sábado, junho 14, 2008

2º BIMESTRE: Lutero e a Reforma Protestante na Alemanha


O Sacro Império Romano-Germânico

A Alemanha nesta época era constituída por uma série de territórios e cidades que possuíam administração independente e estavam ligados entre si numa forma que lembrava uma federação, reconhecendo apenas uma lealdade limitada ao chefe do Sacro Império Romano-Germânico. Alguns desses Estados — Baviera, Saxônia, Brandem-burgo, Áustria, Palatinado... — eram governados por duques, condes, margraves* ou outros senhores seculares; outros — Mogúncia, Halle, Colónia, Bremen, Estrasburgo, Salzburgo... — eram politicamente sujeitos, em graus variáveis, à autoridade de bispos e arcebispos. Por volta de 1460, uma centena de cidades havia recebido cartas de liberdade virtual de seus superiores leigos ou eclesiásticos. Os principados e as cidades livres enviavam representantes à Dieta Imperial, que debatia os problemas de todos. A Dieta de Eleitores era convocada para escolher o rei, e nela votavam o rei da Boêmia, o duque da Saxônia, o margrave de Brandemburgo, o conde palatino e os arcebispos de Mogúncia, Trier e Colônia. Essa escolha criava apenas um rei, que era reconhecido, depois de sagrado pelo papa, como imperador do Sacro Império Romano-Ger¬mânico. No fundo, essa organização se apresentava como uma frouxa associação entre Alemanha, Áustria, Boêmia, Holanda e Suíça.

A 15 de março de 1517, o papa Leão X promulgou a mais célebre de todas as indulgências: aquela que oferecia a remissão de todos os pecados a quem contribuísse para a construção da nova basílica de São Pedro em Roma, cuja obra havia sido iniciada pelo papa anterior,Júlio II. Reis e governantes de toda a Europa protestaram contra as constantes contribuições à Igreja de Roma, que empobreciam seus territórios. Onde os reis eram poderosos, o papa negociou com prudência: concordou que Henrique VIII retivesse um quarto dos lucros na Inglaterra, acertou a mesma coisa com Francisco I da França e concedeu um empréstimo ao rei Carlos I (que mais tarde vai ser o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico) contando com as coletas que seriam levantadas na Espanha. Na Alemanha, que não tinha uma monarquia forte para negociar e era extremamente próspera, o papa entrou em acordo com os Fugger, que eram banqueiros, e tentou extrair de lá todo o dinheiro que pudesse.

Lutero

Nesta época, Lutero era professor de Teologia na Universidade de Wittenberg. Nascido em Eisleben, em 1483, Lutero foi um aluno aplicado e recebeu, aos 22 anos, o grau de Doutor em Humanidades pela Universidade de Erfurt. Por influência do pai, começou a estudar Direito, mas logo desistiu e tornou-se monge. Essa decisão era fruto da atmosfera de inquietação, temores e angústia religiosa da época, que afetou profundamente Lutero, preocupado com a salvação de sua alma e com a tentação do pecado.

Durante os anos no convento e posteriormente como professor de Teologia na Universidade de Wittenberg, Lutero foi aperfeiçoando sua visão a respeito da salvação do homem e do pecado. Lutero era um admirador dos escritos de João Huss, herege queimado pela Igreja em 1415, especialmente de suas idéias sobre a liberdade da Igreja diante dos papas, sobre a liberdade de consciência individual diante do concílio e sobre a necessidade de reconduzir o mundo cristão à simplicidade apostólica. Numa carta de 1520, Lutero chega a afirmar que "todos somos hussitas sem o saber; São Paulo e Santo Agostinho são também perfeitos hussitas". (Lutero, carta de 1520. Apud Henry Kamen, Los caminos de la tolerância, p. 58.)

Lutero termina por convencer-se da impotência total e irremediável da vontade humana diante da onipotência da graça divina. O livre-arbítrio foi corrompido pelo pecado de Adão, e, por isso, somente a fé, que é a primeira das graças que Deus envia gratuitamente àqueles que escolheu, pode salvar-nos. As obras não têm importância para a salvação, elas são um simples sinal da graça de Deus. (...)

Estava iniciada a briga com Roma. As Noventa e Cinco Teses, escritas originalmente em latim, foram traduzidas para o alemão e tiveram ampla divulgação e aceitação. O papa Leão X ordenou a Lutero que fosse a Roma se retratar. Protegido por Frederico, Eleitor da Saxônia, Lutero encontrou-se em Augsburgo com o cardeal Cajetan (12 a 14 de outubro de 1518), enviado do papa, mas não se retratou.

