segunda-feira, dezembro 05, 2011

Cinema & História – Bibliografia Comentada



Um amigo me pediu bibliografia sobre Cinema, Quadrinhos e História. Falta a parte de HQs, mas aproveitei meu pé torcido e a prisão domiciliar para listar e comentar tudo o que eu tenho de Cinema & História em casa. Sei que há vários outros materiais no mercado e tenho pelo menos mais um ou dois livros que não consegui achar para incluir na lista. Há desde livros muito específicos, até material que pode ser lido sem dificuldade por um público mais amplo. Segue a lista:

ADELMAN, Miriam, et al. (orgs.). Mulheres, Homens, Olhares e Cenas. Curitiba: UFPR, 2011. – O livro utiliza a categoria gênero na análise de vários filmes, os artigos são tanto sobre filmes específicos, quanto sobre a cinematografia de diretoras e diretores (ex.: Jane Campion), ou sobre como questões como família, prazer, sexualidade, etc. são apresentadas em vários filmes. Excelente material.

BARROS, José D'Assunção, NÓVOA, Jorge (org.) Cinema-História: Teoria e Representações Sociais no Cinema. 2ª ed. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008. – O livro traz artigos teóricos e outros sobre filmes ou épocas específicas do cinema usando representação social como instrumento de análise. Ótimo material para quem deseja ler textos que mostrem como é possível para historiadores discutirem cinema buscando analisar as representações sociais presentes nos filmes.

CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito – A História no Cinema. Rio de Janeiro: Record, 1997. – Coletânea de artigos escritos principalmente por historiadores americanos e britânicos, aborda filmes cronologicamente, além de trazer entrevista com cineastas e uma introdução sobre as possibilidades de interação entre cinema e história. A perspectiva do filme escapa em alguns momentos daquilo que vemos como história no Brasil. O primeiro artigo, por exemplo, é sobre Jurassic Park. Há também a ênfase na história dos Estados Unidos a partir da Idade Moderna. Mas, no geral, é um bom livro com artigos que vão do bom ao excelente. é um livro que pode ser lido por qualquer um sem dificuldade.

FERRO, Marc. Cinema e História. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010. – Clássico da discussão entre cinema e história, Ferro foi um dos primeiros historiadores a valorizar essa mídia como fonte para trabalhos historiográficos. Livro clássico e fundamental.

KAPLAN, E. Ann. A Mulher e o Cinema – Os dois lados da câmera. Rio de Janeiro: Rocco, 1995. – Livro que foca na discussão do cinema como instrumento de disseminação de papéis de gênero tradicionais e opressão das mulheres e das possibilidades que de mudança proporcionadas pelo olhar feminista. Só não sou muito fã do viés da psicanálise.

KELLNER, Douglas, RYAN, Michael. Camera Politica – The Politics and Ideology of Comtemporary Hollywood Film. Indiana: Indiana University, 1990. – Livro que analisa o backlash na indústria cinematográfica norte americana na década de 1970, um movimento que dará destaque aos modelos conservadores de família, ao patriarcado, atacando os movimento feminista, a revolução sexual, os direitos das minorias, etc. A perspectiva do livro é fortemente marxista e os exemplos citados e os argumentos são muito contundentes.

___. A Cultura da Mídia. Bauru: EDUSC, 2001. – O livro de Kellner não é sobre cinema mas discute o uso político-ideológico do mesmo por parte dos movimentos conservadores dos anos 1980. Dentre os filmes analisados temos Rambo, Poltergeist e Ases Indomáveis. É quase uma continuação do livro Camera Politica.

MACEDO, José Rivair, MONGELLI, Lênia Márcia (org.). A Idade Média no Cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. – O livro foca, como seu nome mesmo diz, em filmes medievais. Além de artigos específicos sobre filmes, escritos por medievalistas brasileiros, o destaque é a Introdução do Prof. José Rivair Macedo intitulado Cinema e Idade Média: Perspectivas. Nele temos a discussão teórica das possibilidades e limites dos encontros entre cinema e história, dialogando com o clássico de Marc Ferro. Além disso, discute a presença da Idade Média nos filmes históricos e de fantasia.

MELEIRO, Alessandra. O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social. São Paulo: Escrituras, 2006. – Dissertação de mestrado da autora, trata do cinema iraniano atual e apresenta rica discussão teórica sobre as construções da tradição e o cinema como exercício político.

MOCELLIN, Renato. História e Cinema: educação para as mídias. São Paulo: do Brasil, 2009. – O livro é um resumo da dissertação de mestrado de Mocellin e mescla muito bem a discussão teórica com a experiência de sala de aula, além disso, traz análises de quatro filmes: 300, Tróia, Galadiador e Cruzada. Fininho, barato e muito bom.

NÓVOA, Jorge, FRESSATO, Soleni Biscouto, FEILGELSON, Kristian (org.). Cinematógrafo – Um Olhar sobre a História. Salvador/São Paulo: EDUFBA, UNESP, 2009. – Artigos teóricos e análises de filmes feitas por historiadores brasileiros e estrangeiros.

ROSENSTONE, Robert A. A História nos Filmes – Os Filmes na História. São Paulo: Paz & Terra, 2010. – Um dos melhores livros quando a questão é uma discussão teórica sobre os encontros e desencontros entre cinema e história. O autor discute os diferentes tipos de filmes, os preconceitos dos historiadores, e a possibilidade do cineasta ser ele (ou ela) também um historiador. Muito bom mesmo.

SOARES, Mariza de Carvalho, FERREIRA, Jorge (org.). A História vai ao Cinema – Vinte filmes brasileiros comentados por historiadores. 2ª ed. São Paulo: Record, 2006. – O título é auto-explicativo, historiadoras e historiadores brasileiros de renome, como Rachel Soihet, Sandra Jatahy Pesavento, Ronaldo Vainfas, etc., analisando filmes do cinema nacional brasileiro. Os artigos são bem acessíveis para um público mais amplo.

