de modo que o primeiro que puder matá-lo está agindo acertadamente e bem. Pois a rebelião traz consigo uma terra cheia de assassínios e derrama¬mento de sangue, faz viúvas e órfãos, e põe tudo de cabeça para baixo. Portanto, que todo aquele que puder, elimine, mate e apunhale, secreta ou abertamente, um rebelde. E como quando se tem de matar um cão raivoso, se não o matarmos ele nos matará, e um país inteiro conosco. [...]
O Evangelho não torna comuns os bens, exceto no caso daqueles que fazem por espontânea vontade, o que os Apósto los e discípulos fizeram nos Atos IV. Não pediram, como fazem nossos camponeses alucinados em sua fúria, que os bens dos outros — de um Pilatos ou de um Herodes — ficassem em comum, e sim seus próprios bens. Entretanto, nossos camponeses querem comunizar os bens dos outros homens, e que os seus próprios fiquem para eles. Que belos cristãos, esses! Acho que não sobrou nenhum diabo no inferno, transformaram-se todos em camponeses.[...] É uma ninharia para Deus o morticínio de um lote de camponeses, pois ele afogou a Humanidade inteira por meio do Dilúvio, e fez desaparecer Sodoma por meio do fogo. (Lutero, 'Contra as hordas salteadoras e assassinas de camponeses', maio de 1525. Apud Will Durant, op. cit., p. 326.)
Após inúmeros e sangrentos confrontos, os exércitos dos senhores e príncipes derrotaram os camponeses, assassinando milhares deles e muitos outros envolvidos, inclusive Thomas Munzer, uma das principais lideranças. Com isso, consolidou-se o poder dos príncipes e senhores, e a estrutura feudal ficou reforçada na Alemanha.

2º BIMESTRE: O Calvinismo

À medida que o luteranismo se espalhava e ganhava adeptos, também aumentavam as discordâncias e multiplicavam-se as novas visões dentro dele. Calvino nasceu na França, em 1509, e teve toda a sua formação voltada para o sacerdócio, estudando Latim, Teologia e depois Direito, sempre dentro de princípios católicos rigorosos. Mesmo assim, converteu-se ao luteranismo por volta de 1530, renunciando aos benefícios eclesiásticos que já havia conseguido. Teve que fugir da França e em 1536 fixou-se em Genebra, publicando neste mesmo ano uma obra em que expõe os princípios de sua teologia, cuja característica principal é a idéia da predesti¬nação:
Chamamos de predestinação ao eterno decreto de Deus com que Sua Majestade determinou o que deseja fazer a cada um dos homens: porque Ele não cria a todos em uma mesma condição e estado; mas ordena a uns a vida eterna e a outros a perpétua condenação. Portanto, segundo o fim a que o homem é criado, dizemos que está predestinado ou à vida ou à morte [...]Afirmamos pois (como a Escritura evidentemente o mos¬tra) que Deus constituiu em seu eterno e imutável desejo aqueles que Ele quis que fossem salvos e aqueles que desejou fossem condenados.Este desejo está fundado sobre a gratuita misericórdia divina, sem ter nenhuma relação com a dignidade do homem; ao contrário, o portão da vida eterna está fechado a todos aqueles que Ele quis entregar à condenação, e isso se faz por seu secreto e incompreensível juízo, o qual é justo e irrepreensível. (Calvino, Instituição da religião cristã, 1536. Apud Miguel Artola, op. cit., p. 277-8.)
A idéia da predestinação está amparada no dogma cristão da onisciência divina — Deus tudo sabe e tudo vê. Sendo assim, Deus sabe, desde sempre, quem vai ser destinado à salvação e quem vai ser destinado à condenação (...)
O Calvinismo se ajustou bem aos interesses da burguesia nascente, pois justificava o lucro e a riqueza advindas do esforço e que estas seriam evidências da graça divina, defendia que o trabalho era uma missão do homem dada por Deus. Também, pregava que o fiel deveria se abster dos prazeres terrenos e da ostentação, o que conduziu oa capitais obtidos pelo trabalho a serem reinvestidos e não gastos em luxo. Genebra passou a ser conhecida como a "Roma do Protestantismo" acolhendo os perseguidos e oferecendo sólida formação aos novos pregadores. Nos mais diferentes países os calvinistas podiam ser encontrados, eram os huguenotes na França, os puritanos na Inglaterra, os presbiterianos na Escócia. As doutrinas calvinistas também influenciaram o Anglicanismo e outras denominações surgidas na segunda leva da Reforma.