Para o texto das 95 Teses de Lutero, sugiro a leitura do artigo do Professor Alexander Martins Vianna, na
Revista Espaço Acadêmico que analisa o documento e tem excelente qualidade.

Rompendo com Roma

Tendo recebido apoio de diversos lados, Lutero se decide a romper com a Igreja de Roma:

Atirei os dados. Agora desprezo a ira dos romanos tanto quanto sua proteção. Não me reconciliarei com eles por toda a eternidade[...] Eles que condenem e queimem tudo o que me pertence; em retribuição, farei o mesmo com eles [...] Agora já não tenho medo, e vou publicar um livro em língua alemã sobre a reforma cristã, dirigido contra o papa, em uma linguagem tão violenta como se me estivesse dirigindo ao Anticristo. (Lutero, carta a Spalatin, 1520. Apud Will Durant, op. cit., p. 295.)
Uma vez feito o rompimento, as críticas de Lutero ao papa e a toda a Cúria Romana aumentaram de intensidade:

Se Roma assim acredita e ensina com o conhecimento dos papas e cardeais (que eu espero não seja o caso), então nestes escritos declaro livremente que o verdadeiro Anticristo está sentado no templo de Deus e reina em Roma — essa Babilônia tinta de roxo — e que a Cúria Romana é a Sinagoga de Satanás [...] Se a fúria dos romanos assim continuar, não haverá outro remédio senão os imperadores, reis e príncipes, rodeados de força e armas, atacarem estas pestes do mundo, e não mais resolver o assunto com palavras e sim com a espada. [...] Se nós abatemos os ladrões com a forca, os salteadores com a espada, os hereges com o fogo, por que não atacarmos em armas esses senhores da perdição, esses cardeais, esses papas, e toda essa cloaca da Sodoma romana que corrompem sem cessar a Igreja de Deus, e lavarmos as mãos em seu sangue? (Lutero, 'Epítome', 1520. Apud Will Durant, op. cit., p. 295.)
A 15 de junho de 1520, Leão X publicou a bula Exsurge Domine, que condenava 41 declarações de Lutero e ordenava a queima pública de suas obras, dando-lhe 60 dias de prazo para ir a Roma abjurar seus erros, caso contrário seria excomungado. Lutero não foi e publicou um livro em que traça um programa de reforma religiosa:

Passou-se o tempo de calar, chegou o tempo de falar, como diz Eclesiastes. De acordo com nosso propósito, reuni algumas propostas para a melhoria do estamento cristão, para apresentá-las à nobreza cristã da nação alemã, caso Deus queira ajudar à sua Igreja através dos leigos, uma vez que o clero, a quem isto caberia com mais razão, se descuidou disso por completo [...]Com muita astúcia os romanistas se circundaram de três muralhas, com que até agora se protegeram, de sorte que ninguém os pôde reformar, razão por que toda a cristandade decaiu terrivelmente. Em primeiro lugar: quando se os apertou com poder secular, determinaram e disseram que o poder secular não tem direito sobre eles, e sim o contrário: o eclesiástico estaria acima do secular. Segundo: quando se os quis censurar com base na Sagrada Escritura, eles objetaram dizendo que a ninguém cabe interpretar a Escritura senão ao papa. Terceiro: quando ameaçados com um concílio, inventam que ninguém pode convocar um concílio senão o papa. Assim nos roubaram às ocultas as três varas, para poderem ficar impunes, e tomaram lugar na segura fortaleza destas três muralhas, para praticar toda sorte de vilanias e maldades que agora vemos. (Lutero, 'Carta aberta à nobreza cristã da nação alemã sobre a Reforma do Estado Cristão', agosto de 1520. Apud Martinho Lutero, Obras completas, v. 2, p. 279-81.)
Na sequência do documento, Lutero estabelece que não há verdadeira diferença entre o clero e a laicidade*, que qualquer cristão pode interpretar as Escrituras segundo suas próprias luzes e mostra que a Escritura não oferece justificativa alguma para o direito exclusivo do papa de convocar um concílio:

[...] todos os cristãos são verdadeiramente de estamento espiritual, e não há qualquer diferença entre eles a não ser exclusivamente por força do ofício [...] Assim pois todos nós somos ordenados sacerdotes através do Batismo [...]É por isto que, em caso de necessidade, cada um pode batizar e absolver, o que não seria possível se não fôssemos todos sacerdotes [...] Daí se segue que leigos, sacerdotes, bispos ou, como dizem, espirituais e seculares no fundo verdadeiramente não têm qualquer diferença senão em função do cargo ou da ocupação. Além disso, todos nós somos sacerdotes, como está dito acima. Todos temos uma fé, o mesmo Evangelho, o mesmo sacramento. Como não haveríamos de ter também o poder de perceber e de julgar o que seria correto ou incorreto na fé? (Id., ibid., p. 282.)
Lutero excomungado

Em 3 de janeiro de 1521, o papa excomungou-o definitivamente por intermédio da bula Decet Romanum Pontificem. Lutero recebe o apoio dos príncipes alemães, que viam na Reforma a possibilidade de romper com a submissão financeira a Roma e tomar as propriedades da Igreja na Alemanha:

Alguns calcularam que todos os anos mais de 300.000 florins encontram o caminho da Alemanha para a Itália. Aqui chegamos ao âmago da questão. Por que é que os alemães têm de suportar tal assalto e tal extorsão de suas propriedades para as mãos do papa? (Lutero, 'Carta aberta à nobreza cristã da nação alemã sobre a Reforma do Estado Cristão', agosto de 1520. Apud Will Durant, op. cit., p. 296.)
Os príncipes tinham muito a ganhar com isso, uma vez que a Igreja Católica alemã era excepcionalmente rica:

A avareza, pecado habitual da época, transparecia entre o clero de todas as ordens e condições, em seu afã de aumentar ao máximo todas as rendas e aluguéis, taxas e emolumentos. A Igreja alemã era a mais rica da cristandade. Todo mundo sabia que quase um terço da propriedade territorial do país estava nas mãos da Igreja, o que tornava ainda mais condenável as autoridades eclesiásticas quererem aumentar sempre suas posses. Em muitas cidades os edifícios e instituições clericais cobriam a maior parte do terreno. (Johannes Janssen, Catholic Encyclopedia, s.d. Apud Will Durant, op. cit., p. 277.)

Os sete morros de Olinda


Matéria do Le Monde publicada no site do UOL.

Os sete morros de Olinda

Véronique Mortaigne
Enviada especial a Olinda-PE



Olinda não é Roma, mas dizem da cidade tropical que ela tem sete morros. A contagem não é fácil, pois, em meio ao clima dominado pelo eterno embalo do vento, os coqueiros, as mangueiras e as frutas-pães confundem a exatidão topográfica. Olinda é tricolor: verde (as árvores), azul (o mar) e branca (os conventos).

Olinda é tão pagã e dissipada quanto religiosa; nela, as religiões, católica, protestante, judaica, vodu, etc., parecem tão diluídas que isso acaba se tornando um sentimento. Sobre um morro, a catedral da Sé (cuja construção foi iniciada em 1537); sobre um outro, o seminário franciscano. Do outro lado, o farol erguido nos anos 1950, preto e branco, baixinho, nostálgico, firmemente plantado e indestrutível, uma espécie de "Cinema Paradiso" do ponto de vista marítimo.

Em 1860, Emmanuel Liais, um astrônomo francês fissurado por Marte que se apaixonara pelas redondezas e as curvas olindenses, havia instalado seu observatório sobre o Alto da Sé. Nele, ele descobrira um cometa, historicamente o primeiro a ser observado em caráter oficial no Brasil, e que ele batizara de cometa Olinda, até o dia em que ele resolveu dedicar-se à botânica. Todas as frutas de nomes indígenas, caju, pitomba, jabuticaba, pitanga, mamão, goiaba, graviola, maracujá... (o qual deve ser tomado em forma de suco) fascinaram os europeus, que, no decorrer das ocupações coloniais e das missões científicas, trouxeram nas suas bagagens desenhistas e naturalistas. Assim, o holandês Maurício de Nassau, que se instalou em Pernambuco onde permaneceu de 1630 a 1665, havia confiado aos seus compatriotas Frans Post e Albert Eckhout a missão de desenharem e gravarem este Brasil tão luxuriante.

Em meio ao ambiente suave quase místico que Olinda mantém nos seus bistrôs, contam que num belo dia de 1947 uma linda organista de traços indígenas ofereceu um suco de graviola para um jovem franciscano alemão que havia desembarcado recentemente para viver no convento de São Francisco. Que em decorrência deste gesto de pura bondade, eles se casaram; que ele se tornou contador numa usina de cana-de-açúcar e que eles tiveram uma filha totalmente brasileira chamada Hildegarde.

