terça-feira, outubro 16, 2007

BAIXA IDADE MÉDIA II – RENASCIMENTO COMERCIAL E URBANO


Ø O chamado Renascimento Comercial e Urbano se insere dentro do mesmo contexto das Cruzadas, isto é, ajuda a impulsionar esse movimento e é impulsionado por elas. Com o aumento da população, as novas técnicas de cultivo, aumento da produção, incorporação de novas terras, havia maior riqueza. Essa riqueza precisava circular, daí a intensificação do comércio. Ao mesmo tempo, com o aumento da população, as aglomerações urbanas puderam crescer. Havia um ditado da época que ilustra bem a questão “A cidade tem cheiro de liberdade”.

Ø Não se pode acreditar entretanto que as cidades tenham desaparecido durante a Alta Idade Média. No Mediterrâneo, apesar do que o livro de vocês coloca, a dinâmica comercial prosseguiu, e algumas antigas cidades continuaram a seguir com seus negócios. No interior da Europa, muitas cidades romanas desapareceram ou se tornaram pequenos centros em torno de um palácio de um senhor, de um centro de peregrinação ou de um forte.

Ø O que se dá a partir do século XI é um crescimento das cidades pré-existentes e um surgimento antes nunca visto de centros urbanos. Muitos servos, que agora tinham acesso menos raro ao dinheiro, compravam a sua liberdade, outros fugiam, pois em alguns lugares se alguém conseguisse viver um ano e um dia em uma cidade seria considerado homem livre. Mesmo assim, é preciso lembrar, a maioria absoluta da população continuava no campo.

Ø As Feiras: Eram eventos regionais ou internacionais que ocorriam em entroncamentos de rotas de comércio e encruzilhadas de estradas. Poderiam ocorrer semestralmente ou anualmente. Muitos senhores e reis passaram a incentivar esses eventos dada a sua lucratividade.

Ø As Corporações de Ofício: Eram associações de profissionais de uma mesma categoria – tecelões, vidreiros, carpinteiros, ferreiros, etc – que regulavam as atividades, fiscalizavam a qualidade dos produtos, concediam o status de mestre e proibiam a concorrência entre seus associados. Os mestres, isto é, os artesãos donos das oficinas, dirigiam essas associações. No trabalho artesanal também estavam envolvidos: oficiais – que eram os ajudantes do mestre, os aprendizes – que pagavam para aprender o ofício e poderiam um dia chegar a mestres, e os jornaleiros – que ganhavam salários para fazer diversos trabalhos. As mulheres também podiam ser mestres e a maioria das corporações medievais as aceitava, seja por sua profissão ou pelo direito de viúva. As Guildas também eram organizações de artesãos que defendiam os interesses dos associados e promoviam ajuda mútua.

Ø As Liga Hanseática: Associação alemã de comerciantes, da qual faziam parte membros da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, que visava ampliar o comércio no Norte da Europa. Dominavam as regiões do Mar do Norte e Báltico.

Ø As Comunas: Grupos de habitantes das cidades ou associações urbanas que juravam fidelidade e negociavam ou exigiam melhoria na forma como os senhores eclesiásticos ou laicos (duques, condes, marqueses, etc) tratavam a cidade. “Comuna” é uma palavra que tem a mesma origem de “conjuração”. Muitas vezes, as comunas, os cidadãos unidos, se insurgiam violentamente contra seus senhores. As cartas comunais mais do que garantir os direitos, estabeleciam claramente os deveres das cidades.

Ø Os Burgueses e a Centralização do poder: Burguês na Idade Média significava habitante do burgo, isto é, uma cidade fortificada. Os burgueses geralmente estavam associados ao comércio e ao artesanato. Com as cruzadas e o endividamento de muitos senhores, alguns deles começaram a ver na taxação das atividades comerciais uma fonte segura para aumentar as suas rendas. O grande número de moedas e tarifas que variavam de feudo para feudo também prejudicavam o comércio. Assim, muitos burgueses vão se aliar aos reis que buscavam a centralização política. ***Não entendam que burgueses e reis vão se aliar contra a nobreza, pois os reis também são nobres e dependiam da existência desta classe para manterem o seu poder.*** Alguns reis vão ter burgueses como ministros e vão implementar tentativas de formação de exércitos nacionais, unificação jurídica (retomada do Direito Romano), tarifária e monetária. Isso irá ferir principalmente o interesse dos grandes nobres que tinham direitos especiais (vide resumo de Feudalismo). Assim, alguns monarcas irão colocar as cidades sob sua proteção direta, dando-lhes cartas comunais, garantindo com o seu prestígio a liberdade que os burgueses tanto queriam para fazer os seus negócios. Em troca os burgueses irão contribuir com o seu dinheiro para o fortalecimento dos reis. Reis, burgueses e parte da nobreza, principalmente a pequena nobreza, irão se associar contra o regionalismo feudal e o universalismo da Igreja – que achava que poderia interferir dentro dos reinos e se colocar acima do poder dos soberanos – dando início a formação dos Estados Nacionais e à transição para o Capitalismo.