2º BIMESTRE: Lutero e a Reforma Protestante na Alemanha


O Sacro Império Romano-Germânico

A Alemanha nesta época era constituída por uma série de territórios e cidades que possuíam administração independente e estavam ligados entre si numa forma que lembrava uma federação, reconhecendo apenas uma lealdade limitada ao chefe do Sacro Império Romano-Germânico. Alguns desses Estados — Baviera, Saxônia, Brandem-burgo, Áustria, Palatinado... — eram governados por duques, condes, margraves* ou outros senhores seculares; outros — Mogúncia, Halle, Colónia, Bremen, Estrasburgo, Salzburgo... — eram politicamente sujeitos, em graus variáveis, à autoridade de bispos e arcebispos. Por volta de 1460, uma centena de cidades havia recebido cartas de liberdade virtual de seus superiores leigos ou eclesiásticos. Os principados e as cidades livres enviavam representantes à Dieta Imperial, que debatia os problemas de todos. A Dieta de Eleitores era convocada para escolher o rei, e nela votavam o rei da Boêmia, o duque da Saxônia, o margrave de Brandemburgo, o conde palatino e os arcebispos de Mogúncia, Trier e Colônia. Essa escolha criava apenas um rei, que era reconhecido, depois de sagrado pelo papa, como imperador do Sacro Império Romano-Ger¬mânico. No fundo, essa organização se apresentava como uma frouxa associação entre Alemanha, Áustria, Boêmia, Holanda e Suíça.

A 15 de março de 1517, o papa Leão X promulgou a mais célebre de todas as indulgências: aquela que oferecia a remissão de todos os pecados a quem contribuísse para a construção da nova basílica de São Pedro em Roma, cuja obra havia sido iniciada pelo papa anterior,Júlio II. Reis e governantes de toda a Europa protestaram contra as constantes contribuições à Igreja de Roma, que empobreciam seus territórios. Onde os reis eram poderosos, o papa negociou com prudência: concordou que Henrique VIII retivesse um quarto dos lucros na Inglaterra, acertou a mesma coisa com Francisco I da França e concedeu um empréstimo ao rei Carlos I (que mais tarde vai ser o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico) contando com as coletas que seriam levantadas na Espanha. Na Alemanha, que não tinha uma monarquia forte para negociar e era extremamente próspera, o papa entrou em acordo com os Fugger, que eram banqueiros, e tentou extrair de lá todo o dinheiro que pudesse.

Lutero

Nesta época, Lutero era professor de Teologia na Universidade de Wittenberg. Nascido em Eisleben, em 1483, Lutero foi um aluno aplicado e recebeu, aos 22 anos, o grau de Doutor em Humanidades pela Universidade de Erfurt. Por influência do pai, começou a estudar Direito, mas logo desistiu e tornou-se monge. Essa decisão era fruto da atmosfera de inquietação, temores e angústia religiosa da época, que afetou profundamente Lutero, preocupado com a salvação de sua alma e com a tentação do pecado.

Durante os anos no convento e posteriormente como professor de Teologia na Universidade de Wittenberg, Lutero foi aperfeiçoando sua visão a respeito da salvação do homem e do pecado. Lutero era um admirador dos escritos de João Huss, herege queimado pela Igreja em 1415, especialmente de suas idéias sobre a liberdade da Igreja diante dos papas, sobre a liberdade de consciência individual diante do concílio e sobre a necessidade de reconduzir o mundo cristão à simplicidade apostólica. Numa carta de 1520, Lutero chega a afirmar que "todos somos hussitas sem o saber; São Paulo e Santo Agostinho são também perfeitos hussitas". (Lutero, carta de 1520. Apud Henry Kamen, Los caminos de la tolerância, p. 58.)

Lutero termina por convencer-se da impotência total e irremediável da vontade humana diante da onipotência da graça divina. O livre-arbítrio foi corrompido pelo pecado de Adão, e, por isso, somente a fé, que é a primeira das graças que Deus envia gratuitamente àqueles que escolheu, pode salvar-nos. As obras não têm importância para a salvação, elas são um simples sinal da graça de Deus. (...)

Estava iniciada a briga com Roma. As Noventa e Cinco Teses, escritas originalmente em latim, foram traduzidas para o alemão e tiveram ampla divulgação e aceitação. O papa Leão X ordenou a Lutero que fosse a Roma se retratar. Protegido por Frederico, Eleitor da Saxônia, Lutero encontrou-se em Augsburgo com o cardeal Cajetan (12 a 14 de outubro de 1518), enviado do papa, mas não se retratou.

Para o texto das 95 Teses de Lutero, sugiro a leitura do artigo do Professor Alexander Martins Vianna, na
Revista Espaço Acadêmico que analisa o documento e tem excelente qualidade.

Rompendo com Roma

Tendo recebido apoio de diversos lados, Lutero se decide a romper com a Igreja de Roma:

Atirei os dados. Agora desprezo a ira dos romanos tanto quanto sua proteção. Não me reconciliarei com eles por toda a eternidade[...] Eles que condenem e queimem tudo o que me pertence; em retribuição, farei o mesmo com eles [...] Agora já não tenho medo, e vou publicar um livro em língua alemã sobre a reforma cristã, dirigido contra o papa, em uma linguagem tão violenta como se me estivesse dirigindo ao Anticristo. (Lutero, carta a Spalatin, 1520. Apud Will Durant, op. cit., p. 295.)
Uma vez feito o rompimento, as críticas de Lutero ao papa e a toda a Cúria Romana aumentaram de intensidade:

Se Roma assim acredita e ensina com o conhecimento dos papas e cardeais (que eu espero não seja o caso), então nestes escritos declaro livremente que o verdadeiro Anticristo está sentado no templo de Deus e reina em Roma — essa Babilônia tinta de roxo — e que a Cúria Romana é a Sinagoga de Satanás [...] Se a fúria dos romanos assim continuar, não haverá outro remédio senão os imperadores, reis e príncipes, rodeados de força e armas, atacarem estas pestes do mundo, e não mais resolver o assunto com palavras e sim com a espada. [...] Se nós abatemos os ladrões com a forca, os salteadores com a espada, os hereges com o fogo, por que não atacarmos em armas esses senhores da perdição, esses cardeais, esses papas, e toda essa cloaca da Sodoma romana que corrompem sem cessar a Igreja de Deus, e lavarmos as mãos em seu sangue? (Lutero, 'Epítome', 1520. Apud Will Durant, op. cit., p. 295.)
A 15 de junho de 1520, Leão X publicou a bula Exsurge Domine, que condenava 41 declarações de Lutero e ordenava a queima pública de suas obras, dando-lhe 60 dias de prazo para ir a Roma abjurar seus erros, caso contrário seria excomungado. Lutero não foi e publicou um livro em que traça um programa de reforma religiosa:

Passou-se o tempo de calar, chegou o tempo de falar, como diz Eclesiastes. De acordo com nosso propósito, reuni algumas propostas para a melhoria do estamento cristão, para apresentá-las à nobreza cristã da nação alemã, caso Deus queira ajudar à sua Igreja através dos leigos, uma vez que o clero, a quem isto caberia com mais razão, se descuidou disso por completo [...]Com muita astúcia os romanistas se circundaram de três muralhas, com que até agora se protegeram, de sorte que ninguém os pôde reformar, razão por que toda a cristandade decaiu terrivelmente. Em primeiro lugar: quando se os apertou com poder secular, determinaram e disseram que o poder secular não tem direito sobre eles, e sim o contrário: o eclesiástico estaria acima do secular. Segundo: quando se os quis censurar com base na Sagrada Escritura, eles objetaram dizendo que a ninguém cabe interpretar a Escritura senão ao papa. Terceiro: quando ameaçados com um concílio, inventam que ninguém pode convocar um concílio senão o papa. Assim nos roubaram às ocultas as três varas, para poderem ficar impunes, e tomaram lugar na segura fortaleza destas três muralhas, para praticar toda sorte de vilanias e maldades que agora vemos. (Lutero, 'Carta aberta à nobreza cristã da nação alemã sobre a Reforma do Estado Cristão', agosto de 1520. Apud Martinho Lutero, Obras completas, v. 2, p. 279-81.)
Na sequência do documento, Lutero estabelece que não há verdadeira diferença entre o clero e a laicidade*, que qualquer cristão pode interpretar as Escrituras segundo suas próprias luzes e mostra que a Escritura não oferece justificativa alguma para o direito exclusivo do papa de convocar um concílio:

[...] todos os cristãos são verdadeiramente de estamento espiritual, e não há qualquer diferença entre eles a não ser exclusivamente por força do ofício [...] Assim pois todos nós somos ordenados sacerdotes através do Batismo [...]É por isto que, em caso de necessidade, cada um pode batizar e absolver, o que não seria possível se não fôssemos todos sacerdotes [...] Daí se segue que leigos, sacerdotes, bispos ou, como dizem, espirituais e seculares no fundo verdadeiramente não têm qualquer diferença senão em função do cargo ou da ocupação. Além disso, todos nós somos sacerdotes, como está dito acima. Todos temos uma fé, o mesmo Evangelho, o mesmo sacramento. Como não haveríamos de ter também o poder de perceber e de julgar o que seria correto ou incorreto na fé? (Id., ibid., p. 282.)
Lutero excomungado

Em 3 de janeiro de 1521, o papa excomungou-o definitivamente por intermédio da bula Decet Romanum Pontificem. Lutero recebe o apoio dos príncipes alemães, que viam na Reforma a possibilidade de romper com a submissão financeira a Roma e tomar as propriedades da Igreja na Alemanha:

Alguns calcularam que todos os anos mais de 300.000 florins encontram o caminho da Alemanha para a Itália. Aqui chegamos ao âmago da questão. Por que é que os alemães têm de suportar tal assalto e tal extorsão de suas propriedades para as mãos do papa? (Lutero, 'Carta aberta à nobreza cristã da nação alemã sobre a Reforma do Estado Cristão', agosto de 1520. Apud Will Durant, op. cit., p. 296.)
Os príncipes tinham muito a ganhar com isso, uma vez que a Igreja Católica alemã era excepcionalmente rica:

A avareza, pecado habitual da época, transparecia entre o clero de todas as ordens e condições, em seu afã de aumentar ao máximo todas as rendas e aluguéis, taxas e emolumentos. A Igreja alemã era a mais rica da cristandade. Todo mundo sabia que quase um terço da propriedade territorial do país estava nas mãos da Igreja, o que tornava ainda mais condenável as autoridades eclesiásticas quererem aumentar sempre suas posses. Em muitas cidades os edifícios e instituições clericais cobriam a maior parte do terreno. (Johannes Janssen, Catholic Encyclopedia, s.d. Apud Will Durant, op. cit., p. 277.)