Alguns anos atrás, o Comitê de festas de Olinda, cidade que possui o mais célebre dos carnavais de ruas do Brasil junto com o de Salvador da Bahia, havia organizado os desfiles da Terça-feira Gorda sobre o tema das obras de Eckhout: abacaxis gigantes, mulheres índias planturosas, guerreiros armados com flechas, peixes-gatos, linces e cobras. A fauna e a flora deambulavam nas vielas pavimentadas, cutucando as concavidades das encostas, organizando a confusão sobre os promontórios ao cruzarem com as marionetes gigantes do frevo (com fanfarras e tudo) e com os grupos negros de maracatu (com os seus tambores).

Contar os morros nessas condições é um desafio. O músico e cantor Alceu Valença, um famoso olindense, prefere as imagens da estética feminina à cartografia detalhada. A respeito da sua cidade, ele compôs um "Sonho de Valsa", música que celebra um diálogo de paz com aquela que ele chama de "a minha mulher": "Tu és linda / Pra mim és ainda / Minha mulher / Calada / O silêncio rompe a madrugada".

Por sua vez, Gilberto Freyre (1900-1987), um escritor e sociólogo, estava em busca da precisão. Autor de um dos livros fundadores do pensamento moderno brasileiro, "Casa Grande e Senzala" (1933), ele recenseou oito morros em Olinda. Em 1944, ele também escreveu um muito poético "Guia de Olinda", cuja sexta edição acaba de ser publicada. Esta obra nunca saiu de moda, apesar dos avanços do progresso e da construção civil no Brasil moderno, que não prejudicaram a antiga cidade. Fundada em 1537 pelos portugueses, a cidade, que está classificada no patrimônio mundial pela Unesco desde 1982, deveria o seu nome à exclamação de um serviçal de Duarte Coelho, o colonizador: "Oh! Linda!", teria exclamado o comovido ajudante, contemplando do alto dos morros o oceano de reflexos de esmeralda.

Os engenhos

Olinda pertence à aristocracia brasileira das cidades "históricas": Ouro Preto, o ouro e o barroco das Minas Gerais, no centro; Parati, o refúgio dos piratas, ao sul; Alcântara, no Maranhão, o sonho de conquista do rio Amazonas... Durante dois séculos, quando foi a capital do Estado do Pernambuco, Olinda fez frutificar sua riqueza com o comércio da cana-de-açúcar. Esta era cultivada pelos escravos vindos da África, nas lavouras dos engenhos, as fazendas nos arredores da cidade, das quais muitos dos proprietários eram judeus portugueses. Estes haviam sido convertidos à força ao catolicismo em 1497, e obrigados a partirem para as colônias - recentemente, foi restaurada no Recife aquela que fora a primeira sinagoga das Américas.

A cidade apresenta feições arquitetônicas do barroco tardio português, além das marcas da passagem dos holandeses. Esses últimos, vindos como colonizadores concorrentes, saquearam a torto e a direito antes de passarem a atuar como civilizadores. O Convento São Francisco, o primeiro convento franciscano do Brasil, construído em 1577 e que desaparecera num incêndio, fora reconstruído entre 1615 e 1630, desta vez com o acréscimo de esplêndidos azulejos nos quais é contada a história colonial e a vida de são Francisco.

Olinda foi uma espécie de Coimbra - a grande cidade universitária de Portugal - brasileira. Em 1627, o padre Antonio Vieira (1608-1697), o mais célebre dos pregadores jesuítas, um defensor dos povos indígenas e dos escravos africanos, ensinou a retórica na então capital pernambucana - ele tinha apenas 18 anos, então. Mais tarde, a cidade abrigou a Escola Superior de Direito, que atuou em favor da evolução do Brasil imperial rumo à República.

Nela, o arcebispado até hoje tem a sua sede. Dom Helder Câmara (1909-1999), o bispo "vermelho", defensor dos sem-terra e um opositor fervoroso à ditadura militar, tomava a frente de procissões no meio da gente simples. Aliás, como santo padroeiro Olinda escolheu o "povorello", o pobrinho, Francisco de Assis. O pregador do sermão aos pássaros é atualmente representado por meio de estatuetas de terra cozida.