A BAIXA IDADE MÉDIA I: AS CRUZADAS


I. Séculos XI a XIII:

§ Auge do feudalismo com a estabilização dos direitos dos grandes nobres, a diminuição dos conflitos, a valorização da cavalaria.

§ Essas mudanças foram possibilitadas sobretudo pelo fim das invasões; melhorias climáticas; desenvolvimento e/ou redescoberta de técnicas agrícolas; incorporação de novas terras (arroteamentos) destro da própria Europa (desmatamentos, drenagem de pântanos, conquista de novas terras no leste); intensificação do comércio, agora não mais tão restrito às áreas do Mediterrâneo mas abarcando toda a Europa; crescimento da vida urbana.

§ Fortalecimento da Igreja que tentou se impor ao Imperador e aos grandes senhores.

§ A melhora das condições gerais de vida fez surgir pela primeira vez na Idade Média os excedentes de produção que eram apropriados pela nobreza laica e religiosa através de pesados tributos. Mesmo assim, registrou-se um grande crescimento populacional.

§ A Europa começou a parecer pequena, seja para os nobres que desejavam mais terras; seja para os camponeses que tinham que aumentar a produção para garantir sua sobrevivência; seja para os comerciantes, principalmente italianos, que desejavam aumentar a sua influência dentro do rico comércio com o Oriente.

§ Atenção ao gráfico abaixo, ele está no livro de vocês. Vejam que a população cresce até que no século XIV há uma depressão. Este problema foi fruto de muitos fatores, dentre eles, a uma grande epidemia de Peste Bubônica, a chamada Peste Negra, que matou aproximadamanente 1/3 da população européia; as guerras, como a Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra; as revoltas camponesas; e a fome ocasionada pela perda de colheitas e falta de mão-de-obra.


AS CRUZADAS:

§ Jerusalém era considerada Terra Santa tanto por cristãos quanto por judeus e muçulmanos. Com a
Expansão Islâmica a Palestina tinha sido tomada pelos árabes, despertando entre alguns cristãos o desejo de retomar o território sagrado, considerado como centro do mundo nos mapas da época, das mãos dos “infiéis”.

§ Em 1095, o Papa Urbano II conclamou à Cristandade às retomar à Terra Santa. Este movimento ficou conhecido como Cruzada, porque os que se engajavam no movimento levavam o símbolo da cruz em sua roupa.

§ Além da motivação religiosa importantíssima, as Cruzadas foram animadas por outros interesses: aliviar a tensão dentro da Europa, pois as terras começavam a escassear; canalizar a violência dos nobres contra “alvos legítimos”,
[1] no caso, os “infiéis” impedindo que as guerras proliferassem dentro da Europa Cristã; liberar contingentes populacionais (nobres e camponeses) para o Oriente onde iriam se fundar novos reinos aliviando a pressão demográfica dentro da Europa; era a oportunidade para os cavaleiros conseguirem fama e fortuna, talvez até um feudo; os comerciantes italianos viam as Cruzadas como uma grande possibilidade de ganhos comerciais.

§ Houve Cruzadas fora e dentro da Europa. As da Terra Santa são as mais conhecidas, mas a Reconquista da Península Ibérica e algumas campanhas contra hereges, como os cátaros, também tinham status de Cruzada. Quem participasse das Cruzadas recebia a remissão de seus pecados.

§ Houve oito cruzadas “oficiais” e outras que não receberam o reconhecimento da Igreja ou da nobreza. A primeira destas cruzadas “extra-oficiais” foi a Cruzada de Pedro, o Eremita que, atendendo ao chamado do Papa, partiu à frente de 5000 camponeses, andarilhos e mendigos decidiram reconquistar Jerusalém. Atingiu Constantinopla em 1096, foram aconselhados pelos bizantinos a retornarem mas como não tinham esta intenção, e estavam causando desordens na cidade, os bizantinos os transportaram até a Ásia Menor onde foram massacrados pelos turcos. Outra dessas Cruzadas foi a “Cruzada das Crianças” de 1212 que teve um ramo francês e outro alemão. As crianças francesas se dirigiram à Paris onde sem o apoio do Rei acabaram recebendo a oferta de alguns navios para irem “libertar Jerusalém”. Enganados por cristãos foram vendidos em mercados de escravos muçulmanos do Egito. Em sua homenagem mandou-se erguer a Igreja dos Santos Inocentes. Os Cruzados alemães foram direção à Roma mas a nobreza e a igreja, temendo revoltas, insuflou a população contra as crianças que de libertadores passaram a ser tratados como bandidos. A maioria foi morreu ou foi vendida à prostíbulos.