STEPHANOU, Alexandre Ayub. Cinema e História – Guia de Filmes. Porto Alegre: Gráfica Odisséia, 2010. – O autor é jornalista e doutor em História e faz reviews e análises de vários filmes e seu valor histórico. Sinceramente? Achei o livro muito superficial e sem argumentos claros. Elogiar o filme Olga e criticar Tempos de Glória é algo incompreensível para mim.

TEIXEIRA, Inês Assunção de Castro, LOPES, José de Sousa Miguel (org.). A Mulher vai ao Cinema. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. – O livro é parte de uma coleção da editora Autêntica que possui vários volumes com títulos como A Criança vai ao Cinema, O Jovem vai ao Cinema, entre outros. O livro é uma coletânea de artigos sobre vários filmes como Rosa Luxemburgo, Lanternas Vermelhas, As Horas, Frida, etc. Outro livro com artigos bem acessíveis, apesar das discussões teóricas mais complexas. E há o resto da coleção.

P.S.: Se você quiser comprar algum livro, peço que entre no meu outro blog e consulte os preços no Submarino e na Livraria Cultura, afinal, um dinheirinho sempre ajuda.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Filme rediscute a imagem da irmã de Mozart



"Irmã de Mozart", é assim que Nannerl – apelido de Maria Anna Walburga Ignatia Mozart - entrou para a história. Normalmente, ela é usada para ilustrar as limitações impostas às mulheres no século XVIII. Provavelmente, Nannerl era tão brilhante quanto o irmão, talvez mais (*Quem pode vir a saber?*). Foi exibida como criança prodígio junto com Mozart, tocou diante da realeza, mas ao atingir a puberdade foi empurrada pelo pai para os papéis de gênero mais tradicionais: filha submissa, esposa do homem que o pai escolheu, mãe. Passou a ser deixada para trás e proibida de tocar em público, Mozart elogia em cartas as composições da irmã, mas nada de seus trabalhos sobreviveu... Destruídos? Provavelmente. Viúva, pobre, tendo que sustentar filhos e sobrinhos, tornou-se professora de música para sobreviver. Acho louvável que se tente revisitar e rediscutir a figura de Nannerl e é isso que este filme francês de 2010 pretende fazer. O título original do filme em francês é "Nannerl, la soeur de Mozart". Não estreou no Brasil, nem deve estrear. Teremos sorte se sair em vídeo. Estou tentando baixar na net.

O título em inglês é "Mozart's Sister" e achei essa crítica que diz que o filme não consegue ser excelente por não se decidir sobre o que foi Nannerl se "(...) gênio, mártir, uma causa feminista, uma filha desapontada, uma mulher resignada ou tudo o que foi dito acima". Não vi mais que o trailer do filme, acho que nenhum filme precisa se decidir sobre coisa nenhuma, afinal, quem sabe o que foi Nannerl "de verdade"? Acho muito provável que ela tenha sido um pouco de tudo isso e uma demonstração de que não temos mais mulheres entre "grandes" (*com toda a carga de relativização que esse termo permite*) gênios da música, da filosofia, da ciência porque as práticas de supressão eram muito bem coordenadas e aplicadas. Nannerl para mim é um exemplo perfeito, ela poderia ser um gênio, mas submetida à condições de produção que impossibilitaram o desabrochar de todos os seus talentos.

domingo, outubro 30, 2011

PREVEST: Revolução Industrial



O Prof. Vicente (*Coordenador de História do 3º ano do Colégio Militar de Brasília*) pediu que eu disponibilizasse a aula de Revolução Industrial aqui no blog para os alunos e alunas do PREVEST. É a mesma do multimídia, só que em formato *.doc. Para baixar, é só clicar AQUI. O conteúdo pode ser utilizado por qualquer pessoa desde que a fonte seja citada.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Arqueólogos encontram o Ateliê mais antigo do mundo



Essa notícia está circulando faz vários dias e a Isto É trouxe um texto bem completo sobre a descoberta. Posto somente uma parte, quem qusier continuar lendo, visite a página da revista.
A maquiagem e as roupas coloridas remontam a uma época quase tão antiga quanto a do surgimento do próprio homem moderno. Muito antes da pintura nos olhos de Cleópatra, no Antigo Egito, o uso de minerais para colorir e proteger a pele, ou mesmo as roupas, era comum entre nossos ancestrais. Um novo estudo conclui que esse costume é bem anterior ao que imaginávamos. Arqueólogos descobriram uma espécie de ateliê na caverna Blombos, na África do Sul, onde, há 100 mil anos, humanos preparavam tintas à base de minerais. As evidências anteriores mais antigas eram de, pelo menos, 50 mil anos depois. O estudo foi divulgado na semana passada pela prestigiada revista científica “Science”.

A pesquisa, liderada pelo arqueólogo Christopher Henshilwood, da Universidade do Witwatersrand, em Johanesburgo, é baseada em artefatos encontrados em 2008 na caverna, localizada a cerca de 300 quilômetros da Cidade do Cabo. No local foram achados dois conjuntos de ferramentas de ossos, pedras e conchas. Além desses objetos, os arqueólogos encontraram vestígios de carvão e ocre – um tipo de terra ou pedra que contém óxidos vermelhos ou amarelos ou hidróxidos de ferro (que dão aspecto de ferrugem ao mineral).

