segunda-feira, dezembro 05, 2011

Cinema & História – Bibliografia Comentada



Um amigo me pediu bibliografia sobre Cinema, Quadrinhos e História. Falta a parte de HQs, mas aproveitei meu pé torcido e a prisão domiciliar para listar e comentar tudo o que eu tenho de Cinema & História em casa. Sei que há vários outros materiais no mercado e tenho pelo menos mais um ou dois livros que não consegui achar para incluir na lista. Há desde livros muito específicos, até material que pode ser lido sem dificuldade por um público mais amplo. Segue a lista:

ADELMAN, Miriam, et al. (orgs.). Mulheres, Homens, Olhares e Cenas. Curitiba: UFPR, 2011. – O livro utiliza a categoria gênero na análise de vários filmes, os artigos são tanto sobre filmes específicos, quanto sobre a cinematografia de diretoras e diretores (ex.: Jane Campion), ou sobre como questões como família, prazer, sexualidade, etc. são apresentadas em vários filmes. Excelente material.

BARROS, José D'Assunção, NÓVOA, Jorge (org.) Cinema-História: Teoria e Representações Sociais no Cinema. 2ª ed. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008. – O livro traz artigos teóricos e outros sobre filmes ou épocas específicas do cinema usando representação social como instrumento de análise. Ótimo material para quem deseja ler textos que mostrem como é possível para historiadores discutirem cinema buscando analisar as representações sociais presentes nos filmes.

CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito – A História no Cinema. Rio de Janeiro: Record, 1997. – Coletânea de artigos escritos principalmente por historiadores americanos e britânicos, aborda filmes cronologicamente, além de trazer entrevista com cineastas e uma introdução sobre as possibilidades de interação entre cinema e história. A perspectiva do filme escapa em alguns momentos daquilo que vemos como história no Brasil. O primeiro artigo, por exemplo, é sobre Jurassic Park. Há também a ênfase na história dos Estados Unidos a partir da Idade Moderna. Mas, no geral, é um bom livro com artigos que vão do bom ao excelente. é um livro que pode ser lido por qualquer um sem dificuldade.

FERRO, Marc. Cinema e História. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010. – Clássico da discussão entre cinema e história, Ferro foi um dos primeiros historiadores a valorizar essa mídia como fonte para trabalhos historiográficos. Livro clássico e fundamental.

KAPLAN, E. Ann. A Mulher e o Cinema – Os dois lados da câmera. Rio de Janeiro: Rocco, 1995. – Livro que foca na discussão do cinema como instrumento de disseminação de papéis de gênero tradicionais e opressão das mulheres e das possibilidades que de mudança proporcionadas pelo olhar feminista. Só não sou muito fã do viés da psicanálise.

KELLNER, Douglas, RYAN, Michael. Camera Politica – The Politics and Ideology of Comtemporary Hollywood Film. Indiana: Indiana University, 1990. – Livro que analisa o backlash na indústria cinematográfica norte americana na década de 1970, um movimento que dará destaque aos modelos conservadores de família, ao patriarcado, atacando os movimento feminista, a revolução sexual, os direitos das minorias, etc. A perspectiva do livro é fortemente marxista e os exemplos citados e os argumentos são muito contundentes.

___. A Cultura da Mídia. Bauru: EDUSC, 2001. – O livro de Kellner não é sobre cinema mas discute o uso político-ideológico do mesmo por parte dos movimentos conservadores dos anos 1980. Dentre os filmes analisados temos Rambo, Poltergeist e Ases Indomáveis. É quase uma continuação do livro Camera Politica.

MACEDO, José Rivair, MONGELLI, Lênia Márcia (org.). A Idade Média no Cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. – O livro foca, como seu nome mesmo diz, em filmes medievais. Além de artigos específicos sobre filmes, escritos por medievalistas brasileiros, o destaque é a Introdução do Prof. José Rivair Macedo intitulado Cinema e Idade Média: Perspectivas. Nele temos a discussão teórica das possibilidades e limites dos encontros entre cinema e história, dialogando com o clássico de Marc Ferro. Além disso, discute a presença da Idade Média nos filmes históricos e de fantasia.