§ Por ordem as Cruzadas oficiais foram:

- 1ª Cruzada (1095-99): Composta por grandes senhores, partiu sob os auspícios de Urbano II. Tomou dos muçulmanos uma parte da Ásia Menor e Jerusalém onde se fundaram reinos cristãos sob o modelo feudal. Fundam-se nesse momento as Ordens dos Templários e Hospitalários.

- 2ª Cruzada (1147-49): Congregou vários príncipes europeus, entre eles o Imperador Conrado II e o Rei Luís VII da França. Marcada pelos desentendimentos, terminou fracassando.

- 3ª Cruzada (1189-92): Uma das mais conhecidas, reuniu o Imperador Frederico, Barba Ruiva (que morreu afogado), o Rei Filipe Augusto da França e o Rei Ricardo Coração de Leão. Do outro lado os muçulmanos eram comandados por Saladino. O conflito entre os gênios militares (Saladino de um lado e Frederico e Ricardo do outro) deu aura romântica à esta Cruzada de batalhas sangrentas, negociações diplomáticas e traições. Não conquistaram a Terra Santa, mas conseguiram para os cristãos o direito a peregrinação.

- 4ª Cruzada (1202-04): Cruzada convocada pelo Papa Inocêncio III, marcada por interesses comerciais dos venezianos associados à nobreza, abandonou o objetivo de conquistar a Terra Santa e atacou Constantinopla. Fundou-se aí o Império Latino de Constantinopla.

- 5ª Cruzada (1217-21): Um fiasco, não passou do Egito. Foi dessa expedição que participou São Francisco de Assis.

- 6ª Cruzada (1228-29): Liderada pelo Imperador Frederico II, ao invés de guerrear com os árabes, negociou a liberação de Jerusalém e outros lugares sagrados cristãos para a peregrinação. Hábil negociador, o Imperador – que foi excomungado pelo Papa – conseguiu ser coroado rei de Jerusalém no Santo Sepulcro. Em 1244, os turcos desfizeram o tratado.

- 7ª Cruzada (1248-50): Luís IX, rei da França, tenta conquistar o Egito. Toma Damieta em 1249 mas seu exército é dizimado pelo tifo e o rei é feito prisioneiro. Depois de libertado retorna ao seu país.

- 8ª Cruzada (1270): Nova tentativa de Luís IX que acaba morrendo de tifo na Tunísia. Por causa de sua piedade e martírio Luís IX foi canonizado.

Considerações Finais – Afinal, para que serviram as Cruzadas?

§ As Cruzadas não conseguiram o reconquistar a Terra Santa mas trouxeram muitas mudanças para a Europa.

§ Dinamizaram o comércio, permitiram um maior intercâmbio com o Oriente de onde vieram novos produtos agrícolas (cana-de-açúcar, arroz), técnicas de cultivo e de produção de tecidos. Os maiores beneficiados com a dinamização do comércio no mediterrâneo foram sem dúvida os italianos de Gênova e Veneza.

§ Enfraqueceu o Feudalismo. Os fracasso militares, o endividamento e a morte de muitos nobres permitiu o avanço do poder real e o enfraquecimento dos laços de servidão.

§ A intensificação do intercâmbio cultural com o Oriente (Islã e Bizâncio), além de trazer novas (e velhas) idéias para a Europa, auxiliou no “refinamento” da sociedade européia.

§ Houve a fundação de várias Ordens Militares, algumas delas, como a dos Cavaleiros Teutônicos, existem ainda hoje e teve uma grande atuação no leste Europeu, seja na evangelização seja na expansão dos interesses comerciais da Liga Hanseática.

§ A agressão dos cristãos acirrou a rivalidade com os muçulmanos que, por sua vez, começaram a diminuir a sua tolerância em relação aos cristãos.

[1] Antes mesmo dos cruzados partirem, registrou-se o aumento da violência contra os judeus que até então conviviam relativamente bem com os cristãos.