De Olho no Vestibular: Cristãos perseguidos



Nos últimos dias a imprensa do mundo inteiro vem mostrando imagens das manifestações dos cristãos no Egito e da repressão promovida pelo novo governo. Desde a queda do regime ditatorial - e a substituição por outro que parece caminhar para algo semelhante - a situação dos cristãos é precária. A revista Isto É trouxe uma matéria sobre o assunto que pode ser tema dos próximos vestibulares:
Imagine um país onde a filiação religiosa deva constar no documento de identidade de todos os cidadãos, onde sua crença implique restrições para ocupar postos de trabalho, ter acesso à educação e se casar. No Egito, predominantemente islâmico, isso acontece e as principais vítimas da intolerância religiosa são os cristãos, que representam 10% da população. Na semana passada, o mundo testemunhou um derramamento de sangue no país. Vinte e cinco pessoas – a maioria fiéis coptas, como são chamados os cristãos que não seguem o Alcorão – morreram no domingo 9, no Cairo, em confronto com outros civis e o Exército. Tanques passavam por cima dos manifestantes sem dó. Carregando cruzes e imagens de Jesus, milhares de pessoas estavam nas ruas em um protesto inédito contra a opressão histórica patrocinada pelos muçulmanos. Os representantes do cristianismo se revoltaram depois de mais um incêndio sofrido por uma igreja copta. “A primavera no mundo árabe parece que acordou muita gente, inclusive os coptas”, diz o sacerdote católico Celso Pedro da Silva, professor emérito da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo.

Com o estado de insegurança que domina o Egito após a queda do ex-presidente Hosni Mubarak, em fevereiro, grupos muçulmanos tentam demarcar mais territórios em meio à indefinição do poder público. E os coptas, historicamente marginalizados pelo governo, estão levantando a voz. Há severas restrições – só para citar uma fonte de discriminação – para a construção e reformas de templos cristãos, patrulha que não ocorre entre os muçulmanos. Em solo egípcio há apenas duas mil igrejas perante as 93 mil mesquitas. Na quinta-feira 13, o papa Bento XVI manifestou-se no Vaticano: “Uno-me à dor das famílias das vítimas e de todo o povo egípcio, desgarrado pelas tentativas de sufocar a coexistência pacífica entre suas comunidades.” O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu proteção à minoria copta e afirmou estar profundamente preocupado com o Egito.

A intolerância religiosa contra os cristãos não ocorre só no Egito. Um levantamento feito, em maio, pela Comissão sobre Liberdade Religiosa Internacional dos Estados Unidos mostra quanto a violência anticristã está disseminada mundo afora. Na China, segundo a comissão, pelo menos 40 bispos católicos estariam presos ou desaparecidos. Na Nigéria, cerca de 13 mil pessoas teriam morrido em conflitos violentos entre muçulmanos e cristãos desde 1999. Mais: na Arábia Saudita, lugares de cultos não muçulmanos são proibidos e livros escolares seguem pregando a intolerância a outras etnias. Irã e Iraque também são citados. No primeiro, mais de 250 cristãos teriam sido presos arbitrariamente desde meados de 2010. Já o país vizinho registra uma das maiores quedas no número de cristãos da sua história – em oito anos, esse grupo caiu pela metade e soma, hoje, 500 mil. “Os atos de violência têm como objetivo pressionar a população a abandonar suas terras”, explica Keith Roderick, secretário-geral da Coalizão para a Defesa dos Direitos Humanos.

Infelizmente tem funcionado. O Oriente Médio, berço do cristianismo, era constituído, no início do século XX, por cerca de 20% de seguidores de Jesus Cristo. Estimam os especialistas que o povo cristão atualmente não represente nem 2% dos habitantes daquela região. O papa Bento XVI chama a investida dos muçulmanos de “conquista à base da espada”. No ano passado, o Sumo Pontífice manifestou-se a favor da libertação de uma paquistanesa cristã condenada à forca por blasfêmia, no Paquistão, país onde mais de 30 pessoas foram assassinadas com essa justificativa. Asia Bibi, então com 45 anos, teria dito ao ser insultada por mulheres muçulmanas: “O que Maomé fez por vocês? Jesus, pelo menos, sacrificou-se por mim”. Graças à pressão internacional, a pena não foi cumprida, mas Asia aguarda novo julgamento. Ela é a primeira mulher na história a receber uma pena de morte por conta de perseguição religiosa. Um título que nenhum país deveria se orgulhar.
Acredito que notícias semelhantes às do Egito não tardarão a vir da Líbia e da Síria, caso se derrube o regime. Isso acrescido do Iraque, claro, cujos cristãos passam por sérias restrições depois da invasão Norte Americana. Ainda que ditatoriais e violentos, vários dos regimes que foram derrubados pela Primavera Árabe garantiam minimamente os direitos das minorias. Talvez até por isso, o ódio contra grupos religiosos minoritários venha à tona. Embora nada justifique uma ditadura, se ela é laica ou assim quer parecer, conflitos religiosos são contornados, reprimidos, ou não existem. Já das ditaduras religiosas não se pode dizer o mesmo. A intolerância religiosa ou de raiz religiosa cresce no mundo, a perseguição aos cristãos é uma das duas faces, a islamofobia é outra, a homofobia, mais uma delas. Fiquem atentos aos noticiários, pois este é um tema quente.

Cientistas conseguem reconstruir DNA da doença



A peste negra, que matou mais de 50 milhões de europeus entre 1347 e 1351, é a grande referência para os que temem uma nova pandemia. No entanto, estudo publicado na revista “Nature” mostra que a devastadora bactéria medieval difere muito pouco das que circulam hoje no mundo – o que leva os cientistas a acreditar que as causas da tragédia residem mais em fatores socioambientais do que nas características genéticas da patologia. Essa conclusão só foi possível porque, coletando resíduos de sangue de quatro ossadas, os pesquisadores conseguiram reconstruir todo o genoma da peste. É a primeira vez que uma enfermidade antiga tem seu DNA inteiramente desvendado.