MELEIRO, Alessandra. O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social. São Paulo: Escrituras, 2006. – Dissertação de mestrado da autora, trata do cinema iraniano atual e apresenta rica discussão teórica sobre as construções da tradição e o cinema como exercício político.

MOCELLIN, Renato. História e Cinema: educação para as mídias. São Paulo: do Brasil, 2009. – O livro é um resumo da dissertação de mestrado de Mocellin e mescla muito bem a discussão teórica com a experiência de sala de aula, além disso, traz análises de quatro filmes: 300, Tróia, Galadiador e Cruzada. Fininho, barato e muito bom.

NÓVOA, Jorge, FRESSATO, Soleni Biscouto, FEILGELSON, Kristian (org.). Cinematógrafo – Um Olhar sobre a História. Salvador/São Paulo: EDUFBA, UNESP, 2009. – Artigos teóricos e análises de filmes feitas por historiadores brasileiros e estrangeiros.

ROSENSTONE, Robert A. A História nos Filmes – Os Filmes na História. São Paulo: Paz & Terra, 2010. – Um dos melhores livros quando a questão é uma discussão teórica sobre os encontros e desencontros entre cinema e história. O autor discute os diferentes tipos de filmes, os preconceitos dos historiadores, e a possibilidade do cineasta ser ele (ou ela) também um historiador. Muito bom mesmo.

SOARES, Mariza de Carvalho, FERREIRA, Jorge (org.). A História vai ao Cinema – Vinte filmes brasileiros comentados por historiadores. 2ª ed. São Paulo: Record, 2006. – O título é auto-explicativo, historiadoras e historiadores brasileiros de renome, como Rachel Soihet, Sandra Jatahy Pesavento, Ronaldo Vainfas, etc., analisando filmes do cinema nacional brasileiro. Os artigos são bem acessíveis para um público mais amplo.

STEPHANOU, Alexandre Ayub. Cinema e História – Guia de Filmes. Porto Alegre: Gráfica Odisséia, 2010. – O autor é jornalista e doutor em História e faz reviews e análises de vários filmes e seu valor histórico. Sinceramente? Achei o livro muito superficial e sem argumentos claros. Elogiar o filme Olga e criticar Tempos de Glória é algo incompreensível para mim.

TEIXEIRA, Inês Assunção de Castro, LOPES, José de Sousa Miguel (org.). A Mulher vai ao Cinema. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. – O livro é parte de uma coleção da editora Autêntica que possui vários volumes com títulos como A Criança vai ao Cinema, O Jovem vai ao Cinema, entre outros. O livro é uma coletânea de artigos sobre vários filmes como Rosa Luxemburgo, Lanternas Vermelhas, As Horas, Frida, etc. Outro livro com artigos bem acessíveis, apesar das discussões teóricas mais complexas. E há o resto da coleção.

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quarta-feira, novembro 30, 2011

Filme rediscute a imagem da irmã de Mozart



"Irmã de Mozart", é assim que Nannerl – apelido de Maria Anna Walburga Ignatia Mozart - entrou para a história. Normalmente, ela é usada para ilustrar as limitações impostas às mulheres no século XVIII. Provavelmente, Nannerl era tão brilhante quanto o irmão, talvez mais (*Quem pode vir a saber?*). Foi exibida como criança prodígio junto com Mozart, tocou diante da realeza, mas ao atingir a puberdade foi empurrada pelo pai para os papéis de gênero mais tradicionais: filha submissa, esposa do homem que o pai escolheu, mãe. Passou a ser deixada para trás e proibida de tocar em público, Mozart elogia em cartas as composições da irmã, mas nada de seus trabalhos sobreviveu... Destruídos? Provavelmente. Viúva, pobre, tendo que sustentar filhos e sobrinhos, tornou-se professora de música para sobreviver. Acho louvável que se tente revisitar e rediscutir a figura de Nannerl e é isso que este filme francês de 2010 pretende fazer. O título original do filme em francês é "Nannerl, la soeur de Mozart". Não estreou no Brasil, nem deve estrear. Teremos sorte se sair em vídeo. Estou tentando baixar na net.