O antigo mercado de escravos

Os moleques brincalhões costumam conduzir os turistas até as bancas de artesanato, na frente da catedral ou na Ribeira, o antigo mercado de escravos. Eles têm uma lábia expressiva e agitada, o olhar atrevido. Num instante, eles desaparecem no meio das vielas coloridas. Para eles, o Nordeste inventou um excelente doce de mandioca com castanha de caju, o muito bem chamado pé-de-moleque, que sem dúvida deve o seu nome à sua cor marrom escuro e à sua aparência um pouco rústica e queimada.

Ao anoitecer, os ruídos de Olinda se sobrepõem às histórias: cânticos que transpiram das igrejas, tambores e fanfarras dos ensaios carnavalescos, cantos das rãs e dos grilos, gritos do vendedor de tapioca (bolinhos à base de mandioca) ou de cocadas.

Olinda forma então um todo do qual nada pode ser dissociado. "Não há apenas as árvores que convivem numa excepcional intimidade com as igrejas antigas. Há também os pássaros e as crianças", escreveu Gilberto Freyre, oferecendo a seguinte explicação, absolutamente olindense: "Tudo isso é por causa da luz, que permite que a natureza refresque constantemente a tradição".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

terça-feira, junho 10, 2008

2º BIMESTRE: Erasmo de Rotterdam — A crítica dentro da Igreja


Durante os séculos XV e XVI, inúmeros padres e monges levantaram sua voz criticando a Igreja e propondo a convocação de concílios para encaminhar reformas. Muitos deles criticaram severamente a Igreja, mas permaneceram sempre dentro dela, sem chegar ao rompimento com Roma. Erasmo de Rotterdam (1466-1536) foi um desses homens. Desde cedo participou do movimento dos Irmãos da Vida Comum, que buscava um ideal de piedade e desprezo ao mundo. Posterior¬mente, tornou-se monge agostiniano, bacharel e professor de Teologia. Erasmo combatia a venda das indulgências e o comércio de objetos sacros (simonia):

Que diria Jerônimo se pudesse ver o leite da Virgem exibido por dinheiro, recebendo tanta veneração quanto o corpo consagrado de Cristo; os óleos milagrosos; os fragmen¬tos da verdadeira cruz, suficientes, se fossem reunidos, para fabricar um grande navio? Aqui temos o capuz de São Francisco, ali a saia de Nossa Senhora, ou o pente de Santa Ana... não apresentados como auxiliares inocentes da religião, e sim como a substância própria da religião — e tudo pela avareza dos padres e hipocrisia dos monges que brin¬cam com a credulidade do povo. (Erasmo, Novum Testamentum omne, diligenter ab Erasmo Rot. recognitum at Emendatum, 1518. Apud Will Durant, op. cit., p. 239.)

Erasmo defendia a tradução da Bíblia para as línguas nacionais e sua leitura por todos os cristãos:

Gostaria que a mais fraca mulher lesse os Evangelhos e as Epístolas de São Paulo [...] Gostaria que essas palavras fossem traduzidas para todas as línguas, afim de que não só os escoceses e irlandeses, como também turcos e sarracenos pudessem lê-las. Anseio por que o lavrador as cante para si mesmo quando acompanha o arado, o tecelão as murmure ao som de sua lançadeira, que o viajante iluda com elas a monotonia da jornada. (Id.,ibid.,p. 240-1.)
O elogio da loucura

Muitos de seus escritos foram redigidos em tom satírico, entre eles O elogio da loucura, em que se louva a necessidade da loucura e a tolice da sabedoria no mundo:


Rivais dignos dos príncipes, os soberanos pontífices, os cardeais e os bispos [...] Hoje, os bispos apenas se preocupam em apascentar-se a si próprios, deixam o cuidado do rebanho a Cristo. Esquecem que a palavra bispo significa trabalho, vigilância, solicitude. Servem-se apenas de tais qualidades quando pretendem recolher dinheiro. [...] Se os Sumos Pontífices, que estão no lugar de Cristo, se esforçassem por imitá-lo na pobreza, nos trabalhos, na sabedoria, no sofrimento e no desprezo pelas coisas terrenas, não seriam eles os mais infelizes de todos os homens ? Quantas comodidades não perderiam, se um dia a sabedoria os penetrasse. Vede quantas riquezas, honras, troféus, ofícios, dispensas e impostos, indulgências, cavalos, mulas, guardas e prazeres. Ora, tudo deveria ser substituído pelos jejuns, vigílias, lágrimas, orações, sermões, estudos e penitências e mil outros incómodos enfadonhos. (Erasmo, O elogio da loucura, 1511, p. 117-9.)