Fonte: Revista Isto É

quarta-feira, outubro 19, 2011

Entrevista do Cabo Anselmo para a Roda Viva


O Cabo Anselmo é uma das figuras mais controsersas (*e sinistras*) do período da Ditadura Militar no Brasil. Ele foi o entrevistado do retorno do programa Roda Viva na TV Cultura. A entrevista foi ao ar em 17 de outubro de 2011. Vale assistir:

domingo, outubro 16, 2011

Cinema & História: Alexandria (Agora)



Já assisti Ágora tantas vezes que é uma vergonha não ter resenhado ainda, eu até tinha feito um post quando soube do filme, tinha ficado super contente, e esperei ansiosamente por ele nos cinemas. A estréia nunca aconteceu. Assisti Ágora ou Alexandria a primeira vez sozinha em casa, depois que desisti de esperar que estreasse nos cinemas brasileiros (*vergonha terem mandado um filme tão bom direto para DVD*), já exibi para duas turmas da faculdade e para o terceiro ano no Colégio Militar, já revi pedaços que acho mais interessantes. Na verdade, Ágora é um filme que entrou na lista dos meus favoritos, mesmo com vários problemas históricos, mesmo com várias críticas, considero o filme excelente. Aliás, a película de Alejandro Amenábar é o melhor filme querem conheço para discutir história da ciência, afinal, as limitações impostas por dogmas não são um problema somente no campo religioso.

Para quem não conhece a história do filme, ele começa em Alexandria do Egito, a segunda cidade mais populosa do Império Romano, no fim do século IV, quando Teodósio I transforma o cristianismo em religião oficial do Estado. Hyphatia, filósofa, matemática, astrônoma e médica (*embora o filme não comente isso*), vivia e ensinava na prestigiosa escola da cidade. É através dos olhos de Hyphatia e de seu escravo Davos que assistimos a ruína do que tinha sobrado da velha ordem pagã, que luta para não morrer, e o nascimento de um mundo cristão cada vez mais intolerante. Davos é apaixonado pela filósofa, assim como Orestes, seu aluno e futuro prefeito da cidade. Depois da trágica destruição da escola de filosofia, o filme dá um salto no tempo e nos coloca em uma Alexandria cristã, nela Davos se tornou membro de um grupo de fanáticos cristãos, os parabolani, que estão a serviço do bispo, Cirilo, que quer ser o maior poder e autoridade da cidade, e para isso, precisa derrotar o prefeito. A forma mais direta é roubar dele a pessoa que mais ama, sua amiga e antiga mestra Hyphatia. O final do filme, claro, é trágico...

Como é baseado em uma história real, não é spoiler dizer que Hyphatia morre no final do filme. Ela é considerada por muitos a primeira mártir pagã e uma das temáticas chave do filme é a intolerância religiosa que destrói viras e o trabalho científico da protagonista. Primeiro, a intolerância de pagãos contra cristãos, quando esses já se tornavam uma força, depois, dos últimos contra quem quer que não aderisse a sua fé. A expulsão dos judeus ilustra bem a questão. O filme também mostra como o Império – especialmente no Ocidente e Norte da África – vai enfraquecendo e as lideranças religiosas, como o Bispo Cirilo, tentam usurpar o poder civil. É aí que se dá o embate com o prefeito e a trágica morte da protagonista.

Os três protagonistas do filme estão muito bem. Rachel Weiz é uma Hyphatia que oscila entre o brilhantismo e o abatimento diante do desafio de entender as órbitas dos planetas e seu movimento com tantos dogmas filosóficos e científicos a atrapalhá-la. Ela também é bela – e não envelhece, como virou regra nos filmes e novelas – e tem atitude, coragem e humanidade. Mas o bom do filme é que não a livraram dos preconceitos da época, vide sua relação com Davos. Só me decepciona o final, mas eu falo disso mais tarde. O Orestes de Oscar Isaac faz o melhor papel masculino do filme para mim. A interação dele com Hyphatia, a paixão que ele transmite no olhar, o desespero do final... E a cena em que ele acha que Hyphatia vai dizer que queria poder amá-lo e descobre que ela está falando de seus planetas é ótima. Adoro a expressão dele. Na verdade, acho o Oscar Isaac lindo no filme, ele fica perfeito de toga. E há o Davos de Max Minghella, uma personagem cheia de nuances. Sua inteligência negligenciada e desprezada por ser escravo, sua angústia, a paixão não correspondida por sua senhora, a conversão e a adesão ao fanatismo cristão, ele desce ao inferno, literalmente. Meus alunos e alunas no Colégio Militar torciam por ele, a empatia com seu drama foi imediata. Queriam que ele terminasse com Hyphatia. Tadinhos! Não conheciam a história ...

A seqüência da destruição da Academia e da Biblioteca é muito emocionante, dramática e bem dirigida. A câmera vira de ponta à cabeça na cena em que livros e objetos de estudo são destruídos, mostrando que o mundo todo está enlouquecido. Aquele mundo, pelo menos... A analogia entre as massas intolerantes e formigas que vão de lá para cá também é muito bem feita. A fotografia e o figurino – simples e elegante – são trunfos do filme que foi o mais caro feito na Espanha até então. E o elenco é multirracial, nada de atores e atrizes brancos preenchendo todos os papéis. Temos a diversidade étnica do Império Romano e do Egito na tela. Isso é positivo, já que o branqueamento parece ser quase a regra para a maioria dos filmes. Ágora, no entanto, não preenche a Bechdel Rule. Hyphatia é uma personagem solitária, a mulher filósofa incompamas poderiam ter colocado pelo menos outra personagem feminina. Todas as mulheres fora Hyphatia são figurantes sem falas. O positivo da composição do elenco não é contrabalançada com uma um maior número de personagens femininas, mesmo que fosse somente para que Hyphatia brilhasse ainda mais.