O título em inglês é "Mozart's Sister" e achei essa crítica que diz que o filme não consegue ser excelente por não se decidir sobre o que foi Nannerl se "(...) gênio, mártir, uma causa feminista, uma filha desapontada, uma mulher resignada ou tudo o que foi dito acima". Não vi mais que o trailer do filme, acho que nenhum filme precisa se decidir sobre coisa nenhuma, afinal, quem sabe o que foi Nannerl "de verdade"? Acho muito provável que ela tenha sido um pouco de tudo isso e uma demonstração de que não temos mais mulheres entre "grandes" (*com toda a carga de relativização que esse termo permite*) gênios da música, da filosofia, da ciência porque as práticas de supressão eram muito bem coordenadas e aplicadas. Nannerl para mim é um exemplo perfeito, ela poderia ser um gênio, mas submetida à condições de produção que impossibilitaram o desabrochar de todos os seus talentos.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Arqueólogos encontram o Ateliê mais antigo do mundo



Essa notícia está circulando faz vários dias e a Isto É trouxe um texto bem completo sobre a descoberta. Posto somente uma parte, quem qusier continuar lendo, visite a página da revista.
A maquiagem e as roupas coloridas remontam a uma época quase tão antiga quanto a do surgimento do próprio homem moderno. Muito antes da pintura nos olhos de Cleópatra, no Antigo Egito, o uso de minerais para colorir e proteger a pele, ou mesmo as roupas, era comum entre nossos ancestrais. Um novo estudo conclui que esse costume é bem anterior ao que imaginávamos. Arqueólogos descobriram uma espécie de ateliê na caverna Blombos, na África do Sul, onde, há 100 mil anos, humanos preparavam tintas à base de minerais. As evidências anteriores mais antigas eram de, pelo menos, 50 mil anos depois. O estudo foi divulgado na semana passada pela prestigiada revista científica “Science”.

A pesquisa, liderada pelo arqueólogo Christopher Henshilwood, da Universidade do Witwatersrand, em Johanesburgo, é baseada em artefatos encontrados em 2008 na caverna, localizada a cerca de 300 quilômetros da Cidade do Cabo. No local foram achados dois conjuntos de ferramentas de ossos, pedras e conchas. Além desses objetos, os arqueólogos encontraram vestígios de carvão e ocre – um tipo de terra ou pedra que contém óxidos vermelhos ou amarelos ou hidróxidos de ferro (que dão aspecto de ferrugem ao mineral).

De Olho no Vestibular: Cristãos perseguidos



Nos últimos dias a imprensa do mundo inteiro vem mostrando imagens das manifestações dos cristãos no Egito e da repressão promovida pelo novo governo. Desde a queda do regime ditatorial - e a substituição por outro que parece caminhar para algo semelhante - a situação dos cristãos é precária. A revista Isto É trouxe uma matéria sobre o assunto que pode ser tema dos próximos vestibulares:
Imagine um país onde a filiação religiosa deva constar no documento de identidade de todos os cidadãos, onde sua crença implique restrições para ocupar postos de trabalho, ter acesso à educação e se casar. No Egito, predominantemente islâmico, isso acontece e as principais vítimas da intolerância religiosa são os cristãos, que representam 10% da população. Na semana passada, o mundo testemunhou um derramamento de sangue no país. Vinte e cinco pessoas – a maioria fiéis coptas, como são chamados os cristãos que não seguem o Alcorão – morreram no domingo 9, no Cairo, em confronto com outros civis e o Exército. Tanques passavam por cima dos manifestantes sem dó. Carregando cruzes e imagens de Jesus, milhares de pessoas estavam nas ruas em um protesto inédito contra a opressão histórica patrocinada pelos muçulmanos. Os representantes do cristianismo se revoltaram depois de mais um incêndio sofrido por uma igreja copta. “A primavera no mundo árabe parece que acordou muita gente, inclusive os coptas”, diz o sacerdote católico Celso Pedro da Silva, professor emérito da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo.