Um ano após a morte do papa Júlio II, Erasmo publicou um diálogo de São Pedro com o papa na tentativa de entrada no céu:

Júlio: Basta. Sou Júlio, o ligurino*, P.M. ...
Pedro: P.M.! Que é isso? Pestis máxima ?
J: Pontifex Maximus, seu velhaco.
P: Se você é três vezes Maximus... não poderá entrar aqui se não for também Optimus.
J: Impertinência! Você, que não foi mais do Sanctus em todas essas eras — e eu Sanctissimus, Sanctissimus Dominus, Sanctitas, a própria Santidade, com bulas* para prová-lo.
P: Não há diferença entre ser santo e ser chamado Santo?... Deixe-me olhar um pouco mais de perto. Hum! Sinais de impiedade em abundância... Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo; olhos ferozes, boca insolente, testa impenetrável, corpo cheio de cicatrizes de pecados, hálito carregado de vinho, saúde esgotada pela libertinagem. Ai, ameace quanto quiser, vou dizer-lhe quem é... É Júlio, o Imperador que voltou do inferno...
[...] P: Tem de mostrar seus méritos antes de entrar.
J: Que quer dizer por méritos?
P: Ensinou a verdadeira doutrina ?
J: Eu não. Estive ocupado demais com a guerra. Há monges para cuidar da doutrina [...]
P: E a respeito de Ferrara ?
J: [...] Eu queria o ducado de Ferrara para um filho que tinha, em que se poderia confiar que seria fiel à Igreja, e que acabava de apunhalar o cardeal de Pavia.
P: Como?Papas com esposas e filhos?
J: Esposas? Não, esposas não, mas por que não filhos?
P: Não haverá meio de remover um mau papa ?
J: Absurdo! Quem pode remover a mais alta de todas as autoridades ? Um papa só pode ser corrigido por um Concílio Geral, mas nenhum Concílio Geral pode ser convocado sem o consentimento do papa. Portanto, ele não pode ser deposto por crime algum. [...] Então, não quer abrir o portão?
P: Antes para qualquer outra pessoa do que para gente como tu...
J: Se não ceder, tomarei seu lugar à força. Neste momento estão fazendo uma bela destruição lá embaixo; em breve terei 60 000 fantasmas atrás de mim.
P: Oh, homem miserável! Oh, miserável Igreja! Não me surpreende que agora tão poucos se apresentem aqui pedindo para entrar, quando a Igreja tem tais governantes. [...]
(Erasmo, Iulius exclusus, 1514. Apud Will Durant, op. cit., p. 235-7.)

Fé e razão

No fundo, as idéias de Erasmo não constituem uma nova doutrina, mas uma tendência a uma religião simplificada, combinando fé e razão, baseada nas Escrituras, onde o livre exame das questões teológicas é possível a uma elite. A fé e a esperança nas capacidades do homem representam uma influência muito grande do humanismo renascentista, do qual Erasmo é um dos expoentes. O discurso de Erasmo tinha muito prestígio intelectual e encontrava audiência junto a papas, soberanos, intelectuais, homens de Estado, além de penetrar difusamente nos segmentos burgueses. Entretanto, tinha pouca penetração nos meios populares. No que se refere à salvação do homem, Erasmo defendia o livre-arbítrio:
[...] a verdade das Escrituras mostra a liberdade do homem de escolher entre o bem e o mal de acordo com sua vontade interior. A alma humana possui um poder de julgar e um poder de escolher. O pecado de Adão corrompeu a vontade e a inteligência humanas, mas não as anulou. [...] mesmo sem a graça podemos dirigir-nos para o bem, realizar obras moralmente boas e que merecem de Deus uma Graça santificadora. (Erasmo, De libero arbítrio, 1524. Apud Will Durant, op. cit., p. 363.)