E chegamos às coisas que me incomodam. Sinesius, um dos discípulos de Hyphatia, era cristão (no filme, desde a juventude, na vida real, não) e tornou-se bispo. Trata-se de uma personagem histórica. Quando entramos na reta final do filme, ele assume um tom anti-cristão e nem falo só da questão da destruição da biblioteca já que ninguém sabe verdadeiramente quem e quando foi destruída, se de uma vez ou em partes. Sinesius nunca traiu Hyphatia, na verdade, ele já estava morto quando de seu assassinato. Suas últimas cenas são uma difamação. Ora, poderiam ter criado uma personagem para cumprir essa função, não precisavam infamar uma personagem histórica. Outro problema é o prefeito. O original enfrentou o bispo e dizia com orgulho que tinha sido batizado pelo patriarca de Constantinopla, que estava acima do líder eclesiástico de Alexandria. No filme, Orestes é cristão de conveniência; até aí, OK, muitos eram, mas a forma como a personagem é massacrada no final é outra traição, uma forma de ilustrar, talvez, o quanto os cristãos eram visar... Ele também abandona Hyphatia ao ser reduzido à impotência por Cirilo e Sinesius. Eu odiei aquilo, pois o prefeito nunca traiu a amiga. E Hyphatia se entrega para morrer, afinal, seu mundo tinha sido destruído... Em nenhuma das fontes ela se entregou para ser massacrada. Ela foi arrastada, ela lutou... Apresentá-la como um animal indo para o sacrifício pode ter um efeito dramático (*uma aluna chorou copiosamente no final do filme*), mas não é fiel à personagem, que, provavelmente, era uma mulher de grande coragem, dignidade e já idosa quando destroçada pela turba de cristãos.

Mas, ainda que com essas ressalvas – e outras mais – eu amo Ágora. Aprendi muita coisa com o filme. Por exemplo, não sabia quem eram os temíveis parabolani. E é um material ótimo para se discutir história da ciência. Eu sinto a angústia de Hyphatia, lamento que ela não tivesse condições de deduzir a existência da gravidade, é desesperador o peso dos dogmas que se travestem de ciência ou a apatia. Tudo isso foi muito bem colocado em Ágora. Hyphatia no filme é uma sonhadora em tempos sombrios, tempos de fanatismos, tempos em que para ser um espírito prático como Orestes é preciso renunciar à imaginação. Enfim, recomendo muito este filme, muito, muito mesmo! Não se trata de um filme feminista, não vejo Hyphatia como uma defensora das liberdades femininas. Ela queria viver para a sua ciência em uma Alexandria cada vez mais obtusa e dominada por outras questões, como as cizânias religiosas. Triste o mundo em que as pessoas competem entre si para saber quem é o mais fanático... Esse é o caso da Alexandria do filme e, infelizmente, do nosso mundo de hoje.

quarta-feira, agosto 17, 2011

A Divina Comédia ganha duas edições em quadrinhos



O Correio Braziliense noticiou hoje que será lançada no Brasil uma edição bilíngüe da Divina Comédia de Dante Alighieri (1265-1321), com ilustrações e um trabalho de tradução e composição que levou 25 anos para ficar pronto. Além do livro, que narra a jornada do poeta pelo Inferno, Purgatório e Céu, teremos duas edições em quadrinhos chegando às nossas livrarias:
Na estante das graphic novels, a poesia de Alighieri chega em duas adaptações. O norte-americano Seymour Chwast interpreta a matriz sem medo de parecer infiel. Em A Divina comédia de Dante (Companhia das Letras), o herói é um detetive, com cachimbo e casacos escuros, em busca da verdade: ar retrô — lembrando a ficção americana dos anos 1940 e 1950 —, humor afiado, mas coerente com os detalhes descritos pelo intelectual italiano.

Criação conjunta de pai (Giuseppe Bagnariol), roteirista, e filho (Piero), quadrinista, A Divina comédia em quadrinhos (Peirópolis) tem uma postura menos pop e procura conservar e condensar características do original. A HQ é mais um título que leva para os quadrinhos criações literárias consagradas, como Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Os Lusíadas, de Luís de Camões.

Espero que essas edições valham a pena. Eu devo dar uma olhada e, quem sabe comprar as três. ^__^

sexta-feira, julho 01, 2011

Palestra sobre a "Primavera Árabe"



Como prometi, aqui está o link para baixar a palestra sobre a Primavera Árabe feita no Colégio Militar de Brasília no dia 29/06. Oa países abordados são Tunísia, Egito, Líbia e Síria. Para baixar, clique aqui.

domingo, junho 19, 2011

Aulas de História para Download - 2º Bimestre



Estava em débito com meus alunos e alunas do Colégio Militar de Brasília, pois eu deveria colocar as aulas que usamos no multi-mídia para que fizessem download. Enfim, agora estão aqui as aulas do segundo bimestre. Só explicando, eu não carreguei uma a uma, simplesmente coloquei o pacote completo. Há aulas que estão repetidas em *.pps, são as que converti e reformei, ou seja, a minha versão da aula e, não, as do Prof. Vicente, embora ele tenha sido o responsável por boa parte do material. As aulas estão no 4Shared, logo, vai abrir outra página e você precisa clicar em download e aguardar alguns minutos. O Prof. Vicente não se importa com o uso amplo do material, eu, no entanto, peço que se faça o crédito da origem. Para baixar: História do Brasil - História Geral. O conteúdo é do 3º ano do Ensino Médio.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Pesquisadores colocarão toda a obra de Chiquinha Gonzaga em um site



Essa notícia veio do site do Correio Braziliense e é uma boa notícia para os estudiosos da música popular brasileira e para os admiradores de Chiquinha Gonzaga.

Pesquisadores colocarão toda a obra de Chiquinha Gonzaga em um site

Pianistas Wandrei Braga e Alexandre Dias, pesquisadores da compositora Chiquinha Gonzaga. Autores e diretores veem a chance de emplacar novidades musicais em suas produções.