Com o estado de insegurança que domina o Egito após a queda do ex-presidente Hosni Mubarak, em fevereiro, grupos muçulmanos tentam demarcar mais territórios em meio à indefinição do poder público. E os coptas, historicamente marginalizados pelo governo, estão levantando a voz. Há severas restrições – só para citar uma fonte de discriminação – para a construção e reformas de templos cristãos, patrulha que não ocorre entre os muçulmanos. Em solo egípcio há apenas duas mil igrejas perante as 93 mil mesquitas. Na quinta-feira 13, o papa Bento XVI manifestou-se no Vaticano: “Uno-me à dor das famílias das vítimas e de todo o povo egípcio, desgarrado pelas tentativas de sufocar a coexistência pacífica entre suas comunidades.” O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu proteção à minoria copta e afirmou estar profundamente preocupado com o Egito.

A intolerância religiosa contra os cristãos não ocorre só no Egito. Um levantamento feito, em maio, pela Comissão sobre Liberdade Religiosa Internacional dos Estados Unidos mostra quanto a violência anticristã está disseminada mundo afora. Na China, segundo a comissão, pelo menos 40 bispos católicos estariam presos ou desaparecidos. Na Nigéria, cerca de 13 mil pessoas teriam morrido em conflitos violentos entre muçulmanos e cristãos desde 1999. Mais: na Arábia Saudita, lugares de cultos não muçulmanos são proibidos e livros escolares seguem pregando a intolerância a outras etnias. Irã e Iraque também são citados. No primeiro, mais de 250 cristãos teriam sido presos arbitrariamente desde meados de 2010. Já o país vizinho registra uma das maiores quedas no número de cristãos da sua história – em oito anos, esse grupo caiu pela metade e soma, hoje, 500 mil. “Os atos de violência têm como objetivo pressionar a população a abandonar suas terras”, explica Keith Roderick, secretário-geral da Coalizão para a Defesa dos Direitos Humanos.

Infelizmente tem funcionado. O Oriente Médio, berço do cristianismo, era constituído, no início do século XX, por cerca de 20% de seguidores de Jesus Cristo. Estimam os especialistas que o povo cristão atualmente não represente nem 2% dos habitantes daquela região. O papa Bento XVI chama a investida dos muçulmanos de “conquista à base da espada”. No ano passado, o Sumo Pontífice manifestou-se a favor da libertação de uma paquistanesa cristã condenada à forca por blasfêmia, no Paquistão, país onde mais de 30 pessoas foram assassinadas com essa justificativa. Asia Bibi, então com 45 anos, teria dito ao ser insultada por mulheres muçulmanas: “O que Maomé fez por vocês? Jesus, pelo menos, sacrificou-se por mim”. Graças à pressão internacional, a pena não foi cumprida, mas Asia aguarda novo julgamento. Ela é a primeira mulher na história a receber uma pena de morte por conta de perseguição religiosa. Um título que nenhum país deveria se orgulhar.
Acredito que notícias semelhantes às do Egito não tardarão a vir da Líbia e da Síria, caso se derrube o regime. Isso acrescido do Iraque, claro, cujos cristãos passam por sérias restrições depois da invasão Norte Americana. Ainda que ditatoriais e violentos, vários dos regimes que foram derrubados pela Primavera Árabe garantiam minimamente os direitos das minorias. Talvez até por isso, o ódio contra grupos religiosos minoritários venha à tona. Embora nada justifique uma ditadura, se ela é laica ou assim quer parecer, conflitos religiosos são contornados, reprimidos, ou não existem. Já das ditaduras religiosas não se pode dizer o mesmo. A intolerância religiosa ou de raiz religiosa cresce no mundo, a perseguição aos cristãos é uma das duas faces, a islamofobia é outra, a homofobia, mais uma delas. Fiquem atentos aos noticiários, pois este é um tema quente.

Cientistas conseguem reconstruir DNA da doença



A peste negra, que matou mais de 50 milhões de europeus entre 1347 e 1351, é a grande referência para os que temem uma nova pandemia. No entanto, estudo publicado na revista “Nature” mostra que a devastadora bactéria medieval difere muito pouco das que circulam hoje no mundo – o que leva os cientistas a acreditar que as causas da tragédia residem mais em fatores socioambientais do que nas características genéticas da patologia. Essa conclusão só foi possível porque, coletando resíduos de sangue de quatro ossadas, os pesquisadores conseguiram reconstruir todo o genoma da peste. É a primeira vez que uma enfermidade antiga tem seu DNA inteiramente desvendado.

Fonte: Revista Isto É