De acordo com o pensamento renascentista, Erasmo afir-lava a bondade natural do homem:

Há uma razão em todo homem, e em toda razão uma tendência para o bem [...] O cachorro nasce para caçar; o pássaro para voar; o cavalo para correr; o boi para lavrar; assim o homem nasce para amar a prudência e as boas obras. A natureza do homem é uma inclinação, uma propensão profundamente instintiva para o bem. (Erasmo, De pueris statim ac libera-lites instituendis, 1529. Apud Will Durant, op. cit., p. 363.)
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Viajando muito pela Europa e pelo Sacro Império Romano-Germânico, Erasmo conheceu as idéias de Lutero. A 9 de setembro de 1517, Erasmo escreveu de Antuérpia, onde se encontrava, ao Cardeal de York, e numa das frases da carta diz: "Nesta parte do mundo temo que se esteja preparando uma grande revolução".

domingo, junho 01, 2008

D. João VI no Correio Braziliense


Padre José Maurício Nunes Garcia, o melhor organista da corte, oxigenou a cena musical do Rio em 1808 Marcos Portugal chegou ao Brasil em 1810 e foi nomeado mestre-de-capela no lugar de Nunes Garcia

O Correio Braziliense é o jornal mais importante de Brasília e veio com uma série de matérias comemorativas dos seus 200 anos... ou dos 200 anos do primeiro jornal do Brasil, chamado de Correio Braziliense. Vou estar postando toda a série aqui. Esta é a sétima.

O mulato contra o português

Nahima Maciel
Da equipe do Correio

O repertório preparado pelo mestre-de-capela Marcos Portugal para o concerto de hoje na Capela Real está ao gosto de S.A.R e sua Augusta Família. A comédia napolitana, preferida de dom João VI, é a âncora de Portugal para montar os programas da capela. Os castrati italianos, importados logo que a corte foi transferida de Lisboa para o Rio de Janeiro, estão a postos para empostar suas vozes de soprano e os cenários burlescos para a música lírica italiana tão apreciada pela corte. Há anos Portugal faz ouvir suas vontades e seus egos na cena musical do Rio. Exige da Casa Real muito mais que suas necessidades musicais e consegue de S.A.R os favores mais estapafúrdios. Mas dom João acha o conterrâneo divertido. E lhe faz concessões. Portugal consegue, assim, ofuscar um brasileiro do qual pouco se ouve falar nos dias de hoje, um rival confesso e talentoso. Relegado a tímido assistente da Capela Real, o padre José Maurício Nunes Garcia pouco decide sobre os programas da casa. A ele não são concedidas vontades e é preciso percorrer recintos privados e íntimos para ouvir uma das centenas de suas brilhantes peças compostas na última década.

Há cinco anos, em 1808, Nunes Garcia era o principal responsável por oxigenar a cena musical do Rio. Vale lembrar a delicadeza do repertório montado para receber dom João VI e sua corte, em março daquele ano, por ocasião do desembarque real. Veio do padre-mestre o esforço para organizar a estrutura musical da Capela Real, quando o regente decidiu transferi-la da Igreja do Rosário para a Catedral do Carmo. Mas é a qualidade musical de Nunes Garcia a peça mais importante desse tabuleiro.

A música sacra de inspiração clássica do padre tem raízes no melhor da produção européia. Se o repertório de Portugal se presta a piruetas vocais típicas da música napolitana, apropriada à vaidade dos cantores e ao entretenimento do público, as pautas de Nunes Garcia se destacam pela sobriedade e simplicidade da massa vocal entoada pelos corais. O padre também orquestrou a primeira apresentação do Réquiem de Mozart no Brasil. “Esta primeira experiência foi tão bem-sucedida em todos os seus aspectos que esperemos que não seja a última”, reparou o compositor austríaco Sigismund Neukomm, radicado no Rio.

Agora voltemos a Portugal. Naquele mesmo 1808 em que o Rio via desembarcar dom João VI e sua corte em fuga das tropas de Napoleão Bonaparte, o compositor subia ao palco do Teatro São Carlos, em Lisboa, para dirigir uma ópera de autoria própria em comemoração ao aniversário do imperador francês. Também escreveu um Te Deum a pedido dos franceses que ocupavam Portugal, situação tão embaraçosa que, poucos meses depois, tratou de compor outra peça sacra para dom João VI. Portanto, causa estranheza a predileção de S.A.R por Marcos Portugal.

A preferência da corte é senhora dos palcos. E nos tempos atuais desta década de 1810 é ínfimo o espaço para um padre-mestre mulato, filho de uma descendente de escravos e um branco e, ele mesmo, pai de filhos, condição que em pouco beneficia o prestígio do mestre-de-capela. Mais vale o glamour do português de formação italiana, autor, é verdade, de óperas encenadas no Scala de Milão e no Odeon de Paris. São conhecidos do público os desafios protagonizados pelos dois compositores. Nesses, ficou notória a capacidade de improvisação de Nunes Garcia, o melhor organista da corte. As competições, no entanto, não impediram que o senhor Portugal viesse a dominar a cena musical palaciana.