Wandrei Braga é rigoroso. Para ele, da extensa obra de Chiquinha Gonzaga, algo em torno de 2 mil composições, o grande público só conhece quatro: a valsa Lua branca, a marcha rancho Abre alas, a polca Atraente e o tango brasileiro Corta jaca, depois transformado em choro. A preferida do pesquisador e pianista, porém, é a nada notória Balada romântica, que faz parte do repertório da opereta A corte na roça.

A musicista e pianeira, considerada um dos pilares da identidade musical brasileira, possibilitou a Wandrei, designer paulista residente em Brasília há 11 anos, e a Alexandre Dias, professor de piano brasiliense, serem selecionados no edital nacional 2010 do programa Natura Musical, na categoria fomento à musica, entre mais de 800 inscritos. Eles concorreram com o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, que vai disponibilizar em um site músicas e partituras pouco conhecidas da primeira maestrina brasileira.

"Diferentemente de sua história biográfica - apresentada em livro escrito por Edinha Diniz e contada na minissérie escrita por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes -, mais de 95% da obra de Chiquinha Gonzaga ainda se encontram desconhecidos e inacessíveis, deixando uma lacuna misteriosa nesta parte da história sobre o nascimento da identidade musical brasileira", afirma Wandrei.

Fã de Chiquinha, o pesquisador buscou aprofundar seu conhecimento sobre a artista em 1999, ao ter a atenção despertada pela exibição da minissérie da TV Globo. "Até então, eu conhecia muito pouco sobre Chiquinha. Imediatamente pensei em criar um site, no qual pudesse, a partir de pesquisa, informar às pessoas sobre a importância dela para a música brasileira", conta.

Nessa tarefa, Wandrei teve o apoio de Alexandre Dias, a quem conheceu num recital da pianista Maria Teresa Madeira, no Clube do Choro de Brasília. "O site ChiquinhaGonzaga.com faz parte dessa história. Há mais de 11 anos no ar, divulga informações sobre a maestrina e coleciona admiradores e parceiros pelo Brasil e pelo mundo", comemora.

Inspiração

A ideia do acervo tem menos tempo. Em 2009, a pianista pioneira Neusa França, encantada com o repertório pouco conhecido da compositora, organizou na Embaixada de Portugal um recital chamado Saudades de Chiquinha Gonzaga, com a participação de 20 pianistas, entre eles Wandrei e Alexandre. De certa forma, esse recital foi fonte de inspiração para que os parceiros dessem início à concretização de um sonho: a elaboração e a articulação de um projeto para recuperar a obra de Chiquinha.

Consequência dessa história, o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga foi aprovado pelo Natura Musical 2010, entre 860 projetos apresentados. "Para essa conquista, tiveram importância fundamental a parceria do Instituto Moreira Salles (mantenedor do acervo de Chiquinha Gonzaga), a biógrafa Edinha Diniz, o portal Musica Brasilis (realizador de projeto semelhante com a obra de Ernesto Nazareth) e a Escola Portátil de Música (especializada no ensino de choro)", ressalta Wandrei.

Além de Wandrei Braga (coordenador, pesquisador, designer) e Alexandre Dias (coordenador, pesquisador e revisor), fazem parte da equipe responsável pelo projeto do acervo, a gerente Ana Carolina Pereira (Integrar Produções Culturais e Eventos), a designer Cíntia Coelho e o músico especialista em digitação musical Douglas Passoni. O lançamento está previsto para outubro, com a apresentação de recitais de piano em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e oficinas musicais na Escola Portátil, no Rio, dedicadas à obra da homenageada, sob a coordenação dos músicos Maurício Carrilho e Luciana Rabello, diretores da entidade.

Três perguntas - Wandrei Braga

A minissérie exibida na tevê foi fiel à história de Chiquinha Gonzaga?
O que os autores da minissérie fizeram não foi um documentário e sim uma história romanceada. De qualquer forma, ela foi importante para a popularização do legado da maestrina.

Qual é a avaliação que você faz da biografia de Chiquinha, escrita por Edinha Diniz? É um documento histórico valioso, pois além de contar a história de Chiquinha, contextualiza, com riqueza de detalhes, a época em que ela viveu.

Há algo a destacar no projeto do acervo?
Posso citar a história de um broche que Chiquinha aparece usando em fotos. Esse broche, que ganhou de amigos, se perdeu, mas com Edinha (Diniz), saí à procura do enfeite e o descobrimos. Ele havia sido vendido pela filha da folclorista Marisa Lira, primeira biógrafa da maestrina, ao Museu da República (antigo Palácio do Catete), no Rio de Janeiro.

sábado, janeiro 08, 2011

Comentando Os Últimos Dias dos Romanov



O primeiro livro completo que li este ano foi “Os Últimos Dias dos Romanov”, de Helen Rappaport. Então decidi comentar algumas coisinhas. O nome original do livro é Ekaterinburg. Ecaterinburgo foi a prisão final da família do Czar e lugar da execução de onze pessoas e um cachorro: Nicolau II; a czarina Alexandra; suas filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia; seu filho, Alexei; a governanta, o médico, dois criados, e uma cadelinha (*eram três cachorros, um desapareceu, e outro terminou seus dias na Inglaterra*). Na página da Livraria Cultura há uma sinopse do livro:
A execução em julho de 1918 dos Romanov - a família do último czar da Rússia, Nicolau II - é cercada de mitos e histórias macabras. Especialista em história russa, Helen Rappaport teve acesso aos depoimentos de várias testemunhas-chave. Ela revela o papel de Lenin na execução e mostra também como os Romanov e seus carcereiros desenvolveram uma relação complexa.

Minha primeira observação sobre o material é editorial. O livro parece ter sido feito às pressas, assim, em vários momentos há letras faltando e erros de digitação. Além disso, há repetições de palavras muito próximas, que acabam empobrecendo o texto em alguns momentos. Outro problema, este mais grave, é a ligeira sensação de que certas partes não foram traduzidas adequadamente. Em dois lugares, mesmo sem ter lido o original, eu tenho certeza absoluta. Fora, claro, palavras em russo, aqui e ali, sem uma notinha sequer. Eu não leio russo, e a maioria das palavras eram desconhecidas para mim. Esse tipo de trabalho capenga, em um livro relativamente caro (*ou em qualquer livro*), pesam muito contra a editora.

Quanto ao valor histórico do material, ele é relativo. Acredito que, apesar do esforço enorme da autora em ir até os arquivos e fontes produzidas o mais próximo possível da chacina (*porque foi exatamente isso que aconteceu ali*), há muito mais especulação do que eu admitiria em uma obra historiográfica. Imaginar o que fulano ou ciclano poderiam estar pensando ou sentindo sem ter uma fonte que sirva de evidência (*ela cita trechos de memórias dos assassinos entre aspas, assim como trechos de cartas e diários*) é coisa de romancista. E não pense que eu estou desqualificando o romance, até porque as fronteiras entre história e ficção são de fato muito tênues.

Três coisinhas me irritam muito no livro. A primeira é a complacência com que a autora trata Nicolau II. A todo momento ela parece relevar o fato dele ter sido um governante fraco, medíocre e responsável – já que seu governo era autocrático – por milhares de mortes e muito sofrimento. Em nenhum momento ela usa para ele o termo “assassino” ou “bandido” que é fartamente distribuído para os bolcheviques. Eis o segundo incômodo. Os bolcheviques cometeram barbaridades – e o assassinato de toda a família e criados é uma delas, só que em nível micro – mas os Romanov e seu último Czar não ficaram atrás de forma alguma. Ela volta no tempo várias vezes, mas não se dá ao trabalho de descrever as atrocidades do regime czarista, como faz, por exemplo, com as neuroses e interferências da czarina ou "o banditismo" dos bolcheviques. É preciso ser justa, e isso a autora, ainda que tente fugir da hagiografia, não consegue ser. É visível que ela não gosta dos bolcheviques, e isso é direito dela, mas ao descrever os últimos dias e mesclar com fatos passados, ela deveria ter equilibrado melhor as coisas.

O meu último grande incômodo é a forma como ela tenta jogar boa parte da culpa da desgraça da família em Alexandra, compondo uma imagem desagradável da czarina. E, nesse ponto, as informações, mesmo cronológicas, não são precisas, o que é um pecado em um livro descritivo. E, pior, sobrou até para a pobre Vitória da Prússia, a filha mais velha da rainha Vitória. Alice de Hesse (*Alix era seu apelido e, depois de casada e convertida ao Catolicismo Ortodoxo, tornou-se Alexandra*) era neta da Rainha Vitória (*Vicky*), que supervisionou sua educação já que ela ficou órfã muito cedo. Fora isso, a Princesa Vicky tinha muitos problemas para resolver, ela tinha que lidar com Bismarck, só para começo de conversa e a Rainha Vitória estava viúva e com tempo de sobra para se meter na educação das netas na Alemanha.

Hesse poderia não ser grandes coisas, mas era de praxe tanto os reis da Inglaterra (*de origem alemã*), quanto os czares russos buscarem esposas baratas e com poucas capacidades de barganha nesses principados alemães. Daí, ela era uma noiva em potencial e não uma “escolha qualquer”. Uma duquesa muito mais rica teria muito menos chance, pois não pertencia a uma casa reinante. A autora oscila dizendo que Alexandra tinha se tornado russa de corpo e alma (*principalmente alma, porque ela é colocada como uma fanática religiosa*), mas a acusa de ser vista como alemã. Em nenhum momento ela se dá ao trabalho de falar da unificação alemã e da I Guerra de forma didática. Também não explica a pressão violenta sobre a czarina, já que a lei de sucessão russa (*por vingança do filho de Catarina, a Grande*) era semi-sálica, isto é, suas filhas eram as últimas da fila, só poderiam herdar o trono depois que o último dos primos desaparecesse. Isso, por si só, torna o assassinato das meninas ainda mais pavoroso. Mas voltando à Alexandra, ela tinha que dar um herdeiro para a Rússia, foi culpada por produzir quatro meninas e, quando, finalmente, nasce o único filho, ele tem um quadro grave de hemofilia. Naquele momento e dada a gravidade da doença, o menino tinha pouca expectativa de vida e, claro, todos sabiam que a culpa era da mãe.

Ela se tornou presa fácil do fanatismo religioso, das dores imaginárias (*que a autora diz que ela cultivava*), e de Rasputin. Aqui, outra falha, mostrar o quanto Rasputin foi daninho. Rappaport cita o monge “louco”, fala dele no capítulo sobre Alexei, mas fica mais tempo falando das mesquinharias e abusos dos bolcheviques, ou especulando sobre emoções e pensamentos. De resto, sentirem pena de Nicolau – ele russo – e culparem Alexandra – a princesa estrangeira, cuja timidez parecia arrogância aos estranhos – é muito fácil. Para mim, é repetição da Revolução Francesa, e os bolcheviques se espelharam nela, Trotsky, muito pouco falado no livro, queria um julgamento público de Nicolau e Alexandra ao estilo que que acontecera na França Revolucionária. Enfim, se Maria Antonieta descarregava suas frustrações na moda, Alexandra tinha como saída o fanatismo religioso (*que a colocou sob a órbita de Rasputin*), ambas tinham maridos pouco competentes, ambas se tornaram alvo do ódio dos seus contemporâneos enquanto seus maridos puderam gozar de alguma simpatia. De comum, ambas mulheres e estrangeiras.