Fonte: A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI, de Vasco Mariz. Editora Casa da Palavra, 2008

D. João VI no Correio Braziliense


O Correio Braziliense é o jornal mais importante de Brasília e veio com uma série de matérias comemorativas dos seus 200 anos... ou dos 200 anos do primeiro jornal do brasil, chamado de Correio Braziliense. Vou estar postando toda a série aqui. Esta é a sexta.

Há 200 anos...
Dom João VI muda rumo do mercado

Carmen Souza
Da equipe do Correio

De mala e cuia em solo brasileiro, a família real portuguesa provocou mudanças nas condições de trabalho que influenciam até hoje as relações entre mercados, patrões e funcionários. Logo no desembarque, em 1808, o anúncio feito por Dom João VI do fim da produção exclusiva causou impacto nas estruturas urbanas e rurais. A partir daquele momento, os portos estavam abertos às nações amigas. Os produtos brasileiros não precisavam mais passar obrigatoriamente pelas alfândegas portuguesas. E estava liberada a importação direta de produtos de países bem relacionados com a Corte.

Há quem diga que essa mudança foi o primeiro passo do Brasil rumo à globalização. Discussões paradigmáticas à parte, o fato é que, um ano depois da abertura dos portos, existiam mais de 100 empresas comerciais britânicas só no Rio de Janeiro. Inaugurações a calhar, já que o auge da exploração do ouro e da produção de cana-de-açúcar havia ficado para trás. Logo na chegada, Dom João VI também revogou um alvará, de 1785, que impedia a fabricação de qualquer produto no Brasil. Começaram a surgir fábricas de pólvora, tecido, barcos, siderúrgicas, carpintarias.

“Evidentemente houve um fortalecimento da vida urbana. Com isso, cresceram a prestação de serviço e a produção de manufaturas ainda precárias. É o começo das relações de trabalho mais liberais e flexíveis mesmo em um regime de escravidão”, afirma Solimar Oliveira Lima, professor de economia da Universidade Federal do Piauí. Figuras como o escravo de ganho e as negras de tabuleiro eram exemplos dessas transformações.

Os escravos de ganho passavam dias longe dos seus senhores e voltavam, na data estabelecida, para pagar o valor combinado pelo período de liberdade. Na cidade, alugavam os seus dotes trabalhando em barbearias, no transporte de pessoas, na limpeza urbana. “Quem pagava pelo serviço exigia que o escravo desempenhasse funções diferentes. E, hoje, essa flexibilidade é uma característica muito valorizada pelo mercado de trabalho”, compara Solimar.

As mulheres voltavam-se mais para o comércio, como acontecia na África. Com tabuleiros na cabeça, vendiam comida para os moradores das cidades. Foi a origem das tradicionais baianas, espalhadas hoje por todo o país. “Eram duas formas de trabalho diferentes do imaginário do tronco — em que o escravo trabalhava 20 horas por dia e depois era chicoteado —, e bastante comuns no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais”, explica Eduardo França Paiva, professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais.

Jornada de sangue

Apesar da flexibilidade, a jornada imposta aos trabalhadores, independentemente das regras, era exaustiva, salienta Sadi Dal Rosso, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. “Era um trabalho tingido de sangue. A expectativa de vida naquela época era de 25, 27 anos. Grandes empregadores chegavam a investir em um sistema de reprodução de escravos”, afirma. Estima-se que, no início do século 18, o tráfego negreiro tenha trazido 1,5 milhão de africanos para o Brasil.

Além dos escravos, existiam os trabalhadores livres e, ainda incipientemente, pessoas submetidas a um regime de pré-assalariamento. Em muitos casos, não recebiam um salário, mas tinham a permissão para explorar a terra e dividiam a colheita com o proprietário. “É a origem do coronelismo, em que os trabalhadores submissos produzem para os grandes latifundiários”, diz o professor Solimar.

Ao longo do século 19, essas relações foram ganhando força, a ponto de a Lei Áurea — que em 1888 extinguiu o regime de escravidão — ter um caráter apenas formalizador. “Ela (a lei) deu continuidade a formas tradicionais de trabalho. Reconheceu uma realidade que existia. Já no início do século 19, a realidade do trabalho era diversa, plural e de uma mobilidade considerável”, destaca o professor Eduardo Paiva.

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