O livro, no entanto, é bem interessante. Ele mostra com precisão como a situação pós-revolução russa era complicada. Apresenta, ainda que de forma superficial, que os bolcheviques foram se apropriando do poder expulsando e eliminando outros grupos (*mencheviques, socialistas revolucionários, anarquistas, etc.*). Mostra que nem todos os que estavam contra os bolcheviques eram burgueses e monarquistas, como a propaganda bolchevique conseguiu enfiar em muitas cabeças. Fala muito dos tchecos, que tomaram Ecaterinburgo pouco depois do massacre, embora não explique bem quem eram eles. A autora também conseguiu apresentar de forma muito completa o Tratado de Brest-Litovsk e como o governo bolchevique vendeu boa parte do país para a Alemanha para conseguir sair da I Guerra. Rappaport foi muito feliz em apresentar a indiferença dos outros monarcas, mesmo parentes, em relação ao futuro dos Romanov, da falta de ação especialmente por parte do Rei da Inglaterra, o que condenou Nicolau e sua família e de como os ingleses tentaram encobrir o fato.

Apesar dos problemas de tradução e da pouca fluência do texto em alguns momentos, foi muito bem apresentada a estratégia, depois que a chacina foi descoberta, em transformar o assassinato em uma conspiração judaica. Ainda que a autora tenha falhado absolutamente em comparar o assassinato dos Romanov ao Holocausto dos judeus. Para ela, que se viu depois na Alemanha Nazista teria sido um aperfeiçoamento do que os bolcheviques fizeram. Menos, por favor! Mas ela foi muito feliz em mostrar que o assassinato dos Romanov, da família inteira, não somente a execução justificada do czar, foi um ato covarde de vingança. Mais covarde ainda, porque o governo bolchevique negou por meses ter executado as meninas e a czarina (*Alexei parece que nunca era citado... talvez, proque sua morte fosse algo certo. Ainda assim, os últimos dias do menino foram horríveis demais.*). E os empregados, claro, foram punidos por sua fidelidade ao antigo regime. Ou seja, se há vergonha, há culpa ou sentimento de culpa. Não havia justificativa legal para o extermínio de todos, inclusive dos criados.

Coisas legais que aprendi com o livro foi que existiram destacamentos de mulheres no exército russo durante a I Guerra, mais precisamente, no final dela, os chamados Batalhões Femininos da Morte. O objetivo desses batalhões, recebidos com muita má vontade pelos generais, era envergonhar os homens que fugiam do front, já que as mulheres tinham mais coragem que eles. Nunca tinha ouvido falar da tenente-coronel Maria Bochkareva, camponesa idealizadora dos batalhões femininos, e da sua ida aos Estados Unidos pedindo ajuda para a Rússia em nome do deposto governo de Kerensky. Na verdade, esses detalhes se perdem em uma aula de História comum, mesmo na faculdade, e muito do que eu estudei na escola e mesmo na universidade foi direcionado por uma complacência em relação a tudo que os bolcheviques tivessem feito ou executado, como se eles tivessem razão, e só houvesse um caminho. Como se toda e qualquer selvageria tivesse sido necessária, naquele esquema do “o fim justifica os meios”. Obviamente, não se trata, também, de construir uma história de mocinhos e vilões, como muitos parecem desejar.

É preciso deixar claro que em História, pelo menos naquela que eu ensino e advogo, nada é inexorável, nada “precisava ser assim”, simplesmente foi assim. Poderia ter sido diferente, e ainda que se tenha simpatias por um lado ou outro, é preciso tentar ser just@ na análise das fontes e dos discursos. Considero a Revolução Russa muito importante, e a queda da monarquia autocrática russa era uma questão de tempo, não porque "era vontade de Deus", mas porque estruturalmente, ela era um fóssil vivo dentro da Europa. O caminho, entretanto, foi escolha dos agentes do processo histórico, das contingências, das suas condições de produção, não execução de algo que estava predestinado. Uma monarquia constitucional ou uma república burguesa ou a fragmentação do território ou a tomada de poder por um grupo de esquerda mais heterogêneo ou uma ditadura ou... As possibilidades eram quase infinitas. De certo, e isso a autora coloca muito bem, havia a impossibilidade do retorno do Czar, pois Nicolau não era opção nem entre os monarquistas. Não se trata, portanto, de estigmatizar os bolcheviques, tampouco de santificar Lênin e jogar as “maldades” nas costas de outros, especialmente Stalin, como virou moda por aí, mas de perceber que foi um momento muito rico. E, claro, que o massacre da família do Czar foi um ato de selvageria. Enfim, nem sei se esta resenha desorganizada é útil, mas precisava comentar o livro, que é válido, sim, embora esteja longe de ser excelente.


P.S.1: Eu queria muito um filme sobre as meninas Romanov. Por conta da propaganda - o czar sabia muito bem o quanto seus filhos eram bonito - há muitas fotos delas, as meninas de vestidos brancos, e por conta do pessoal que fica colorizando esse material nno Deviantart, aprendi a gostar delas. Nos filmes, Raputin/Nicolau & Alexandra/O Segredo de Anna, nunca colocam meninas realmente bonitas e parecidas com elas para fazerem seus papéis, além, claro, do foco ser Alexei, Alexandra e Nicolau.
P.S.2: A irmã da Czarina, Elizabeth (Ella), também foi assassinada pelos bolcheviques. Seu marido, tio do czar, tinha sido morto no início do século XX, ela inclusive saiu em defesa do assassino pedindo clemência e perdão, depois, se tornou freira e dedicou-se ao trabalho com os necessitados. Com a Revolução foi tirada do convento e mantida presa. Pouco depois do assassinato da família imperial, ela foi arremessada dentro de uma mina, junto com outros membros da família imperial por agentes da Cheka (*o primeiro ensaio da KGB*). Não lhe deram tiro, mas uma pancada na cabeça. Depois atiraram granadas. Ainda assim, ela sobreviveu por algum tempo e quando os Brancos resgataram o seu corpo, ela aind atinha tido a iniciativa de tentar cuidar do ferimento de uma das outras vítimas. Outra morte desnecessária entre tantas.